O século XX, além de ter se estabelecido como o mais sangrento na história da humanidade até o momento, trouxe consigo processos socioeconômicos que levaram à intensificação da presença da mulher no mercado de trabalho. Se até o século anterior, apenas mulheres de classes baixas integravam a força produtiva dos países, a eclosão de dois conflitos mundiais foi um ponto chave para que mulheres de classes mais altas abandonassem o papel único de donas de casa e passassem a exercer cargos remunerados.

A partir desse período, o qual se deu na primeira metade do século XX, a organização feminina em nome da conquista de direitos caminhou a passos largos, ocasionando a segunda onda feminista,conquista de direitos reprodutivos e avanços rumo à liberdade sexual – ainda não atingida, por sinal.  No entanto, tais avanços simbolizaram também o surgimento de um ideal que vem perseguindo as mulheres desde então: a figura da “Wonder Woman”, não exatamente relacionada à super heroína dos quadrinhos, mas sim à imagem criada pela lógica capitalista, com auxílio deliberado da mídia, de uma mulher capaz de conciliar anseios pessoais, como a consolidação de uma carreira bem sucedida ou a conquista de um alto cargo de poder, com aquilo que significativa parcela da sociedade ainda considera como o projeto fundamental na vida de um ser do sexo feminino – a formação de uma família.

É claro e perfeitamente razoável que muitas contemporâneas mulheres desejem ambas as coisas. Contudo, é também essencial lançar reflexões sobre as influências externas que levam à uma valorização quase que generalizada desse ideal. Em pleno auge da disseminação do vocábulo “empoderamento”, já há exemplos consideráveis de mulheres fortes em obras literárias, televisivas e cinematográficas. As protagonistas da recente “Big Little Lies” ou do ícone millenial, “Gilmore Girls”, são provas disso. Agora, quantas dessas personagens admiráveis trazem para as telas ou páginas a representatividade de  um modelo de mulher que escolhe se dedicar completamente a si?


Após décadas de lutas feministas, a imagem feminina permanece triste e basicamente encerrada pelos limites da maternidade. Seja no cinema ou nos livros, elas até são CEOs, grandes jornalistas, advogadas ou médicas, mas isso é reduzido a segundo plano pela arbitrariedade do papel maternal ou de esposas. Retornando aos exemplos a cima citados: em 2016, o retorno da série Gilmore Girls, conhecida por seu caráter vanguardista ao focar na história de protagonistas fortes e independentes, apenas confirmou um ciclo já prenunciando por temporadas anteriores do programa – a maternidade como fim irrevogável de todas as geniais personagens. Isso inclui o desfecho da personagem Rory, que, caso não seguisse esse rumo, seria um excelente exemplo de determinação com um futuro profissional de modo exclusivo, sem amarras com um cuidado de outro indivíduo.

Novamente, reafirmo: a vontade de seguir o papel da Wonder Woman pertence à cada mulher, mas é lastimável que os modelos de personagens fortes ainda estejam atrelados ao casamento e maternidade. Como alguém ainda jovem, mas que jamais sentiu qualquer desejo de cumprimento de qualquer um desses papéis, posso declarar a profunda insatisfação com a ausência de criações fictícias que traduzam ambições estritamente intelectuais, profissionais.

Assim, essa criação midiática não só colabora para a perpetuação da maternidade compulsória e sofrimento psicológico de milhões de mulheres -levadas a acreditar que deveriam ser capazes de cumprir listas infindáveis de tarefas tanto no âmbito domedomés quanto no corporativo-, mas também dificulta a evolução necessária rumo à tomada de poder público, acadêmico e empresarial por nós mulheres.

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