Você vai lembrar quando eu te olhar lá de cima
Vai reconhecer e vai respeitar minhas cinzas
(Mulamba – Mulamba).

Tem que ser mulher por muito tempo, tem que se transformar em mulher todo dia, pra aprender a não baixar a cabeça, pra se conhecer e se amar. Se amar ainda é a maior revolução e a maior pedra no meio do nosso caminho, porque a gente é ensinada a não nos gostar, não nos tocarmos, não sorrir pra gente para sorrir pra homem. E ainda, é compelida a amar somente os homens. Mal sabem eles o gosto que tem amar uma mulher. Quando uma mulher ama outra mulher, e vamos nos amar cada vez mais, mais forte, mais mulheres.

Tem que ter muita força – essa a qual eu admiro em tantas mulheres – pra continuar olhando para frente, continuar subindo e resistindo. É preciso ser guerreira pra se permitir fraquejar sem nunca desacreditar, porque somos feitas de pele e ossos, mas nossas raízes são firmes, permeiam nossas veias e fazem o sangue correr mais grosso, mais forte. Ser forte pra ler os números, as mortes, os estupros, mas sair na rua pra trabalhar e encarar o medo quando ele chega. Eu não sei quem inventou que mulher é “sexo frágil”. Somos culpadas até da nossa própria morte, desacreditadas quando estupradas e violadas quando nem sabemos o que é ser violada. Aprendemos desde cedo. Tem que ser muito mulher pra levantar a cabeça depois do primeiro soco, olhar com os olhos lacrimejando e achar a saída, mas antes de achar a saída, enfrentar os comentários, as apedrejadas, a culpabilização, a vergonha, a insegurança, a vulnerabilidade, o julgamento, enfrentar o mundo. Mundo esse que não nos ama.

Aprendemos a amar os homens e de tanto ensaiar, aprendemos a ficar quietas quando a violência chega, quando o tapa cala, ficamos em silêncio até que nos matam. Mas não. Há volta, há cobrança, há resistência e vai haver muita luta, porque somos os gritos delas, somos a justiça pelas nossas mãos. Tem que ser muito mulher pra levantar e reconhecer todo o sistema, toda a realidade que não é real, tudo que está errado, e dar as mãos para as nossas, juntas em movimento. Por todas as mulheres que foram caladas, seremos mulheres todos os dias até que todas nós – sem restar nenhuma – estejamos lá em cima, onde eles não nos alcançam mais.

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