No dia 23 de Abril, inúmeros sites de livrarias anunciavam promoções como forma de comemoração do Dia Internacional do Livro. Obras como “The Handmaids Tales” e “Objeto Sexual”, de Jessica Valenti figuravam em rankings de maior número de vendas. Infelizmente, a ocasião foi apenas um interrupção rara da valorização quase que exclusiva de autores homens e já é passada a hora de debater o silenciamento das experiências das mulheres em consequência da baixa representatividade no mercado editorial.

Como se não bastassem as altas doses de atenção recebidas pelos chamados “livros clássicos” – entre os quais predominam obras redigidas por homens, uma vez que nos séculos passados, era praticamente impossível a uma mulher encontrar apoio financeiro e editorial para efetivar a publicação de suas obras, a exemplo da negligência sofrida por escritoras como as irmãs Bronte, obrigadas a usar pseudônimos masculinos na esperança de ver suas histórias comercializadas – as escolhas de publicações na atualidade permanecem valorizando o ponto de vista socialmente hegemonico: 72% dos autores nacionais publicados, entre 1990 e 2010, segundo a pesquisadora Regina Dalcastagné, são homens brancos de classe média.

As listas de leituras obrigatórias dos vestibulares das universidade federais, as quais deveriam primar por reflexões da conjuntura social brasileira, somente fortalecem a marginalidade das minorias no universo da escrita, transmitindo a alunos de ensino médio a ideia de uma cultura nacional pautada no colonialismo branco e masculino e corroborando o já secundário papel de autoras brilhantes de nossa literatura. Nenhuma lista expressa melhor a excursão das mulheres nesse meio do que a exigida pela Universidade Federal do Paraná. Entre os oito livros do edital, nenhum foi escrito por uma autorA, ainda que haja mais de um volume referente ao período colonial e, obviamente, redigido por um membro da elite letrada do país. Nem mesmo as comissões organizadoras de concursos reconhecidas pela elaboração de listas modernas conseguiram o incrível feito de uma distribuição igualitária de títulos entre os gêneros, de forma a ampliar o espaço de fala do gênero feminino. Unicamp e USP, conhecidas pela abrangência de temas e realidades sociais em suas provas, cobram, em conjunto, QUATRO míseras obras de mulheres, ou seja, meros 17% do total dos 23 livros requeridos. A exacerbada valorização de autores por essas instituições fazem com que gênias do modernismo, como Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Pagu e  Carolina Maria de Jesus recebam pouco ou nenhum reconhecimento, com suas obras sendo ignoradas nas salas de aula de Ensino Médio e, consequentemente, deixando de ser conhecidas como parte da trajetória cultural brasileira.

Por isso, a leitura é uma prática que merece ser encarada como um ato político. A partir dela, é possível dar voz às diversas vivências das mulheres, apoiar iniciativas de escrita de autoras capazes de promover reflexões e que, após uma história milenar de subjugamemto de nosso gênero em todos os aspectos, incluindo o artístico, merecem, no mínimo, igual espaço de expressão.No cerne dessa batalha feminista, já estão inciativas como o movimento #LeiaMulheres, existente desde 2014, e as ações do coletivo Sycorax – responsável pela tradução da obra “Caliban and The  Witch”.

Neste momento de popularização da causa feminista, é importante contribuirmos para a continuação de publicações de mulheres.  Assim,  a cultura brasileira deixará de ser sinônimo da tradicional estereotipacão das personagens femininas, colocadas em papéis de insignificante número de falas ou de pares românticos desprovidos de relevância intelectual em 65% das tramas criadas por escritores.   Não há literatura “feminina”- abominável ideia difundida pelas editoras por meio do gênero “Chick Lit”, as quais reduzem o interesse de leitoras a romances novelescos-  mas é pela leitura de nomes como Chimamanda, Virginia Woolf, bell hooks, Márcia Tiburi, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Márcia Batalha que podemos auxiliar na formação de um mercado editorial mais igualitário.

#LeiaMulheres.

 

 

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