O que devemos saber sobre aborto?

O aborto em si é um tema circundado de muitos tabus e preceitos religiosos; é um assunto que diz respeito sobre os direitos reprodutivos de nós mulheres, entretanto, não somos nós que fazemos as escolhas sobre esse tema, sobre o nosso próprio corpo, e sim uma sociedade que mistifica a ideia de um "Estado laico", mas que devia assumir-se enquanto estado religioso, pois nos empurram garganta a baixo a moral de suas religiões. 

Um ponto importante a ser tocado aqui sobre religião é o impacto que a mesma cria sobre este assunto, como o demoniza, mas o que precisa ser entendido é que: se eu escolho seguir tais doutrinas elas deveriam ser aplicadas na MINHA VIDA não na vida do outro, onde esta escrito que eu devo impor as minhas crenças na vida de outro alguém? As pessoas criaram a ideia fixa de que se o aborto for legalizado a cada 10 minutos uma mulher estará abortando, e não, aborto não é algo corriqueiro assim, é algo que precisa de acompanhamento, acompanhamento psicológico, o que clínicas clandestinas não oferecem, e se sabemos que elas existem, então por que não dar o mínimo de dignidade para que mulheres possam realizar tal procedimento? Válido ainda ressaltar que mulheres ricas abortam em clínicas clandestinas, enquanto as pobres morrem, tratando-se então não apenas de um problema de saúde pública e direitos, mas também de classe;

Se o corpo me pertence eu deveria ter o mínimo de direito sobre ele, porém, sabemos que nossa sociedade é extremamente patriarcal e que tudo recai sobre nós mulheres, o que não é diferente quando se tem filhos, as cobranças recaem majoritariamente sobre as mães, as pessoas possuem um fervor interno para julgamentos, se é mãe solo: julga, se quer abortar: julga. O problema estrutural aqui é ser mulher, se homens engravidassem o aborto já seria legalizado a muito tempo, no Brasil existe cerca de 5,5 milhões de crianças sem nome do pai no registro, e quando se ouve falar da responsabilidade do pai? Do abandono paterno? Nunca, a sociedade é estruturada de homens para homens.

Cientificamente até 12ª semana da gestação o feto não possuí sistema nervoso, ou seja, não possuí qualquer tipo de relação afetiva, não sente dor, só após isto que se inicia as ondas cerebrais, e seria permitido apenas neste período de 12 semanas a interrupção. A OMS (Organização Mundial de Saúde) concluí que em países que descriminalizaram tal procedimento obtiveram uma queda nas taxas, enquanto países que insistem em criminalizar não conseguem conter tal prática. 

Uma das questões que não contribuem para descriminalização seria o investimento econômico ($$) que teria que ser realizado na saúde, estamos falando de uma decisão séria, de um procedimento sério que demanda acompanhamento psicológico, acesso a saúde e planejamento familiar, o que automaticamente poderia elucidar sobre gravidez indesejada e consequentemente diminuir o número de casos, entretanto, criminalizar a prática é mais rentável, pois não demanda investimentos econômicos e continua a controlar a vida de mulheres ou condena-las aos riscos que podem chegar até a morte. 

Aparentemente o medo da sociedade é o aborto ser banalizado e ocorrer com tanta frequência quanto homens abandonam seus filhos. Mas como já citado acima a descriminalização diminui os casos, vale encarar estes fatos ou continuar condenando mulheres aos riscos das praticas ilegais e até a morte, submetendo mais da metade da sociedade brasileira a uma moral religiosa e hipócrita, enquanto somos submetidas a criminalização e controle de nossos corpos ficamos a sonhar com o dia que seremos respeitas e defendidas como um feto.  

Lê, 20, paulista. Adepta da corrente radical e, criadora da página TODAS Fridas.

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