Cresci e me reconheci Feminista

Pedro, meu melhor amigo na infância, estudava na mesma escola que eu, na mesma sala, e com a mesma grade horária. Pedro, por ser homem, tinha as terças-feira, aula de judô, e eu, no mesmo dia e por ser mulher, aula de ballet.
Como eu queria fazer judô! Só Pedro, que não deve se recordar mais, sabia o quanto eu queria derrubá-lo no tatame verde ao invés de usar sapatilhas de ponta. Causei um grande rebuliço na escola, já que não faria judô com Pedro, não dançaria ballet com as outras meninas. Não fiz judô, e continuei obrigada a pelo menos presenciar as aulas de ballet. Mas hoje, graças a uma garotinha – e às outras tantas que sucederam – que se recusava a dançar, as aulas podem ser escolhidas pelas crianças.
Aos 11 anos, já entrando na adolescência e com a mudança corporal pronta para atingir seu auge, eu não entendia o porquê de usar sutiã se meus peitos ainda não estavam totalmente desenvolvidos; e, porquê os meninos, que tinham peitos maiores que os meus, podiam circular livremente sem o incômodo de um sutiã. Hoje, aos 20 anos, ainda não entendo a necessidade social de esconder e prensar meus peitos em armações desconfortáveis, e seu uso ainda é dispensável na minha vida. Afinal, em todas as esquinas há um homem sem camisa; a falta do meu sutiã não atenta ao pudor mais que a nudez de um tórax biologicamente diferente -nem sempre- ao meu.
Já no segundo ano do ensino médio, e tendo toda uma vida sendo chamada de “moleca” por fazer coisas ditas “de menino”, fui apresentada, por um professor de filosofia e pró feminismo, à Frida Kahlo -Frida, como o filme sobre sua vida me abriu os olhos!-
A busca incessante sobre a artista e tudo o que seu nome representava me fez entender: eu não era moleca. Eu era incomum. Incomum por fazer o que queria fazer, por escolher sem me importar com uma mera divisão social e patriarcal que coloca o homem como um ser superior e unicamente digno de fazer atividades arriscadas, de viver nu, de poder praticar judô, e entre tantas outras coisas que restringem um leque de opções às mulheres.
Esse mesmo professor, que me mostrou Frida, pediu que a sala fizesse uma carta à alguém falecido. Não hesitei, minha carta terminava com “continuarei na luta pelas mulheres e não me Kahlo.” e vocês já imaginam quem foi minha destinatária escolhida. Ao ler a carta, Glauco – o professor de filosofia a quem tenho um enorme carinho e gratidão – fez a seguinte pergunta pra mim: “Desde quando você é feminista ?”. Lembro-me como se fosse hoje, sorri e em um décimo de segundo eu entendi que tudo que eu buscava, a igualdade que eu queria entre homens e mulheres, e toda a luta que eu tinha diariamente para defender minha posição, não era em vão, não era única e não era besteira. Então, eu o respondi: “Desde sempre.” E agora, sou eu quem pergunta à vocês: Desde quando vocês são feministas?.

Primeiramente, Fora Temer. Feminista, diabética, 20 anos, de esquerda, aquariana, e quase historiadora licenciada.

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