Americanos parecem ter uma tendência maior a idolatrarem famílias perfeitas que não são tão perfeitas. E o humor deles é baseado em aplicar uma lente de aumento sobre “esse não tão perfeitas”, escancarando a total disfuncionalidade da maioria das famílias americanas. Basta notar a quantidade de séries sobre “famílias estranhas” que nasceram lá e que fazem sucesso no mundo todo, mas uma delas pode ser considerada a maior: Os Simpsons.

A história da família amarela foi criada pelo cartunista Matt Groening inicialmente para ser uma esquete do programa The Tracey Uilman Show, com estréia em 19 de abril de 1987. Acabou virando um quadro fixo que durou três temporadas e 48 episódios no total, e o último foi exibido em 14 de maio de 1989. Porém, o sucesso foi tão grande que em dezembro do mesmo ano eles acabaram ganhando seu próprio programa com duração de trinta minutos. A primeira versão é visualmente bem “descuidada” se comparada ao que conhecemos hoje, mas o roteiro recheado de humor negro e referências à cultura pop é o que mais chama a atenção na série.

Uma estranha no ninho

Os moradores de Springfield são tão loucos que Lisa Simpson às vezes parece a única pessoa sã dali. Seu nome completo é Elisabeth Marie Simpson, em homenagem à irmã de Matt, o criador da série. Ele é uma menina de 8 anos, superdotada (um episódio dá conta de que inclusive ela teria um Q.I de aproximadamente 159), vegetariana, feminista, saxofonista e quase sempre parece ser o fio condutor para a tomada de decisões sensatas quando a série aborda questões polêmicas.

Uma das maiores heroínas de Lisa é a cientista Marie Curie (sobre a qual já falei em outro artigo, clique aqui para ler ) uma referência bastante incomum para alguém da idade dela. Mas o que mais encanta em Lisa, é que apesar de toda sua complexidade ela alterna momentos de extrema fragilidade e até mesmo futilidade próprias de uma criança, como por exemplo o fato de sua boneca preferida ser a Malibu Stacy – um equivalente da Barbie – e ao mesmo tempo em que ela questiona a existência de brinquedos direcionados para cada gênero: “brinquedos para meninas e para meninos”, não consegue deixar de gostar da boneca, assim como a maioria de nós que por vezes entendemos a problemática que envolve certos elementos da nossa cultura mas continuamos apegadas a eles.

O que chama mais atenção nesse contexto é que Lisa problematizou as falas caricatas da boneca Stacy, lá em 1994 quando ainda pouquíssimo se falava sobre feminismo ou empoderamento. Isso quer dizer que ela tem sido uma grande referência feminista para muitas de nós mesmo antes de nos darmos conta de que também éramos feministas.

Com uma mãe omissa em relação a criação dos filhos e de certa forma submissa (ainda que Marge sempre se aventure em novas profissões e experiências fora do âmbito familiar, ela é constantemente de uma forma ou outra guiada por Homer), um pai e irmão que vão totalmente contra ao valores nos quais ela acredita, Lisa consegue se empoderar na medida do possível e tirar grandes lições de quase todas as situações difíceis nas quais se envolve, ela é como nós que mesmo feministas estamos em constante aprendizado.

Veja alguns momentos em que Lisa foi a maior feminista que nós respeitamos:

Em “Lisa vs Malibu Stacy”, ela se irrita porque sua nova boneca falante reproduz discurso machista com frases como “não me pergunte, sou apenas uma garota”, além de incentivar as meninas a se “adultizarem”, e passa a lutar para que bonecas como Stacy deixem de ridicularizar mulheres.

Em ”A Casa da Árvore dos Horrores XIX” ela questiona: “por que quando uma mulher é confiante e poderosa ela é chamada de bruxa?”

No episódio chamado “A conexão Springfield” ela dá uma aula sobre luta de classes: “Mas a polícia não é a força que mantém o status quo da elite endinheirada?”

Quando ela e suas tias estão cansadas dos homens:
– Lisa, chegou a hora de você descobrir a verdade sobre os homens.
– Eles são porcos?
– Tem bastante amargura nessa aqui.

Os gostos dela são tão parecidos com os nossos que ela poderia ser nossa melhor amiga: “meus interesses incluem música, ciência, justiça, animais, formas, sentimentos”.

Não preciso dizer mais nada:
“Bem, como feminista, virtualmente qualquer coisa que uma mulher fizer é empoderador”.

Bônus:

“O primeiro passo para nos livrarmos dessas amarras impostas pelos homens!”

No episódio de 1991 “Nós somos jovens, jovens”, Marge é mostrada como uma ativista feminista na época de colégio. Ela aparece queimando um sutiã, provavelmente em alusão ao feminismo dos anos 60. O fato dela ser inteligente e cheia de potencial como mencionado anteriormente, mas retratada como uma mulher que foi podada pelo marido ao longos dos anos, é uma crítica direta ao casamento enquanto instituição que impõe um papel de gênero às mulheres.

Confira os textos que usei como apoio para escrever esse artigo:

em 1994 Lisa Simpson já se incomodava com brinquedos apenas para meninas

18 vezes em que a Lisa Simpson nos representou

Os Simpsons completam 27 anos, conheça a história do início da série

3 vezes em que Os Simpsons falaram sobre feminismo

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