Os relógios sincronizados à hora de Brasília indicavam a exatidão das seis da tarde. Por todo o país, era momento de finalização de expedientes, desligamento de computadores, retorno aos lares. No entanto, o entardecer deste 05 de Abril simbolizou também o fim do período de estadia de uma ilustre visitante, conhecida desde Atenas por “Democracia”. Às 18:00, quando surgiram na rede as primeiras manchetes avisando do decreto expedido por Sérgio Moro para concretização abrupta dos intentos de encarceramento do ex-presidente Lula, ela terminou de despachar a pouca integridade que restava e partiu numa jornada de retorno à brevidade dos livros de História.

No entanto, a decisão da partida já estava tomada há um longo tempo. O plano começou quando um certo vice-presidente, decidido a desrespeitar hierarquias políticas em nome da dominação de poderes, divulgue ia carta repleta de remorso, direcionada à mulher que, já na época, era usada como bode expiatório do chiqueiro de porcos corruptos sediado em Brasília. Passou a tomar forma quando um deputado federal, movido pela ignorância do conservadorismo e corrupção, aceitou a abertura de um processo de Impeachment, justificado por manobras tributárias amplamente utilizadas em governos anteriores sem qualquer estardalhaço entre a cúpula política. Decidiu encaixotar seus bens, como o respeito à Constituição e a  independência entre os poderes da República, quando centenas de deputados tão hipócritas quanto o primeiro deram aval à loucura alavancada por ele, usando Deus, crenças pessoais e familiares para justificar tal atitude. Nesse momento, aproveitou para depositar nas latas de lixo do Alvorada a página referente ao artigo 19, inciso I da Constituição Brasileira. Aquele que prometia um Estado Laico. Afinal, ignorar 54 milhões de vozes em nome de uma fé particular não seria tolerável num país que promete a separação entee Estado e Igreja.

Mesmo com passagens em mãos, resolveu esperar. Ainda era tempo de o gigante realmente acordar, de todos os líderes vestidos com o símbolo da CBF seguirem clamando pelo fim da corrupção. Contudo, os dias passavam, os televisores ligados em horário nobre raramente transmitiam as reais dimensões do colapso econômico que ocorria, e as ruas foram se tornando fonte de silêncio. Provavelmente porque a subida do prego informal tornou o povo ainda mais ocupada, sofrido em seu cotidiano. Enquanto refletia entre partir ou não, helicocas caíram, ministros sofreram acidentes e Marielles foram mortas por mãos fantasmas.

E então, a onda de fogo finalmente chegou, fazendo a jovem Democracia brasileira abandonar este suposto berço esplêndido. Após um julgamento apressado, o surrupiamento de direitos constitucionais de defesa e interpelação de recursos, a personificação do fascismo disfarçado de Justiça ordenou a prisão daquele que dedicou seu governo à erradicação da fome e ampliação de programas sociais. Essa onda a fez perceber que já não há mais alento: desde 2013, ela vinha sendo ameaçada por alianças de elites dignas da República Velha.

Partiu há poucas horas nossa alforria das marcas sangrentas das torturas rotineiras da década de 1970. Ainda há tempo de alcancá-la, convencê-la a retornar e prometer uma proteção verdadeiramente eficaz. A resposta das urnas, que não podem abrir espaço ao tradicionalismo político elitista característico das terras brasileiras. Do contrário, bois, balas e bíblias chegarão ao Executivo com um caráter de falsa vontade popular, sem prazo para sair.

 

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