Contestando a farsa histórica da Cleópatra fútil

Ela é provavelmente a maior figura feminina histórica de poder e beleza já existente. Retratada no cinema como uma mulher avassaladoramente sedutora que se utilizava de seus atributos físicos para atrair homens poderosos e expandir seu império. Porém, descobertas mais recentes e um novo olhar sobre os fatos dão conta de que Cleópatra era antes de tudo uma mulher política que conquistou tudo não com seu corpo, mas sim com seu cérebro.

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Criada para ser mais do que uma rainha

Cleópatra Thea Filopator não era egípcia e sim grega. Fruto da dinastia macedônica ptolomaica que se estabeleceu no Egito, uma linhagem de governantes fortes, foi inspirada desde criança pelo sonho de ‘Alexandre O Grande’ de unificar os impérios. Registros históricos mostram que houveram grandes mulheres ptolomaicas, mas Cleópatra foi a mais arrojada de todas e a única a ter coragem de reclamar o trono apenas para si.

Órfã de mãe aos 12 anos sua genitora é desconhecida, mas acredita-se que tenha sido a primeira esposa de seu pai Ptolomeu XII. Cleópatra recebeu a mais completa instrução romana de como se tornar uma grande governante. Há relatos de que tenha sido uma rainha poliglota chegando a dominar cerca de 9 idiomas (outras fontes informam até 12). Apesar do possível exagero, é forte o indício de que ela tenha sido a única rainha egípcia estrangeira a se preocupar em falar mais do que sua língua mãe. Afirma-se que era conhecida inclusive por fazer questão de sempre conduzir suas reuniões políticas na língua de seus ouvintes.

Sua descendência possui um longo histórico de incestos para que o poder continuasse se concentrando nas mãos dos seus, inclusive a mãe de Cleópatra teria sido a própria irmã de seu pai. Ainda que essa mistura de genes tão próximos normalmente trouxesse prejuízo intelectual, é possível que no caso de Cleópatra o resultado tenha sido um raro QI acima da média.

Ela cresceu ouvindo histórias das conquistas de seu povo, desde muito cedo já tinha em mente seus objetivos e não estava disposta a medir esforços para conquistá-los.

Ficou órfã de pai aos 18 anos assumindo rapidamente o trono e chegou a casar-se com o seu irmão Ptolomeu XIV, para governar em conjunto, mas foi ela quem reinou sozinha.

Uma deusa

Cleópatra sabia que o fato de ser estrangeira não era bem visto por seus súditos egípcios, por esse motivo como uma espécie de “estratégia de marketing” ela se dedicou a associar sua imagem a deusa Ísis erguendo monumentos e promovendo banquetes vestida como ela. Cleópatra soube inclusive reverter a popularidade de seu primogênito Cesário, filho bastardo dela com Júlio César, ( já que o mesmo era casado), tornando o menino a representação de Hórus filho da deusa Ísis com o deus Osíris.

parte do monumento erguido a mando de Cleópatra onde seu filho Cesário é retratado já adulto adorando a deusa Ísis e ao mesmo tempo colocando mãe em filho em posição de igualdade com a divindade - imagem reprodução da internet.

Ísis foi a mais importante deidade do Egito, considerada a rainha mãe egípcia. O plano de Cleópatra deu tão certo que ela passou a ser considerada por muitos a encarnação da própria deusa na terra. A imagem emblemática de Ísis segurando Hórus tornou-se a base para o que conhecemos hoje como a Virgem Maria e o menino Jesus, tendo reproduções divinas semelhantes em várias outras culturas.

comparação entre as imagens de Ísis e Hórus com a de Maria e o menino Jesus, acredita-se que a história tenha sido adaptada da mitologia egípcia sendo eliminada a parte da amamentação por questões culturais e religiosas - imagem reprodução da internet.

Uma devoradora de homens?

Cleópatra conseguiu habilmente se aproximar de Júlio César, na época o mais poderoso homem do mundo. Não há como provar que sua entrada nos aposentos de Júlio César enrolada em um tapete e saindo triunfalmente dele como uma dançarina provocativa de acordo com a imagem hollywoodiana tenha sido real, mas baseado nas novas descobertas sobre a personalidade engenhosa de Cleópatra é possível que tenha ocorrido algo próximo disso.

Ela estava determinada a conseguir o apoio do imperador, pois sabia que a seu lado estaria muito mais próxima de seus objetivos. Júlio César foi o maior e mais competente militar da história.

busto em homenagem à Júlio César - imagem reprodução da internet.

Porém, suas habilidades não se restringiam a isso, ele era também um excelente orador, estadista e escritor em prosa, em suma, um intelectual, e foi exatamente isso que o aproximou de Cleópatra.

Enquanto o mito alimenta que o sexo era o principal fator que uniu os dois, muito provavelmente ele era apenas um complemento.
Júlio César com mais de 50 anos viu na jovem rainha de 21, uma mente tão brilhante quanto a sua e ficou absolutamente encantado em conhecer uma mulher com quem pudesse compartilhar mais do que uma incrível atração física, mas também seus planos de poder.

Júlio César nunca assumiu Cleópatra ou seu filho Cesário, mas viveu uma intensa história de amor e ambição ao lado dela.

Mais tarde, com a derrocada de César, morto por membros do Senado acusado de tirania, Cleópatra não desistiu de seus sonhos de conquistar o mundo, ela emancipou seu filho ainda criança temendo perder mais poder após a queda de César e passou a governar ao lado de Cesário, ainda que o menino fosse apenas figura decorativa no governo.

Ela então enxergou em Marco Antônio (protegido de César) a oportunidade de dar continuidade a seus planos.

Marco Antônio dividiu com Octaviano (sobrinho de Júlio César) o governo das províncias romanas. De muitas maneiras ele era o oposto de César apesar de também ser um intelectual e excelente soldado, era mais jovem e mais irresponsável.

busto em homenagem à Marco Antônio imagem reprodução da internet

Seguindo a tradição de associar deuses a governantes, mas dessa vez por aclamação popular e não por vontade própria, Marco Antônio foi considerado Baco (ou Dionísio o equivalente grego) deus das festas e do vinho.

Cleópatra encontrou aí uma forma criativa de se aproximar de Antônio e propor uma aliança: ela promoveu um banquete que durou 4 dias em homenagem a ele se vestindo de Afrodite ou Vênus (equivalente romano).

Marco Antônio se apaixonou perdidamente por Cleópatra e por mais que ela tenha tentado transformá-lo em um estrategista tão hábil quanto ela própria ou Júlio César, sua paixão o cegou.

Após perder a batalha de Áccio contra Octaviano e boa parte dos seus domínios Antônio se suicidou pensando que Cleópatra havia sido morta. Ela por sua vez ao perceber que seus sonhos de dominação mundial haviam sido destruídos com a ascensão de Octaviano, suicidou-se também aos 39 anos de idade segundo o mito deixando-se picar por uma cobra naja, coincidentemente o animal protetor da deusa Ísis e dos faraós.

Cleópatra era “feia”

Todo glamour em torno da beleza estonteante de Cleópatra foi criado porque historicamente nunca foi “honroso” admitir que conquistas femininas viessem da inteligência, mas sim do uso de atributos físicos. Por esse motivo grandes mulheres com contribuições históricas importantíssimas foram retratados como promíscuas, volúveis, traiçoeiras e sem alma.

Especialmente Octaviano contribuiu para que a imagem da rainha impiedosa e devoradora de homens tomasse forma, descrevendo-a como uma mulher insaciável sexualmente que mantinha relações sexuais até mesmo com serviçais e que mandava matar o homem que se recusasse a dormir com ela. Porém, não há nenhum registro de que Cleópatra tenha se envolvido com outros homens além de Júlio César e Marco Antônio.

Existem pouquíssimas imagens de Cleópatra que comprovem como de fato era seu rosto, mas de acordo com alguns bustos e moedas talhados na época de seu reinado ela não era nem de longe parecida com o padrão de beleza socialmente aceito como belo e sua característica mais marcante era o nariz grande. Há evidências inclusive de que a franja reta que virou sua marca registrada jamais tenha existido, Cleópatra tinha cabelos cacheados considerados “rebeldes”.

busto em homenagem à Cleópatra e a representação mais próxima de como tenha sido de fato seu rosto - imagem reprodução da internet.

Plutarco, (importantíssimo historiador e filósofo grego) definiu Cleópatra como “aquela que não atraia todos os olhares quando entrava em uma sala e que poderia inclusive passar despercebida por seu rosto não chamativo, mas definitivamente tinha uma personalidade magnética quando falava”.

Ela tinha facilidade em se expressar e uma conversa envolvente. Era uma visionária com objetivos bem definidos e uma estrategista excepcional, sendo inclusive a responsável por preservar o tesouro real com a retirada de sua tropa cuidadosamente arquitetada da batalha do Áccio e que foi ridicularizada por Octaviano como “covardia feminina”. De posse do tesouro Octaviano pôde dar início a seu próspero reinado.

Cleópatra era uma mulher obstinada que sabia que precisava dos homens poderosos para alcançar sua meta, mas que não ficou escondida atrás deles, arrebanhando todos os méritos por suas conquistas. Só desistiu por falta de opções, mas lutou até onde pôde. É considerada não só a última e mais memorável Rainha do Egito, mas também a mais eficiente de sua época com registros de organização política impecável, boa administração de recursos e uma vasta dominação de território.

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Informação adicional

Cleópatra pode ter sido negra

Em 2008 pesquisadores da Academia Austríaca de Ciências analisaram o crânio de uma mulher identificada como Arsinoe, encontrado em uma tumba em Eféseo, que pode ter sido irmã de Cleópatra. A partir da análise dos traços do rosto de Arsinoe pode-se concluir que muito provavelmente a rainha Cleópatra tenha tido uma etnia mista com fortes influências da herança africana, podendo inclusive ter sido negra.

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a imagem histórica de Cleópatra sofreu o chamado whitewashing (embranquecimento na indústria cinematográfica) ao ser interpretada por uma Elizabeth Taylor tipicamente européia em 1963 – imagem reprodução da internet

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fontes:
Revista ISTOÉ

Documentário: A verdadeira Cleópatra

do Rio de Janeiro, escritora, poeta e feminista interseccional.

Escrevo no meu blog pessoal: Eles pediram bees, no Underclub.blog, além de ser fundadora do coletivo virtual Divulga Mina.

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