Sábado, nove da manhã. Já estamos acordados há 3 horas, quer dizer, ele super acordado e eu semi dormindo ainda. Vejo que não tem arroz pro almoço.
Pego meu menino pelo braço e vou ao supermercado.
Do carro, posso ver a manhã preguiçosa começando. Padarias, bares abrindo as portas. poucos carros ainda circulando.
Do lado do mercado, uma cena corriqueira e comum daquele local me chama a atenção.
A fila longa de mulheres e meninas
Cheias de sacolas e potes plásticos
Todos conversam e falam de si, do tempo e outras amenidades que só importam aqui fora. Mais pessoas vão chegando, quase todas mulheres. E crianças. Parecem se conhecer – ou não, mas tem aquela intimidade de quem semanalmente se encontra na mesma fila.
Todas ali sabem o que lhes aguarda em poucos minutos – e parece transparecer em suas feições, um misto de tranquilidade e apreensão.
Identificação, revista das sacolas, detector de metais, e a vexatória e indigna revista íntima – são os passos que as separam da hora da visita. Seus filhos, irmãos, pais, companheiros, namorados, amantes aguardam essas primeiras horas de sábado, e elas sempre estão lá. Toda semana. Vale a pena todo sacrifício, humilhação sofridos para estar lá, dando apoio aos que amam que tropeçaram na vida e acabaram atrás do muro alto e eletrificado.
Do outro lado, num outro muro nem tão distante não há fila.
Não há burburinho não há sacolas nem potes.
Não há homens nem mulheres nem crianças
Só abandono
Só silêncio
Não há fila, porque mesmo quando o portão se abre aos visitantes, são tão poucos, se é que há algum.
Me pergunto o porquê dessa diferença.
São 9 horas de sábado nesse muro também,
Porque será que ninguém vem ver suas mulheres? São elas também filhas, mães, irmãs, companheiras, namoradas e amantes.
Também elas erraram pelo caminho e pagam por isso, mas o preço, ah, preço é infinitamente maior.
Porque os anos, meses e dias delas vem acompanhados do peso insuportável do covarde abandono, de solidão, da saudade.
Ate nessa hora mulher sofre mais, é a prisão reafirmando o que foi tão massivamente repetido além dos muros: você, mulher, tem menos valor.
Nada é mais injusto do que a justiça dos homens aplicada a mulheres.
Segue a vida.
Minha vida normal de classe média.
A fila anda.
Meu carro entra no estacionamento.
E lá no outro muro, do lado de dentro, só o silêncio ensurdecedor do abandono.

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