De forma invisível, mulheres não têm o direito de parar (entre várias outros que nos foram roubados). Não podemos desacelerar, seja para o que for, na vida, porque já iniciamos essa corrida alguns quilômetros atrás e com um peso em cada perna para competir com o resto – dos homens – da sociedade. Mas parece que isso ainda que seja intrínseco, se tornou visceral a partir do momento em que vivemos em um sistema bruto, capitalista, mercadológico e competitivo. Em um sistema que desde seu ínfimo cresce a partir da desigualdade, a partir de oportunidades excludentes, de classes guerrilhando entre si e de gente morrendo para que outros ganhem. E por viver nesse sistema, e ser uma das categorias em desvantagem, oprimida, “minoria”, que não nos é permitido parar.

Vejo mães sendo julgadas porque pararam de trabalhar por não aguentar um mercado violento que não se flexibiliza diante da responsabilidade compulsória da dupla jornada da mulher como mãe e dona da casa. Percebo também mulheres sendo rechaçadas por pararem com seus planos de ter filhos para continuar na corrida no mercado de trabalho – que constantemente as desmerece e tenta derrubar. E somos derrubadas. Parece que somos jogadas para a linha de partida quando paramos por exaustão, por confusão, por cansaço, por obstáculos, por qualquer motivo, simplesmente caminhamos mais devagar e tudo se perde.

Já que temos que a todo momento reforçar nossas qualidades e habilidades diante de um mundo sexista, é impossível que paremos sem que sejamos julgadas ou que sejamos autocríticas, cobrando a nós mesmas que simplesmente não paremos. Estamos cansadas, às vezes em crise, às vezes sem querer, e não nos permitidos nem pensar em tirar um tempo, ler um livro inteiro, cuidar da gente. Principalmente, então, em relacionamentos. Basta parar um pouco de priorizar o marido que o casamento se esvai num mar que mistura a insegurança dele, a necessidade constante de ser exaltado, com a sociedade que anda “tão preocupada” que continuemos segurando relacionamentos falhos. De uma ponta só. Sinto que não podemos ter dúvidas, porque já duvidam de nós a todo momento, sempre há um homem para o cargo, uma brecha esperando para dizer que aquele não é lugar para mulher. Às vezes eles conseguem, e derrubam.

Mas a gente volta, a gente não para, estamos acostumadas – e fortificadas – à medida que lutamos diariamente contra uma estrutura opressiva, violenta, e nos colocamos em espaços, conquistamos lugares e posições. Como se não bastasse, ainda, aguentamos e calamos quando um homem quer explicar tudo para nós – homem que nunca passou pelas mesmas cobranças que nos são impostas todo o instante. Ainda chegamos ao final do dia e encontramos um lugar para pertencer, para nos orgulharmos, porque não estamos sozinhas.

Pode ter certeza, por trás de uma mulher poderosa, há um longo caminho de força e superação, que não termina.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here