A verdade sobre o cartaz de “We can do it!”

Em 1943 uma música chamada Rosie The Riveter (Rosie A Rebitadeira, em tradução livre) tornou-se um hit nas rádios americanas. A versão popularizada pelo grupo “Four Vagabonds“, alcançou o topo das paradas de sucesso.

A letra fala sobre como enquanto outras garotas estão bebendo drinks no bar, Rosie está “contribuindo para a vitória da nação” trabalhando até tarde na linha de montagem de uma fábrica e que com isso também está cuidando de seu namorado Charlie que é fuzileiro naval.

Possivelmente influenciado pela música, o artista Norman Rockwell desenhou e publicou também em 1943 no Saturday Evening Post (revista semanal dos EUA) a ilustração de uma operária comendo um sanduíche em sua pausa para o almoço, com uma rebitadeira (ferramenta utilizada para unir placas de metal com rebites) em seu colo, enquanto uma enorme bandeira americana aparece ao fundo e ela pisa em uma cópia do livro Mein Kampf de Adolf Hitler.

A modelo que posou para a arte foi Mary Doyle Keefe, que na época com 19 anos trabalhava como telefonista. A rebitadeira que Mary ostentava foi uma invenção de Rockwell, assim como o fato de retratá-la como uma mulher muito mais alta e musculosa do que ela era de fato e de inserir o exemplar do livro de Hitler na imagem, reforçando o patriotismo e inflamando o desejo de derrotar o ditador nazista na Segunda Guerra Mundial.

A capa da publicação se tornou tão famosa que sua venda acabou sendo utilizada para arrecadar fundos em apoio à guerra.

Apesar de não identificar explicitamente sua personagem como Rosie The Riveter, Norman fez uma alusão à ela escrevendo seu nome na lancheira da operária. Por esse motivo a personagem que já era nacionalmente conhecida por causa da música ganhou rosto com a Rosie de Rockwell.

O que é preciso deixar claro é que a propaganda americana pró guerra utilizando mulheres nunca teve o objetivo de empoderá-las. Nessa época elas ainda tinham funções secundárias e estereotipadas como especificamente femininas: secretárias, telefonistas, enfermeiras, e mesmo convocadas para as forças armadas preenchiam apenas cargos de menor importância e os salários eram baixíssimos.

A necessidade de atrair as mulheres para o trabalho braçal veio pela falta de mão de obra masculina já que a maioria dos homens estava na guerra. É provável que a música tenha sido inspirada em Rose Will Monroe, uma trabalhadora real das fábricas e por esse motivo muitas pessoas acreditam que a imagem do cartaz We can do it!, é dela também. Mas o desenho foi veiculado com o nome de Geraldine Doyle, e ainda assim de forma geral representava a Mulher Trabalhadora da América: Rosie The Riveter.

Porém, a dúvida sobre a origem do cartaz fez com que durante 6 anos James J. Kimble, professor da Universidade Senton Hall, procurasse a verdadeira mulher que o inspirou. Até que finalmente em 2016 ele publicou na Rhetoric & Public Affairs um artigo intitulado Rosie’s Secret Identity (A identidade Secreta de Rose).

Naomi Parker Fraley tinha 20 anos quando foi fotografada enquanto trabalhava na estação aérea naval da Califórnia, por um fotógrafo que visitava a base (na época sua função real era garçonete). As datas se confundem entre 1941 e 1943, mas com certeza ocorreram na primeira metade dos anos 40.

Após a foto ser divulgada nos jornais o artista J. Howard Miller decidiu a serviço do governo usá-la como inspiração para desenhar o icônico cartaz.

Ele ficou impressionado com sua beleza, feminilidade e originalidade ao usar o famoso lenço vermelho de bolinhas brancas amarrado
na cabeça.

Naomi se sentiu injustiçada durante toda a vida e declarou que não estava interessada em fama e fortuna mas apenas em recuperar sua identidade, pois ficou imensamente triste ao ver seu rosto circulando por quase 70 anos, com o nome de outra pessoa.

Somente a partir dos anos 80 a arte foi ressignificada pelo movimento feminista como um símbolo de que de fato “as mulheres podem fazer o que quiserem”.

A imagem se tornou um símbolo tão poderoso da força feminina que a cada dia ganha uma nova versão para homenagear grandes mulheres reais ou fictícias ícones da cultura pop como a General Leia Organa personagem da franquia Star Wars, a Mulher Maravilha da série de Bombshells DC Comics, e utilizada por atrizes e estrelas da música como a cantora P!nk no clipe da música Raise Your Glass:

Em 2017 foi instaurado nos EUA o Dia Nacional de Rosie The Riveter para honrar as trabalhadoras de guerra.

Naomi faleceu aos 98 anos em janeiro de 2018 e finalmente em paz após ter recuperado sua identidade. Ao ser fotografada reproduzindo a pose do cartaz logo depois do artigo ter sido publicado ela disse: “As mulheres desse país precisam de ícones e se elas acham que eu posso ser um, isso me deixa feliz”.

E ela tinha razão. O fato do feminismo ter se apropriado da imagem e tê-la ressignificado para algo muito maior e mais importante fez com que Naomi se tornasse um exemplo não só para as mulheres americanas mas para as mulheres de todo o mundo.

Indicação da autora 📺:

Assistam ao 2° episódio da 2° temporada da série Cold Case (Arquivo Morto), chamado Factory Girls. A história é ambientada em 1943 e retrata exatamente esse período em que as donas de casa americanas foram recrutadas para trabalharem nas fábricas enquanto seus maridos lutavam na guerra. Apesar de extremamente triste é um dos meus episódios favoritos, muito bem escrito e fiel ao momento histórico, e a música Rosie The Riveter está na trilha sonora.

fontes:

Rosie Lyrics

Diários de uma feminista

Revista Capitolina

Paleonerd

Huffpost Brasil

do Rio de Janeiro, escritora, poeta e feminista interseccional.

Escrevo no meu blog pessoal: Eles pediram bees, no Underclub.blog, além de ser fundadora do coletivo virtual Divulga Mina.

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