Por favor não me dê flores*. Ao longo do ano se compram mais flores para enterrar mulheres do que para homenagea-las. Leve suas flores ao túmulo de suas antepassadas que o machismo matou todos os dias.

Não quero mensagens em cor de rosa. Hoje eu estou em luto, pelo direito em me expressar com todas as cores. De ser quem eu quiser ser, sem que meu sexo limite minha educação e escolhas.

Não nos chame de guerreiras ou heroínas. Muitas vezes temos que sacrificar nossa Alma porque um homem não assumiu suas responsabilidades. Não escolhemos ser guerreiras e não há nada de bonito nisso.

Eu não quero flores, nenhum parabéns sequer. Não há muito para comemorar. Ainda tenho medo de passar em frente a um bar com muitos homens na porta. Mesmo mudando a rota, eu escuto comentários pejorativos mascarados de falso elogios. 1 em 4 mulheres sofrem violência obstétrica.

Eu escuto histórias de abusos sexuais com a frequência de quem bebe água. Ouso dizer que não conheço uma mulher que não tenha sido abusada.

Eu quero que você eduque seu filho para respeitar as escolhas das mulheres, que nunca nos julgue por nossas roupas e atos. Eu quero que você nunca diga: prenda suas cabras que eu solto meu bode. Muito menos que perpetue o direito ao desrespeito ao corpo feminino.

Quero que você encare a mulher em sua beleza: com ou sem pelos, com ou sem seios, com todos os tipos de cabelo. Sobretudo que sejamos reconhecidas, desde sempre, além da nossa carne. Que nossas ideias, Alma e sonhos sejam mais relevantes que nossa bunda.

Que possa honrar os ciclos que nos acompanha: menstruação, gestação, parto, Puerperio, menopausa.

Que não desdenhe de nossas emoções e nunca diga que somos loucas.

Lembre-se de que você é composto por um gene feminino e nasceu de um útero. Que foi tecido de carne, sangue e esforço de um corpo de mulher.

Eu desejo que suas flores se transformem em ações reais pelos direitos iguais. Que homens e mulheres assumam a responsabilidades equivalentes no cuidado com os filhos, com a casa, com a vida. Salários iguais e direitos diferenciados porque temos necessidades específicas, como gestar e amamentar. Mas que você também leve seus filhos ao trabalho, desmarque uma reunião para buscar o filho na escola ou falte para cuidar dele quando estiver doente. Que lute por uma licença paternidade mais longa e exerça todos os dias a consciência deste mundo machista.

Que seu Parabéns se converta em ações com sua mãe, Irma, amiga, funcionária, filha e companheira. Que faça sua comida, lave sua louça e não ache “normal” explorar um mulher para fazer os serviços domésticos.

Que faça o silêncio por todas as mulheres violentadas na vida, no parto, na alma.

Não quero nada senão sua ação e consciência. Nada mais.

Que nós mulheres possamos nos expressar, nos unir como gotas de
Água que juntas formam um rio que destrói barragens. Que hoje você ganhe coragem para sair deste relacionamento abusivo, deste casamento falido, deste trabalho que lhe custa um pedaço de alma. Que marche, lute, dance e se cure entre mulheres. Seja a mulher que suas filhas e netas terão orgulho de se inspirar.

Só quero que um dia, minha filha, enteada ou neta, não tenham medo de sair na rua, nem troquem de roupa para não serem desrespeitadas. Que no futuro, que receio não viver para ver, não tenhamos medo de ser mulher.

Da página da Cris Machado
?1 em cada 4 mulheres sobre violência no parto
?59% não conseguem chegar aos 6 meses de amamentação preconizados pela OMS
?Somos 10% na política.
?50 % das mães perdem o emprego após retorno da licença
? 26,1% das mulheres entre 15-24 anos abandonam os estudos para cuidar da casa ou de familiares (versus 0,8% de homens)
?a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada
? a cada 2h uma mulher é morta.

Tem certeza que desejar “feliz dia da mulher” é o máximo que podes nos oferecer?

Texto de Kalu Gonçalves

*citacao retirada da página da Renata Ilha

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Doula desde 2010 servindo a mais de 400 famílias. Fotógrafa desde 2012. Mulher em constante construção. escolheu desde menina a sua profissão: jornalista. Escrevia com desenvoltura, gostava de teatro e TV. Formou-se pela Cásper Líbero em 2000 e já trabalhava na TV Cultura desde 1999. Foi pauteira e produtora até 2004 do Repórter Eco, trabalhando em seguida na agência Folie Comunicação atendendo contas da Natura Cosméticos. Desenvolveu os primeiros vídeos da empresa para internet, ficou responsável pelo site e também desempenhou diversos trabalhos internos. Em 2007 mudou de São Paulo para Belo Horizonte e depois do nascimento do seu filho em um parto domiciliar, criou o blog Mamíferas que em pouco tempo, a multiplicação dos acessos e a crescente visibilidade dos posts compartilhados pela web fez ver que o Mamíferas poderia ser muito mais. Em 2013, o Mamíferas cresce. Nasce o Vila Mamífera, um portal agregador de conteúdo reunindo os maiores nomes da humanização da saúde e da maternidade ativa. Em 2015 participa como fotógrafa da exposição sentidos do Nascer. Em 2017 volta para São Paulo expandindo mais seu trabalho. Neste mesmo ano assume o Nascer Melhor. Integra o grupo Panapaná Saúde e Feminino (Av. Brigadeiro Luís Antônio 3189 Casa 5 - SP) como Doula. Oferece cursos e facilita rodas.

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