“Viver em um lugar no qual não se prevê sua segurança significa caminhar em permanente estado dissociativo” (Jessica Valenti – Objeto Sexual)

Na última terça feira, no final da tarde, pedi um uber no bairro da Glória, centro do Rio.
Aguardei sozinha, na calçada, checando o celular o mais discretamente possível de tempos em tempos, naquela ansiedade para que chegue logo o carro e eu me veja livre dos perigos da rua.
O carro chega, atravesso a rua e entro no agradável ar condicionado.
O uber segue e logo se perde em uma rua auxiliar, e justifica-se: não conheço bem o centro do Rio.
Eu, que estava distraída no banco de trás, olho em volta e não reconheço onde estou. Respondo que também não conheço mais o centro, ainda mais depois de tantas mudanças recentes, com Brts e VLTs, mudança de mãos…
O uber segue na tentativa de voltar à rota, o aplicativo apitando e narrando cada desvio de caminho.
O carro segue entrando por ruas menores, quase desertas. De vez enquanto olho em volta, continuo perdida e sem saber bem onde vamos.
Entramos em um desvio cheio de cones, e nos deparamos c um edifício em construção, deserto. Sem saída.
O carro diminui a velocidade até parar.
Eu, que estava lendo um texto, ergo os olhos e continuo não fazendo ideia de onde estou.
Motorista parece hesitar. Confere o celular.
Segundos de apreensão.
A esta altura, faço uma pausa na história pra acrescentar um detalhe: a motorista é uma MULHER. sim, essa informação faz toda a diferença.
Explica a calma e tranquilidade, até displicência com que encarei toda essa confusão pelas ruas do centro do Rio.
O fim da historia? Após verificar o aplicativo do celular, a motorista engata a ré, manobra e finalmente encontra o caminho certo.
Em poucos minutos estou no meu destino.
Provavelmente para um homem que lia essa história, não houve nenhum sobressalto, história comum mesmo de GPS desatualizado.
Mas sou capaz de apostar todas as fichas que as mulheres que me lêem devem ter ficado apreensivas, até tensas durante as primeiras linhas desse texto.
A revelação de que a motorista era mulher não deve ter causado mais que curiosidade nos leitores mas com certeza foi alívio para as leitoras.
As que utilizam táxi e uber no seu dia a dia ou ate eventualmente sabem muito bem o alívio que é ver atrás do volante outra mulher. A sensação de segurança que dá.
Muitos homens vão dizer: ah, que exagero.
Bem, vocês não tem mesmo como saber né? Não estão na nossa pele pra saber o que é ser mulher num mundo misógino.
Mas se vocês não são machistas babacas ou querem deixar de sê-lo, podem fazer uma coisa revolucionária: ouvir o que nós, mulheres, estamos falando ( as vezes, gritando) e acreditar. Sim, dar crédito à nossa voz é o primeiro passo para que homens comecem a se questionar, coletivamente, e fazer algo de concreto para mudar essa masculinidade tóxica e essa realidade violenta contra mulheres.
Entender que, enquanto todos vivem em constante medo da violência urbana, a metade feminina da população vive com medo ainda mais básico, mais profundo: medo de simplesmente existir.

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