Nascida em 27 de julho de 1979, fazia questão de se definir como “cria da Maré”. Foi mãe aos 19 anos, mas não desistiu de continuar estudando: participou do pré vestibular comunitário e foi nesse período que de fato reconheceu a necessidade da militância após perder uma amiga vítima de bala perdida em um confronto entre bandidos e policiais na própria Maré. Formou-se em ciências Sociais pela PUC-Rio com bolsa integral onde na época era uma das únicas duas mulheres negras do curso. Trabalhou como educadora infantil em uma creche comunitária e após a conclusão do mestrado em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF) onde dissertou sobre o tema: “UPP: a redução da favela a três letras”, atuou como professora e pesquisadora.

Em 2006 fez parte da equipe de campanha que elegeu Marcelo Freixo à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Após a posse dele como deputado foi nomeada sua assessora parlamentar e depois assumiu a coordenação da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania.

Porém, a maior conquista de Marielle na vida pública veio em 2016 quando foi eleita vereadora pelo PSOL, a quinta mais votada com mais de 46 mil votos. Por conta de sua respeitada trajetória acadêmica, na época conseguiu o apoio de mais de 200 intelectuais.

Durante seus quinze meses de mandato Marielle apresentou 16 projetos de lei, tendo dois efetivamente aprovados:

• O primeiro diz respeito a regulamentação dos moto táxis, que inclusive atualmente é o meio de transporte mais utilizado nas comunidades do Rio.

• O segundo é sobre a restrição dos contratos entre a prefeitura e as organizações de saúde, já que a suspeita de corrupção nesse setor é constante.

Entre outros projetos importantes de Marielle estão:

Assédio não é passageiro que diz respeito a divulgação dos telefones de contato dos órgãos de atendimento a mulher nos transportes coletivos incentivando a denúncia, treinamento para os funcionários sobre como lidar com assédio no transporte público, campanhas de conscientização e multa para as empresas de ônibus que não cumprirem a determinação.

Lei das casas de parto para a criação de casas especializadas no atendimento a gestantes onde mãe e bebê receberiam um tratamento totalmente humanizado na realização dos partos e contribuiria desafogando as maternidades de grande porte.

Lei do espaço coruja uma extensão do serviço de creche pública para atender mães e pais que precisam trabalhar em jornada noturna. O projeto incentiva também o emprego de profissionais concursados e dos que já passaram em concursos mas ainda não foram chamados.

Pra Fazer Valer o Aborto Legal no Rio, já que a lei permite o aborto em caso de estupro, anencefalia (má formação do cérebro e do crânio) e risco a vida da mãe, mas a maioria das mulheres não sabe que possui esse direito, além de muitas maternidades se negarem a realizar o procedimento e quando realizam os relatos de violência obstétrica serem assustadores, a lei tem a intenção de garantir que mulheres recebam um tratamento humanizado caso necessitem desse serviço e fazer com que os índices de morte em tentativas de aborto clandestino sejam reduzidos e até zerados.

Além disso, a vereadora também propôs que dias específicos de luta contra a homofobia, lesbofobia, bifobia e transfobia, contra o encarceramento da juventude negra, um dia da visibilidade lésbica, e de Tereza de Benguela e da mulher negra fossem incluídos no calendário oficial do Rio para incentivar o reavivamento das lutas, a reflexão e o debate.

Teve papel de destaque durante o último carnaval quando foi pessoalmente às ruas distribuir material de conscientização e incentivar as mulheres a denunciarem qualquer tentativa de assédio. A campanha ficou conhecida pelo uso do adesivo NÃO É NÃO!

A mulher que se tornou um símbolo de luta

Marielle veio da Maré, um dos maiores complexos do mundo que reúne 16 favelas e mais de 140 mil habitantes, por isso tinha uma militância muito característica baseada principalmente no empoderamento da mulher negra e periférica. Ela se definia dizendo que sempre foi um ser político por simplesmente existir e resistir, mas de fato só entendeu o quanto o caminho era ainda mais difícil por causa de sua origem e cor da pele ao dar a luz sua filha e após ingressar no pré vestibular comunitário. Não desassociava seu papel de mãe, mulher ou militante, pelo contrário, sabia que todas essas partes eram importantes para se entender como um agente transformador na sociedade.

A gestação na adolescência a fez refletir sobre o estigma que sua condição social carregava: ser apenas mais uma mãe solteira e/ou esposa de bandido, sem perspectiva de vida. A oportunidade de estudar no pré vestibular comunitário na própria Maré lhe trouxe a certeza de que todas as suas conquistas posteriores dependiam dessa etapa, mas ela sabia também que não era apenas uma questão de querer ter uma vida melhor, e sim de oferecer essa chance a todos os seus companheiros marginalizados.

Durante a faculdade Marielle não participou ativamente dos grupos estudantis, ela nunca pôde se dar ao luxo de ser uma ”universitária comum”, pois as responsabilidades com a filha tornavam sua rotina extremamente corrida. A dificuldade de manter uma vida social agitada nessa época não a impediram de ter durante esse período uma grande lição sobre socialização, se por um lado o fato de ter vindo de uma comunidade no início estabeleceram distâncias entre ela e os colegas mais privilegiados, seu carisma e inteligência conquistaram grandes amizades, o respeito e confiança de pessoas de diferentes classes sociais, habilidade essa que lhe garantiu uma expressiva votação fora das comunidades, cerca de 40% dos votos vieram da Zona Sul do Rio.

Diplomada Marielle teve a certeza que instrução e um bom trabalho na área em que escolheu atuar, não seriam o bastante, era preciso ocupar outros espaços que de acordo com a sociedade elitista não eram para ela. Em vida, ela descreveu a opção pela política quase como uma necessidade, era a melhor forma de ser ouvida e de dar voz a seus semelhantes.

Além de umas das maiores representantes do feminismo negro se empenhando para promover a máxima inclusão de mulheres periféricas, foi também uma grande defensora da causa LGBTQ+, pois como mulher lésbica sofrendo na pele o peso da discriminação, (ela vivia já há alguns com sua companheira, a arquiteta Mônica Benício) entendia melhor do que ninguém a importância de promover a cidadania desse grupo tão marginalizado. Independente de qualquer coisa, da causa ou da pauta, Marielle mais do que tudo tinha o dom de fazer com que todas as minorias se sentissem representadas por ela.

Enquanto mulher negra e uma das vereadoras mais votadas do Rio de Janeiro, experimentou a sensação de ter recebido uma resposta muito maior do que imaginava nas urnas, fato que tornou claro o quanto essa conquista era considerada uma afronta num país tão racista e machista. E ela queria mais.

Marielle era descrita por pessoas mais próximas como atrevida, extremamente amorosa, mas uma personalidade forte que não escondia seus sentimentos e motivações, aquela que tinha coragem de expor a realidade das comunidades como poucos vinham fazendo até então, e com a vivência de ter visto de perto a tensão dos confrontos, começou a se posicionar contra o abuso policial e a violência com que os moradores de comunidades são tratados, tornando-se uma das maiores críticas da intervenção militar no Rio de Janeiro.

Ela foi assassinada com 9 tiros no dia 14 de março de 2018, junto com seu motorista Anderson Gomes quando voltava de uma roda de conversa chamada “jovens negras movendo as estruturas”. Poucos dias antes se manifestou publicamente em um post na internet repudiando a ação violenta da polícia contra os moradores da comunidade de Acari, e duas semanas antes havia sido nomeada uma das relatoras da comissão criada para fiscalizar a ação das forças armadas no Rio de Janeiro. Ao se posicionar sobre o episódio em Acari, a vereadora deixou claro que a intervenção contribuiu para que a violência policial contra a população mais pobre só aumentasse.

Sua postura firme a favor dos direitos humanos e das minorias gerava profundo desconforto em alguns setores conservadores da sociedade carioca, mas a importância de sua luta é maior do que qualquer ideologia política. Ela sempre se mostrou disposta a auxiliar qualquer um que precisasse, desde as famílias de jovens das comunidades assassinados, até policiais mortos em confrontos, chegando inclusive a oferecer seus números de contato pessoais e fazendo questão de atender pela internet mães que lhe procuravam pedindo por ajuda. Mais do que tudo ela estava do lado da justiça.

Marielle Franco trouxe à tona as pautas das mulheres que mais são invisibilizadas na sociedade, reforçando que a melhor forma de resistir é através da educação e ocupação inteligente dos espaços públicos, por isso seu legado é um marco para a luta feminista no Brasil. Estamos arrasadas com sua partida prematura aos 38 anos de idade, porque ela representava tudo em que acreditamos e pelo que lutamos. O Todas Fridas se solidariza com a família e todos que estão se sentindo pessoalmente atingidos por essa perda, mas a luta não pode parar:

MARIELLE FRANCO, PRESENTE!

fontes:

em.com.br
vejaabril.com.br
www.mariellefranco.com.br

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