O ambiente escolar é parte da criação da cultura machista em que estamos inseridas, isso é fato. A começar pelo reforço a estereótipos de gênero em atividades rotineiras e até atos indiretos, como os constantes bilhetes de agenda cujo remetente se restringe à figura da mãe – direcionando à figura feminina toda a carga de responsabilidade por uma criança. No entanto, por meio deste texto gostaríamos de explorar outro aspecto do machismo na educação: a diferença gritante no número de professores homens que lecionam para os últimos níveis de ensino e o número de mulheres nessa mesma posição.

Enquanto nos anos iniciais de ensino predomina a presença de mulheres em sala de aula – realidade ainda muito ligada à divisão infeliz e restritiva de papéis, que coloca o sexo masculino como um conjunto de seres cuja afetividade e interesse pelo cuidado ao próximo devem ser nulos – a situação se inverte ao longo dos ensinos médio e superior, quando homens passam a responder pela maior parte dos cargos de hierarquia elevada. Isso se intensifica de maneira ainda mais dramática quando se avalia o número de mulheres docentes na área de Exatas (apenas 30% do total de professores da área).

Embora esse percentual tenha aumentado durante os últimos anos, ideais discriminatórios como a crença de que “mulheres são naturalmente inaptas para a área de Exatas” seguem fortalecidos e defendidos até mesmo por elementos tidos como renomados intelectuais. Em 2012, estudos da Universidade da Califórnia ganharam destaque global ao apontar diferenças biológicas como a raiz para a disparidade nas taxas de participação de mulheres e homens em meios acadêmicos relacionados à Matemática e Ciências Naturais, ignorando completamente os obstáculos socioculturais que dificultam a ascensão profissional do gênero feminino.

Para além dessas diferenças numéricas, as quais acabam afetando possibilidades de mudança no futuro ao limitar a representatividade a que meninas têm acesso ao longo de suas trajetórias estudantis, estão os comentários sexistas normalizados tanto no nível médio como no superior. Durante essas etapas, a maior parte dos professores HOMENS tenta produzir momentos cômicos nas aulas por meio da ridicularização da figura da mulher ou reproduz o machismo em frases “casuais” – cito como exemplo alguns absurdos que lembro de ter escutado em sala de aula…”a ideia de dívida em matemática começou quando as mulheres começaram a pegar o cartão de crédito do marido e ir pro shopping”, e numa aula de química: “agora, pergunta para as meninas, que entendem mais de produtos de limpeza, né”.

Estamos quase na segunda década do século XXI, e ainda assim, um sistema patriarcal de ensino elaborado há dois séculos  prevalece. Por trás de todo o cientifismo supostamente difundido pelas escolas, estão as raízes de uma cultura que coloca a mulher como objeto de depreciação, não como ser pensante e integrante da sociedade racional. Alguns tetos de vidro permanecem intactos…

 

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