Aquela garotinha

Uma mulher por volta dos trinta anos sentada de frente à sua terapeuta, tenta digerir a gente pergunta que lhe fora feita há poucos segundos: qual foi a última vez que você se sentiu foda? Foda mesmo?
Ahhh tem tanto tempo…
Quando foi isso?
E sai do consultório, ainda com essa pergunta latejando em sua cabeça feito enxaqueca pré menstrual.
Passa por uma praça, cheia de crianças de uniforme escolar brincando e correndo de um lado a outro e lembra de si mesma naquela idade.
Acho que eu tinha uns 8 anos a última vez que me senti foda.
O que? Será possível? Tanto tempo assim?
O que o mundo fez com aquela garotinha de 8 anos? Aquela menina valente e impetuosa que não levava desaforo pra casa?
O amiguinho ( Diogo era o nome dele) que ficava furando-lhe as costas c um lápis super afiado durante a aula. Garoto implicante.
Um dia ela se enervou e quebrou o lápis ao meio
E Ela ficou de castigo – que isso menina, não pode quebrar o lápis do coleguinha não!
Apesar de se justificar: mas tia, só fiz isso porque ele fica apontando o lápis e me furando o tempo todo
Você perdeu a razão.
E ainda ouviu da professora – ele só faz isso porque gosta de você
E quantas vezes mais ouviu – e de tantas pessoas – ele puxa teu cabelo, ele te bate porque gosta de você
Não dá para culpa-las, a professora, a tia, a mãe, pai, todos aqueles adultos foram criados assim, pra pensar exatamente daquela forma. Só estavam reproduzindo o que aprenderam.
MAs Aquilo deu um nó
Ué, isso é gostar?
Bater, puxar o cabelo…. é gostar? Tratar mal é gostar?
Aprendizado é muito simbólico.
Veja o que o episódio do lápis a ensinou: Reagir a violência é errado – e leva à punição
Parece uma bobagem, uma coisa tão sutil
Mas os assédios e violências que passamos na vida começam ali
Tao cedo.
Uma ideia que vai sendo reforçada
Os meninos são assim
Homens são assim
A menina cresce e as experiências que se sucederam foram, de alguma forma confirmando aquilo.
Então um garoto te força um beijo, e todos em volta sorriem
E um homem esfrega o pau duro em você, menina ainda, num ônibus às 7 horas da manhã e todos em volta desviam o olhar
E num local público, à luz do dia, um cara da idade do seu pai vai se aproveitar de um canto qualquer e passar as mãos no seu corpo, e ninguém vai reparar – mas como ninguém vê?
Um cara te agarra, puxa pelo braço até te joga no chão pra conseguir te beijar numa festa – e os amigos dele comemoram e as suas amigas riem da cena toda.
Você sorri também.
Começa a achar graça do jogo – porque é assim que funciona né?!
Aí você esta bêbada, quase inconsciente e o cara acha ok chegar junto, te beijar e tentar levar pra um canto qualquer – ah se não são as amigas ligeiramente menos bêbadas…
mas vai haver dias em que elas não estarão lá com você…
Um dia vai estar sozinha com um carinha super legal, mas que não aceita não como resposta, e vai usar a força física para impor o que importa – a vontade dele.
Ou seu namorado vai gritar com você num bar, te agarrar pelo braço, te humilhar e todos ao redor vão fingir que não te vêem chorando e olhando para o chão. Não é da conta de ninguém.
Ninguém mete a colher, não é assim que se diz?
E você aprende a engolir o choro, a raiva
Aprende que sua vontade, seu querer é menos importante.
As violências vão ocorrendo com você e suas amigas, e todas à sua volta – e você não as percebe como são, porque aprendeu desde muito pequena que isso é natural.
É assim que a auto estima das mulheres se esvai até não sobrar muita coisa.
E cadê aquela menina, ou melhor, meninas que se defendiam? Que gritavam, reclamavam, acusavam e revidavam? Que enfrentavam seus pares de igual para igual?
Foram sendo silenciadas e engolidas pelo tempo, pelo jogo cruel dessa sociedade doente que violenta suas meninas e coroa seus Reis com poder e privilégios.
As meninas ainda vivem, dentro das mulheres que se tornaram, mas quase nunca são olhadas.
Talvez olhar pra elas, agora, nos possa ajudar a encarar esse caminho novo, de Re-descoberta e re-alfabetização ( vi esse termo num texto e achei lindíssimo).
E talvez, olhar para nossas meninas interiores seja mesmo fundamental.

Feminista, mãe solo, servidora pública, 33 anos, moro em Niterói-RJ.

1 comment / Add your comment below

  1. Maravilhoso texto. Já passei e passo ainda por todos esses questionamentos. Quando deixamos de ser nós mesmas? Simone de Beauvoir aborda esse tema no seu livro O Segundo Sexo. Mas aqui é como se vc tivesse “desenhado” toda sua teoria. Obrigada.

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