HISTÓRIA REAL COM NOMES FICTÍCIOS 

 

Dezesseis anos, idade em que todos estão curtindo a adolescencia, namorando, indo a festas. Idade das descobertas, gostos, amores, sensações. Nem todos, não ela. Aos dezesseis ela fugia sem rumo, fugia do abuso, do estupro, da violência. Fugia da culpa que caíra sobre ela. Começou quando era criança, mas ela seduziu. Começou aos sete, mas ela provocou. Homem é assim mesmo, todos sabemos como funciona. Eles têm instintos, são selvagens.
Foi o que Jaqueline ouviu ao denunciar para a família os abusos que sofria desde a infância. O que iriam pensar se um homem religioso fosse preso por abuso? Estupro? Não foi estupro, sequer aconteceu. Engole o choro mulher, você já tem dezesseis, esquece isso, já passou.
Caminhava pelas ruas sozinha, pensando no passado, no presente e no futuro. “Eu deveria ter impedido.” Culpa, desespero.
– Ei, Jaque, onde vai a essa hora?
Um sentimento de alívio ao encontrar um rosto conhecido, mas ao mesmo tempo de medo, pré julgamento.
Laura era colega de Jaqueline há alguns anos e ofereceu um teto naquela noite.
– Obrigada, L.
– Não precisa me agradecer, J. Amanhã vamos tentar uma solução pra tudo isso. Fica tranquila. Boa noite.
– Boa noite.
Durante muitos anos J. dormiu em meio de lágrimas, temendo o que poderia acontecer, mas naquela noite mesmo com todo problema que a cercava, ela relaxou e teve um sono um pouco mais tranquilo, como nunca tivera antes.
No dia seguinte Jaque se levantou, tomou um banho quente para tentar aliviar toda a tensão que sentia. Laura já estava esperando-a na mesa para tomar um café.
– Bom dia, J. Dormiu bem?
Jaque sorriu, um sorriso de gratidão, sentou-se e fez sinal de positivo com a cabeça, confirmando que teria descansado bem.
– Queremos te ajudar, menina. Diz para mim, o que você sabe fazer? – perguntou Celina, avó de Laura, enquanto tomava uma caneca de leite gelado.
Jaqueline, baiana, negra e pobre. A vida nunca lhe deu muitas opções, aprendeu cedo sobre responsabilidades.
– Faço o que precisar, Dona Ce.
– Tenho um casal de amigos que estão de mudança para Goiás e precisam de alguém de confiança para acompanha-los, você tem interesse em ir?
O silêncio dominou aquela cozinha estreita. Tudo que Jaque mais queria no mundo era reconstruir sua vida, deixar os medos no passado e saltar para um futuro brilhante, mas apesar de tudo não podia negar o apego pela sua avó.
– Eu quero. – Respondeu Jaqueline, após vinte segundos de silêncio mútuo. – Eu vou agora mesmo se preciso.
Laura assustou, deu uma inclinada para trás, prendeu seu cabelo num rabo de cavalo bem alto e disse:
– Calma, J. Você não precisa decidir assim. Podemos tentar uma conversa com sua avó, tenho certeza que dessa vez ela entenderá.
– Entenderá? O que ficou confuso quando contei? Me calaram para manter as aparências, Laura. Infelizmente não há o que entender. Eu vou e pronto.
Direcionou seus olhos para Celina, deixou algumas lágrimas rolarem, segurou sua mão e novamente agradeceu pela noite bem dormida.

Lilian e Marcos eram casados há dez anos estavam mudando para Goiás a trabalho, pois ele fora transferido na empresa em que trabalhava. Lilian era professora mas estava desempregada, então foi um ótimo momento para buscar novas oportunidades.
Jaque se preparava para o recomeço, e dessa vez planejava conduzir sua vida para o melhor, riscar de uma vez o passado de sua memória. Esquecer sua infância de dor física e emocional, esquecer as lágrimas, apagar o medo, o desespero de trombar aquele rosto sombrio no corredor durante a madrugada. Agora tudo estava no passado e ela saltava para um futuro planejado com muita felicidade e sabedoria.

Infelizmente, Lilian e Marcos se divorciaram e todos os seus planos de um futuro perfeito tomaram destinos um pouco diferente.
Novamente Jaqueline se encontrava sozinha, sem apoio, sem família, sem amigos por perto. Isso trouxe uma realidade diferente, onde escolher era privilégio. Uma realidade que resultou em um relacionamento abusivo, e, após entrar nesse relacionamento, foi uma luta conseguir sair.
Grávida.
Outra vez sozinha, mas com um diferencial que agravava a situação: sozinha e ainda no relacionamento abusivo.
Agressão, dor perda, gravidez, parto, violência obstétrica, maternidade e depressão pós parto.
E o diferencial: dentro do relacionamento abusivo ainda.
Com muita força e resistência J. se livrou daquela relação que sugava ainda mais sua energia, mas continuava encarando a maternidade solo. Batalhou e batalha pra crescer seus filhos, empoderar sua menina.

No final de 2016 Jaque ficou muito doente. Tentou suicídio três vezes e teve apoio de amigas. Amigas de perto e algumas que nunca conheceu pessoalmente, mas que ajudaram nos piores momentos de sua vida.

Hoje tem 34 anos, faz tratamento com psicólogo, psiquiatra e grupos de apoio. Cria seus filhos sozinha em meio de muita resistência, racismo, preconceito e medo.
Cria os seus filhos nas turbulências da vida e resiste a todos os obstáculos, porque hoje ela sabe o quanto é importante para o mundo, principalmente para seus filhos.

Jaqueline sonhava com um futuro diferente, com um futuro sem abusos, sem maldade, sem opressão. Teve uma vida inteira de luta, resistiu, persistiu e segue seu caminho deixando sua história vivida escrita.

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