Passei anos da minha vida ouvindo isto. “Mas você mora antes ou depois da Ponte? É antes da ponte, né?” E confesso que durante algum tempo, isso doía bastante.
Como se o fato de morar depois da ponte, fosse motivo para eu ser aceita ou não em algum grupo.
Quantas vezes, na casa de alguma amiga de infância, eu comentava algo e algum pai ou tio, ou mãe ou quem quer que fosse, vinha com essa malfadada pergunta.
Conheci muita gente bacana. E gente nem tão bacana assim. Antes e depois da ponte.
Quando eu enxerguei que não importa de qual lado eu more, eu devia primeiro resolver isso comigo; as coisas ficaram mais tranquilas.
Resolver comigo no sentido de, não me importo se alguém me olha torto, pelo simples fato de morar depois da ponte.
Aprendi com isso que rotular, classificar, estigmatizar as pessoas, não é legal.
Tenho uma certa birra daquela marca famosa de sandália de plástico, com cheirinho de chicletes. Até gostava. Mas um dia, subindo pra atravessar a ponte, passou um grupo de meninas do outro lado da rua, cantarolando pra mim… “minha sandália é de plás-ti-co é de plás-ti-co é de plás-ti-co” (há 20 anos, não era esta marca tão badalada que é hoje não). Talvez seja uma grande bobagem, talvez eu devesse apenas ter sorrido com aquele episódio. Mas doeu sabe.
Quando se tem 11 anos de idade, e se ouve diariamente as pessoas te rotulando (mesmo você sendo boa aluna, se destacando em algo legal), por morar depois da ponte…dói. Afinal, o que de tão ruim pode haver só por morar do outro lado da ponte?
A gente passa a perceber que qualquer ato de discriminação é errado.
Seja pela cor, pela religião, sexualidade, por onde mora ou com quem mora.
Precisamos passar isso a nossas crianças. Precisamos ajudá-las a concertar esse mundo preconceituoso que nós construímos. Porque de fato, nossa geração, fez algumas melecas né?!
Quando penso no mundo que quero deixar pros meus filhos…me vem muito a cabeça a palavra sustentabilidade. Em todos os aspectos. Socialmente, economicamente (este com mais equidade que sustentável), com oportunidades mais sustentáveis e igualitárias, ambientalmente, mas principalmente…humanamente sustentável.
Vamos deixar que a criança; seja apenas criança. Que brinque, que faça sem rótulos. Que aprenda a respeitar, a dividir.
Que a única ponte que haja entre elas, seja apenas física. As crianças têm uma capacidade absurda de se adaptar. Muito mais que os adultos. Acredite, seu filho consegue resolver muitos problemas que você nem faz ideia que ele consiga (óbvio que existem situações que eles precisam de ajuda, mas me atenho aqui apenas a capacidade que as crianças tem de conseguir enxergar o outro como pessoa, sem rotular).
Sejamos capazes de olhar para as nossas crianças, a ouvi-las e sim, a aprender com elas. Elas têm muito mais a nos ensinar sobre amor, respeito e equidade, do que possamos imaginar.

2 COMENTÁRIOS

  1. Que linda mensagem!
    Nos faz refletir sobre os nossos atos e como podemos construir um futuro melhor para os nossos filhos…sem preconceito, discriminação, rótulos!
    Já quero ver o próximo post.

  2. Texto lindo!!! Que possamos transpor nossas pontes!!! Que elas sejam cada vez menores e menos altas, impelindo-nos a superá-las, um pouquinho, todos os dias!!!

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