O mito do amor romântico e a libertação do amor próprio

Irônico como não me “encontrei” no amor.

Esperei aquela sensação de plenitude e satisfação do meu ser durante meu relacionamento (com um homem), aquela que os filmes tanto mostram: felicidade plena, completa, paz. Mas era sempre algo que faltava, talvez em mim, talvez na vida. Foi irônico também quando ao amar alguém, foi quando mais me afastei de mim mesma. E como eu pensava que estava tudo bem, afinal, nos filmes e seriados o amor é sempre assim, doação, doação, doação – dela. Em todos os meus longas preferidos, havia sempre um casal heterossexual principal, já que sempre fui fã de comédias românticas e dramas, e, no plot twist, o cara fazia algo muito ruim, pisava na bola, tinha que reconquistar a mulher que estava já em pedaços, mas o final era sempre feliz, eles ficavam juntos. E depois? E ela?

Minha dúvida sobre essa tal plenitude continuou, e os filmes, as músicas, continuavam me dizendo que eu não poderia ser feliz sozinha, que eu iria encontrar a metade de mim, finalmente seria feliz quando encontrasse alguém. Eu nunca percebi o quanto essas influências acabam com nossa autoestima e suficiência. A gente nunca percebe. É sempre bom ver um final feliz, ela perdoando ele, ela sustentando o relacionamento, ela refazendo o casamento, ela sendo madura e ensinando ele como amar, ela sacrificando sua vida para permanecer ao lado dele, ela largando o emprego dos sonhos por ele. Será que é isso? Será que isso é saudável?

Conheci o movimento feminista logo quando entrei na faculdade, e desde então, acompanho e milito em favor da causa. Mais do que a causa, parece que protesto para mim mesma, mais do que só o feminismo, parece que eu também me salvei. Talvez eu não iria perceber como o sistema e a indústria pop impregnou minhas ideias e forma de viver com tanta agressividade, sem que a gente nem se dê por conta. Hoje eu compreendo e reavalio minhas próprias ações. Entre tantas problematizações, a do amor romântico foi uma das mais complicadas pra mim, porque é a forma como nos relacionamos, e tudo se baseia na relação com o outro, tudo está nas relações, inclusive nas relações de gênero. Aprendemos que amar – romanticamente – alguém é fazer juras eternas independente do que aconteça, é prometer ser tudo para o outro quando ainda nem conseguimos ser tudo para nós mesmo. Crescemos naquele mito de que amor é sacrifício e que tudo ele perdoa, e essa concepção tem grande peso na quantidade de relacionamentos abusivos e violência doméstica que vemos hoje. Se dar conta disso é doloroso, é um processo exaustivo, mas é libertador, para mim, para todas nós que aprendemos a amar cegamente.

É irônico como isso causa uma confusão à medida que tu faz mais parte do movimento, empodera-se, emancipa-se, porque todas as nossas relações são influenciadas e danificadas pelo machismo, principalmente as amorosas. É um processo difícil dizer “não” para quem está ao seu lado mas já não faz bem, é difícil pensar em si mesma, se colocar em primeiro lugar é difícil não cair na falácia do romantismo e depender do outro, é difícil não tendenciar aos filmes e perdoar tudo sem olhar para si mesma, sem ver suas marcas. É difícil ouvir as nossas músicas e não acreditar que o “amor só é bem grande se for triste”, ou que “é impossível ser feliz sozinho”.

É possível, sim!

Inclusive, é lindo,  saudável, ser feliz sozinha. E é preciso ser feliz sozinha para amar o outro e reconhecer as individualidades. Enfim, a saga pela minha felicidade plena e completa no amor está se solucionando (pois é algo difícil de desconstruir e reconstruir). É no amor, sim, que somos plenas, mas é no amor próprio. Reconhecer nossa existência enquanto ser humano e mulher, compreender nosso próprio universo e amar nossos cantos é um processo constante, e, particularmente, lento, necessita de paciência, cuidado, mudança. Ainda tenho muito o que caminhar e meus passos às vezes tropeçam, fraquejam, e tenho que começar tudo de novo. Mas encontrar a paz que eu tanto procurei em mim é libertador. Amar eu mesma e minha solidão está sendo uma das maiores revoluções dentro de mim.

22 anos. Jornalista, feminista, virginiana.

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