Ja sabemos que a maternidade é compulsoria e imposta a toda a mulher através da socialização/construção social. Essa construção começa desde muito cedo, para podermos compreender quando na verdade “decidimos” ou “optamos” pela maternidade. Quando falamos em maternidade compulsória, falamos disso, do fato de que é impossível dizer que o “desejo” pela maternidade é algo natural e espontâneo na vida da mulher, já desde muito cedo, aprendemos a DESEJAR sermos MÃES. As meninas são literalmente conduzidas a parir, a cuidar, a se doar, a se renunciar, a se anular, a sofrer com todos os danos possíveis advindo desse processo doloroso chamado MATERNIDADE. Mulheres são levadas e socializadas para serem mães, e depois disso, são ensinadas a romantizar todo esse processo.

Na infância ganhamos um bebê de mentira que vai servir como um pequeno curso para o que há de vir. Aprendemos a alimentar, cuidar, dar banho, e mais ainda, que tudo relacionado a esse “bebê” é nossa responsabilidade, afinal, meninos não brincam com bebês de mentira, não são ensinados a desejarem tão arduamente pela paternidade, esse papel desde cedo fica definindo como nosso, MULHER.

Mais que parir apenas, com o ato de parir vem a anulação pessoal. MÃES não podem e nem devem se dar ao luxo. Mães não podem pensar em si, em seus sonhos, seus desejos, seus objetivos, suas conquistas. A sociedade cobra, e é muito dura e implacável com mães. Se ANULAR, é tudo na maternidade. Ser mãe e não se afundar num mar de cobranças pessoais e sociais, é impossível. 

Um dia eu “desejei” ser mãe, “desejei” passar por todo esse processo, “desejei” ser responsável por alguém, cuidar de alguém, achei que seria mais completa como mulher, afinal era o que minha família esperava de mim, era o que a sociedade esperava de mim, EU FUI FEITA PRA ISSO!

Será mesmo?

Quando você compreende que ser mãe, vai muito além de QUERER E DESEJAR apenas, e que você foi CONSTRUÍDA SOCIALMENTE para isso, você só assim começa a enxergar a maternidade com outros olhos. As flores, o romantismo, a beleza se esvai, e você enxerga toda a problemática social por traz disso, e sim, você passa a ter muito mais empatia por mulheres que são Mães, e pelas que “desejam” ser.

Quando o romantismo da maternidade é descontruído, só sobra o materialismo.

Ter filhos exige muito mais do que nós podemos dar, exige tempo, exige o seu melhor, exige a perfeição que você nunca vai ter. Exige a sua anulação pessoal e profissional em tantos níveis, traz consequências graves, a tristeza de estar sempre um passo atrás, de não corresponder às espectativas, de se sentir sempre cansada, exausta, saturada, e por fim, a pior das dores que uma MÃE pode enfrentar, a dor de sentir sempre SÓ, a dor da solidão.

As pessoas não querem MÃES e suas crias por perto, criança chora, faz birra, escandalo. “MÃES não conversam direito porque vivem prestando atenção em suas crias, não são boas amigas, boa companhia. Mães não trabalham bem, não desenvolvem bem suas funções”, eles nos dizem isso todos os dias, e quando não dizem, demonstram da forma mais dura: nos excluindo. Nos excluem de frequentar lugares com nossas crias, e como quase sempre não temos com quem deixar, ficamos presas a elas. Não nos querem trabalhando, estudando, não nos querem fazendo nada além de sermos MÃES, não nos querem em lugar algum senão EM CASA cuidando dos nossos filhos, morrendo aos poucos com a nossa solidão, com a nossa anulação. É assim que a sociedade quer as MÃES e enxerga a maternidade.

Mas aí você me pergunta, a culpa é minha?

Eu respondo, não, e muito menos MINHA!

E você insiste com as perguntas, e a que você sempre faz é: Por que então você OPTOU por ser MÃE?

E eu, como não desisto fácil, te respondo: EU NÃO OPTEI, EU NÃO ESCOLHI, EU NÃO DECIDI, eu fui criada para ser MÃE, não só eu, mas toda mulher.

A mulher ter o PRIVILÉGIO de poder dizer não a maternidade, é uma conquista social feminina. Eu vou criar uma mulher (minha filha), para ser apenas MULHER. Eu não vou ensina-la a DESEJAR A MATERNIDADE, tão arduamente como um dia eu desejei, mas sobre ela ainda existem imposições sociais, papéis sociais designados a ela desde o dia em que ela nasceu.

E se lutamos por mulheres, lutamos por algo maior, algo que vai além da educação que eu fornecerei a ela, lutamos pela queda do patriarcado e do capitalismo, esses que aprisionam mulheres com o papel reprodutivo, e depois as abandonam e as deixam entregues a si mesmas, sozinhas.

E se agora você que é mulher, e está lendo esse texto, me perguntar se você pode fazer algo por nós MÃES, e por todas as mulheres, eu respondo: SIM!

Você pode se unir a mim e a tantas outras mulheres na luta pela legalização do aborto, pelo fim da violência obstétrica, da romantização da maternidade, da maternidade compulsória. Você pode parar de invizibilizar e excluir mulheres que são mães, ouvir nossas críticas, nossas pautas que são de todas, nos dar espaço, acolher-nos com nossos filhos, ouvir o que nós temos a dizer, nos dar um pouco de apoio, ter empatia. Tudo, de menor ao maior gesto, é IMPORTANTE.

E o mais importante, entender e ajudar a difundir que Maternidade não é só sobre amor, cuidado e afeto. Maternidade é sobre PAPÉIS DE GÊNERO, sobre hierarquia, sobre SOCIALIZAÇÃO FEMININA.

A minha filha é linda, é uma das coisas mais importantes da minha vida, e eu faço o possível para a vida dela ser melhor do que a minha em inúmeros aspectos, e falho miseravelmente todos os dias. Mas hoje eu me importo menos ao atender as espectativas da sociedade do que eu me importava ontem, porque hoje eu separo o que na maternidade é imposição social, romantização, e o que é o amor que eu sinto por ela.

Quero me solidarizar com você, que é mãe, porque eu sei o que isso representa socialmente pra você. 

Quero oferecer a vocês, MÃES, todo o meu apoio, apoio esse que mais ninguém está disposto a nos dar. As pessoas não querem nos ouvir, ouvir nossas críticas, ou sobre o que podem fazer para tornar nossas vidas melhores, então é nós por nós mesmo. Eu COMPREENDO vocês, e estou com vocês.

Maternidade não é só sobre amor e cuidado, precisamos urgentemente desconstruir esses conceitos que romantizam algo tão doloroso e cruel na vida de mulheres que são mães.

Ser MÃE não tem nada a ver com dar amor, carinho, cuidado, preocupação. Não tem nada a ver com abnegação, renúncia, isso é o que a sociedade espera de nós, é o confeito por cima do bolo, é sobre como fomos criadas para sermos.

A maternidade é compulsória, é imposta, não é escolha! A maternidade só deixará de ser compulsória, e terá a ver com ESCOLHA, quando mulheres não mais forem feitas para a reprodução, qndo mulheres existirem apenas para serem mulheres, sendo MÃES ou não.

 

 

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