Sobre não ser mais apenas uma mulher

 

Faziam já umas duas semanas que eu estava mais livre dos enjoos e das dores de cabeça. Mas hoje, voltando do trabalho, primeiro o enjoo, depois a dor de cabeça, voltou tudo cheio de força. E ai dá enjoo e ao mesmo tempo dá fome. Vai dormir e acorda com mais dor de cabeça e parecendo que passou um caminhão em cima de você. Logo hoje, 8 de março, parece que a natureza, ou o cosmos ou meu corpo mesmo quis me lembrar ferozmente de uma das vertentes de ser mulher: Ficar grávida!

Ontem mesmo eu falava com mamis sobre estar achando estranho, pois não sentia nem mais nada, chegando a me gabar por ter sentido pouco enjoo. E de fato por alguns relatos que já li e ouvi, eu até tive muita sorte mesmo!

Mas hoje…nossa, será que foi pra pessoinha aqui dentro dizer que está crescendo? Será que foi pra lembrar que em breve serei uma mulher-mãe? Além de filha, irmã, amiga, professora, tia, mulher-mãe. Isso ainda soa estranho pra mim. Dez semanas de gestação, e ainda acho estranho. Não tenho dimensão, nem consigo imaginar como minha vida vai mudar.

O dia de hoje me fez refletir ainda mais sobre o que é ser uma mulher, uma mulher e grávida. Para além da explosão de hormônios, toda a coisa biologicamente muito louca e transcendental que acontece, desde o início senti uma tentativa de controle sobre meu corpo e minhas vontades! Misturado a todo o meu desespero inicial vinham já algumas recomendações:

“ Você não pode ficar nervosa porque faz mal para o bebê.” SUPER FÁCIL! Logo eu que nunca fui ansiosa (ironia). Claro, só apertar aqui o botão de “não tô mais nervosa” que já passa.

“Você vai fazer cesárea, não é? Nada de ficar sofrendo horas.” Claro, escolhe ai o parto pra mim. Era tudo que eu queria, estava esperando alguém me dizer o que fazer. E o pior é que na realidade a maioria dos obstetras já fazem isso mesmo.

“Você deve estar louca de pensar em ter filho em maternidade pública, as mulheres morrem lá.” Mulheres não tem acesso a pré natal e tem complicações e morrem. Mulheres sofrem violência obstétrica e morrem. Mulheres negras morrem mais em procedimentos obstétricos. Muitas variantes pra mulheres morrerem, inclusive de desgosto.

“Não pode mais beber, nada! Nem uma gota de álcool!” Essa parte até que tá fácil! Eu sempre achei que ia sentir uma falta absurda de cerveja e vinho o dia que ficasse grávida. Eu bebia regularmente. Bem, até o momento tenho vontade zero! Mas na boa, e se eu quisesse uma taça de vinho? Teria que ser escondida!? Já pensou se eu tomo uma taça de vinho e fico com pressão alta mais a frente? Obvio que a culpa seria minha e aquela taça de vinho, com certeza teria contribuído.

“Não pode comer sal, nem açúcar, corta doce, come feijão, para com esta história de não comer carne!” Aliado a isso, milhares de listas sobre o que é proibido comer. Claro que sei que existem alimentos que devem ser evitados, inclusive procuro sempre os motivos científicos. Mas parei de aumentar minha lista de restrições quando me deparei com o queijo brie. No dia anterior havia saído para ir ao cinema e depois lanchar com uma amiga, pedi um sanduíche enorme de tomate seco com queijo brie. No dia seguinte descubro que não é recomendável. Na mesma hora pensei nas francesas, duvido que elas parem de comer queijo brie 9 meses! Ainda tô pra perguntar isso pra um amigo francês. Teve também o gengibre, primeiro era ruim, depois era bom. Ai também lembrei das mulheres indianas. Mas é claro que elas comem gengibre na gravidez, elas comem gengibre em tudo ou quase tudo, e lá nasce gente pra caramba!.

Ter senso de responsabilidade, saber os benefícios e malefícios de cada atitude sua como seu corpo e com o bebê, é bem diferente de se submeter a um controle social de suas atitudes e vontades por estar grávida.

Claro que muitas dessas recomendações vêm cheias de boas intenções. E aqui não estou sendo irônica. A pessoas são mais velhas, menos informadas, mais ligadas em informações passadas pelas grandes mídias. Procuro sempre ponderar isso. Mas de fato senti uma pressão enorme sobre mim. A pressão de que uma mulher que está grávida, não é mais apenas uma mulher. Ela é uma mulher grávida! Parece que ela tem uma responsabilidade com a humanidade de ser tudo de “melhor “ e “mais perfeito” que ela nunca foi pois tem a responsabilidade por outro ser humano dentro dela. Você agora em alguns lugares nem tem mais nome, você é a “mãezinha”. Tem mulheres que gostam, eu não gosto, tenho nome e gosto de ser chamado por ele.

Ser uma mulher grávida é mais um dos desafios da vida de uma mulher. E não me refiro apenas ao desafio biológico e psicológico, mas também ao desafio social de continuar existindo enquanto sujeito individual , pessoa, que pode e tem direito de escolher o seu caminho, que tem vontades, pensamentos bons e ruins, que não sabe o que fazer, ou que sabe exatamente o que fazer, mas não vai fazer o que você acha que é bom.

Bióloga, Doutora em Ecologia pela UFRJ. Um ano atuando como professora de Ciências em uma escola periférica de uma cidade no interior do Estado do Rio de Janeiro.

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