Quando eu estava no terceiro ano do ensino médio, alguns anos atrás, havia uma menina da minha turma que era, sem sombra de dúvida, a melhor nota em todas as matérias. Era simplesmente genial, só tinha notas acima de 9 no boletim, principalmente em Matemática e Física.
Naquele clima de pré-vestibular, sempre falávamos as profissões que queríamos seguir. Naquela época eu ainda não sabia que acabaria parando no caminho da docência e jurava que faria engenharia. Essa menina também. Tínhamos 16 anos e muitos, muitos sonhos. Eu nunca vou esquecer dos olhos dela falando da engenharia e como ela queria fazer isso da vida.
Alguns anos se passaram, hoje eu de fato faço um curso de exatas, Química. E ela? Bem, eu fui saber tempo depois que ela não pode entrar na universidade. Com uma família extremamente conservadora, falavam que ela não precisava seguir o ensino superior, ainda mais em exatas. Se ela quisesse fazer algo, que fizesse pedagogia, português… Coisas de mulher.
‘Coisas de mulher’ me lembra as diversas vezes que ouvi de homens que química era a única ciência que mulher poderia fazer, por ser mais “fácil”. Que tava tudo bem eu não ir bem em cálculo, afinal, eu sou mulher. Deve ser difícil mesmo, nunca achei que pra calcular integral eu precisasse de um pinto.
No Enem, 72% das melhores notas são de meninos. Significa que mulheres são menos capazes ou inteligentes? Ou será que é somente um reflexo do incentivo que nossa sociedade dá, de forma completamente desigual, para meninos e meninas?

Dando aula, entendi que desde muito cedo separamos e classificamos mulheres sistematicamente. Ao ponto de pegar uma aluna dizendo que era normal ela não entender matemática pois nunca seria tão inteligente quanto um garoto é. Ou quando leio pesquisas que mostram que quando professores de exatas estão corrigindo provas e sabem se são alunos ou alunas, costumam dar notas menores pras meninas. Menores do que dariam numa mesma prova em quem não soubessem o nome.

Até onde vai esse descarte?
No ensino superior somos 60% das pessoas que se graduam e somos menos de 40% das pesquisadoras de excelência. Isso é por sermos incapazes ou por sermos descartadas constantemente?
Ouvimos barbaridades, somos desencorajadas a todo momento, às vezes até nos expulsam de sala. Dizem que somos inferiores e menos capazes. Mas, a cada mulher de exatas que aparece no ensino superior, existem 10 ainda por vir. Que nos aguentem, portanto, não estamos aqui pra desistir.

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