No Brasil uma mulher é estuprada a cada 11 minutos, são 130 por dia e de todos esses casos apenas 35% são notificados. A atriz Giselle Itié revelou que também faz parte desses dados. Em entrevista a revista ‘Glamour’ ela conta que foi abusada aos 17 anos, quando ainda era virgem e pelo ultimo homem qual ela podia imaginar. Confira:

“Era uma vez uma menina nascida em uma família amorosa, unida e machista: eu. Quando pequena, meus ídolos eram a Mafalda, a menina inconformada que levantou a bandeira da justiça, da paz e da igualdade, e o Hulk, o monstro humanoide que na sua essência queria paz e harmonia, ainda que de uma forma agressiva. Quanto mais bravo, mais forte ele ficava. Mas o tempo foi passando e, de Mafalda e Hulk, passei a gostar das princesas encantadas de Walt Disney, lindas com seus vestidos à espera do príncipe para o ‘felizes para sempre’. Na minha época, não existia Frozen. Pena.

A educação machista foi me moldando: ‘Menina de família não dança desse jeito!’; ‘Feche as pernas, endireite as costas! Isso não é jeito de menina sentar’. Seguia essa educação, mas a questionava. Pedia para fazer teatro, mas ser atriz não era para uma mocinha de família como eu. Cheguei a morar no México com meus tios para estudar teatro sem que meus pais soubessem. Eu era uma princesa rebelde, mas minhas primas mexicanas me ensinavam a ser uma menina para casar: beijar o namorado só depois de sete meses juntos (oi?!). Imaginava como seria minha primeira vez: de branco, no colo do marido, o quarto cheio de flores e à luz de velas…
Quando tinha 17 anos, deixei de lado o sonho de ser atriz. Estava me preparando para entrar na faculdade de jornalismo e namorava um cara 15 anos mais velho. No início, meus pais surtaram, mas, com tempo, o X passou a fazer parte da família. Meu príncipe era um cara extrovertido, romântico, galã de comerciais. Em dois anos iríamos nos casar. Além disso, respeitava minha virgindade e minha vontade de casar assim.

A gente quase se esmagava de tanta paixão. Às vezes eu ficava assustada e pedia para parar. Às vezes ele parava e às vezes não. Às vezes eu era mais severa. Mas também entendia como era difícil para ele, mais velho, esperar o tempo da ‘virgenzinha’. Uma noite estávamos em um restaurante, e um moço me chamou para ser modelo, me entregando seu cartão. Voltei à mesa, e X ficou bravo. Ele podia ser modelo, eu não… Falei que queria ser atriz e contei que o booker também me chamou para estudar TV e cinema na agência. Pois X levou a conversa para os meus pais com o intuito de me ‘proteger do mal’. Estava cada vez mais possessivo e ciumento.

Até que um dia me chamou para viajar com a família dele. Disse que não aguentava mais ter um relacionamento com ‘uma criança de 17 anos’ e me pressionou ‘amavelmente’ para viajar com ele. Meus pais, infelizmente, me deixaram ir. Antes de viajar, minha mãe me orientou: ‘Não coloque nenhuma gota de álcool na boca!’.
O sítio tinha três casas com vários dormitórios. X propôs que a gente dormisse em uma casa separada dos outros, cada um em um quarto. Mas ele disse que iria me visitar. Na hora de dormir, era uma sensação boa, coração batendo forte, sabe? Quando ele apareceu na primeira noite, fiquei sem saber o que fazer. E ele vinha com jeitinho, dizendo que eu era a mulher da vida dele… Era sufocante sentir vontade mas não estar à vontade. Decidir não querer é difícil, ainda mais quando você está com o ‘amor da sua vida’.

Em uma das noites, ele pegou pesado. Quando me dei conta, meu namorado foi substituído por um estranho ofegante que não queria me escutar. Implorei para ele sair de cima! Quando comecei a chorar, ele decidiu parar e saiu do quarto magoado. Eu fiquei com uma mistura de alívio e culpa. No dia seguinte, X pediu desculpas, disse que me amava e garantiu que iria me respeitar.

Escureceu, e ele teve a ideia de irmos a uma boate. Eu, minha cunhada, todos falamos não, mas ele me convenceu. Chegando lá, lembrei da minha mãe e pedi um suco de laranja com bastante gelo no bar. Ele sorriu para mim. Pensei no quanto ele era lindo, dei um beijo nele e disse: ‘Te amo e vou ao banheiro’. Fui. Voltei. Bebi. Fim. MENINAS, TOMEM CONTA DOS SEUS CO(R)POS!
Quando tinha 17 anos, fui estuprada pelo último homem que eu poderia imaginar. Quando tinha 17 anos, o castelo caiu e fiquei soterrada. X me desejou boa-noite e me chamou de Cinderela. Acordei. Olhei para o lado e lá estava ele, dormindo. Olhei melhor e o vi nu. Susto. Me olhei. Nua. O chão forrado de garrafas vazias. Eu forrada de amnésia. Foi difícil sentar. Então vi o que eu já imaginava. Perdi a virgindade. Me perdi.

Sem saber o que fazer, me tranquei no banheiro. Senti nojo de mim, vergonha, medo. O que aconteceu? Notei meu corpo machucado, roxo, mordido. Não conseguia pensar nem chorar. Só queria o abraço da minha mãe. Como zumbi, fui para o chuveiro e tentei me limpar, tirar a sensação de sujeira. Embaixo da água, me senti de alguma forma protegida. E chorei. Me dei conta de que não era pesadelo quando escutei o X batendo na porta. Num dado momento, me levantei aos prantos e exigi, do outro lado da porta: “Quero ir para a minha casa agora!”. Ele tentou dizer que não dava e entrei em surto. X concordou em me levar.

Em casa, contei tudo para minha mãe. Éramos duas mulheres chorando. Também vítima da sociedade machista, ela não sabia o que fazer. Se sentia culpada, teve medo de contar para meu pai, pois sabia que o mexicano iria atrás do X e a família Itié iria desmoronar. Por isso, decidiu não contar, e eu entendi. Mais tarde, ela foi atrás do X e bateu nele.

Eu? Eu me sentia oca. Sentia tanto quanto não sentia nada. Passei a me vestir com as roupas do meu pai (Freud explica), queria sumir.

Com a ajuda do tempo, da minha mãe e da terapia, comecei a me reencontrar. Decidi ligar para o booker da agência. Lembra? Fui fazer aula de TV e cinema, estudar jornalismo e trabalhar como modelo para pagar o curso. Tudo isso fez um baita barulho em casa, claro, mas eu não era mais aquela Giselle. Total fênix. A imagem das princesas encantadas foi engolida. Eu me sentia o Hulk e contestava tudo que achava injusto, como a Mafalda.

Hoje, tenho consciência de todas as situações violentas pelas quais passei simplesmente por ser mulher. E tudo veio à tona no ato Por Todas Elas, em junho passado, quando uma carioca foi violentada por 33 homens coniventes. Teve um jogral, no qual uma vítima narrava seu abuso e as demais repetiam frase por frase para que todos ouvissem. Aquilo, sim, foi um momento de redenção. Finalmente, percebi que não devia sentir vergonha, que a culpa nunca é da vítima.

Quando aconteceu o recente feminicídio na Argentina, e houve uma ato da organização Ni Una Menos, procurei informações no Brasil e não encontrei. Entrei em contato com organizadoras do Por Todas Elas e sugeri organizarmos o ato Ni Una Menos Brasil. E foi assim que essa nova fase da minha vida nasceu. Em 2 meses, já estava no Comitê de Combate à Violência Contra a Mulher do GMdB (Grupo Mulheres do Brasil), cocriei o coletivo Hermanas, escrevi e dirigi vídeos para chamar as mulheres para o ato do dia 25 de novembro, Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher, no ano passado.

Estamos (sobre)vivendo na cultura do estupro. A cada 12 segundos uma mulher sofre violência no Brasil. Ou seja, todo movimento é importante para chegarmos mais perto do fim da desigualdade de gênero. Foi duro escrever este texto, mas isso me fortaleceu ainda mais. Meninas, precisamos nos unir! Nosso futuro agradece”.

 

Confira campanha “nenhuma a menos” que foi dirigida pela artista e tem como objetivo o combate a violência contra a mulher.

4 COMENTÁRIOS

  1. É estranho perceber o quanto as “coisas” são machistas, o quanto as pessoas sao cegas e eu era, o quanto o machismo é impregnado na nossa sociedade. União meninas! Como diz no texto, nosso futuro agradece!

  2. Triste realidade estamos vivendo. Tenho duas filhas, tendo ensinar a eles totalmente o oposto do que eu aprendi, dentro de uma família machista. Somos “todos” iguais, e tento mostrar a elas através de exemplos.
    Também sofri do mesmo infortúnio que a Giselle.

  3. Quando alguém é estuprado a culpa é da vitima?

    Como não acreditar que a culpa é da vitima se desde que eu contei eu ouvi que a culpa foi minha e não só da minha mãe, como todos os dias por essa sociedade que diz que mulher que usa roupas provocantes merece ser estuprada, que a culpa foi dela por estar bêbada, que se estava usando uma roupa decotada é porque queria e por ai vai, mas o que ninguém entende é como a vitima se sente depois de ser estuprada, nos sentimos invadidas, violadas, sentimos nojo de nos mesmas, sentimos como a sociedade pode ser cruel porque a culpa é sempre da vitima, não importa a idade que tenha sempre dirão que a culpa é da vitima e não do homem.

    Eu ainda sinto na pele as consequências do estupro, por mais que tenham passado 14 anos e mesmo tendo parado quando eu tinha 16 anos, ainda me sinto suja, ainda sinto medo todas as noites quando vou dormir e tenho pesadelos, os tremores que tenho no corpo quando ando de metro e um cara se acha no direito de ficar bulinando em mim, em como o meu corpo as vezes lembra do que aconteceu e ficar com medo que aconteça de novo, em como me senti usada e um instrumento de prazer para ele, em como me sinto culpada pelo que aconteceu, me sinto envergonhada pelo que aconteceu, e faz eu me sentir uma pessoa insignificante e que não merece ser amada por ninguém, por isso afasto as pessoas de mim por achar que ninguém ira querer ser amiga ou querer algo de alguém como eu, ainda sinto medo quando o resto da minha família souber o que aconteceu, todos os dias é uma luta interior para levantar e viver mais um dia nessa sociedade que muitas vezes sabe ser cruel.

    Então pare e pense como você se sentiria se isso acontecesse a você ou a qualquer familiar seu você ainda pensara que a culpa foi da vitima? Ainda pensara que a culpa foi dela por usar roupas decotadas e chamativas? Ainda pensara isso por que ela bebeu um pouco? Se coloque no lugar da vitima e pense como ela pode estar se sentido, nos já nos culpamos tanto pelo que aconteceu para vim vocês e se acharem no direito de nos julgarem sem nem ao menos saber o que aconteceu.

    Texto de minha autoria

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