>Eis que, em meio a nossas discussões feministas corriqueiras, uma amiga diz: precisamos falar sobre maternidade! Isso na verdade é uma intimação dirigida a mim: Você precisa escrever sobre maternidade.
Eu sei o que ela quer dizer. Viver minha maternidade me consome tanto – e me angustia, me assusta, me apavora – como não escrever sobre isso?
A proximidade da data comercial tão aguardada me faz recuar um pouco, confesso. Mas talvez, justamente nessa época seja propício falar – e, muito honestamente, sobre isso.
Claro, não falo em nome de ninguém a não ser de mim mesma, só posso saber da minha maternidade e de como eu vejo a realidade que me cerca, do meu lugar e bem consciente dele: de mulher branca hétero de classe média.
Partindo daí, cheguei à observação de que o dia das mães não é bem uma data para vender perfume, lingerie e panela de pressão. É o dia destinado a vender uma ideia: a ideia, ou mito da Super Mãe.
O ideal da Super Mulher ( da qual a super mãe é subproduto) nos é vendido todos os dias, mas é especialmente celebrado no segundo domingo de maio.
O neoliberalismo ( sim, nosso velho e bom capitalismo vestido na sua farda de patriarcado) se apropriou da ideia do empoderamento feminino, e bem no auge da segunda onda do feminismo, na década de 1960, criou esse padrão irreal, inalcançável e cruel de sucesso feminino (de novo, leia-se branca hétero e classe média): a Super mulher que trabalha fora, cuida da casa, educa os filhos, cuida do marido/companheiro e, claro, cuida de si, é vaidosa, linda, cheirosa, gostosa e sexy.
O empoderamento, enquanto movimento coletivo e político e, por isso mesmo, que pressupõe a análise sócio-histórica de gênero raça e classe, foi sequestrado, esvaziado e formatado em algo individual e individualista, se transformando portanto, num produto a ser vendido e consumido.
Você precisa perseguir esse ideal de Super Mulher e, se você não consegue, se não dá conta, a culpa é exclusivamente sua – foi você que não se esforçou o bastante. Nossa já conhecida meritocracia.
Mas para além disso, assumir o caráter de super humanas obviamente nos desumaniza e naturaliza uma série de injustiças às quais somos submetidas, disfarçadas de elogios.
Quando usamos a expressão “pãe” (corruptela de Pai e Mãe, pra se referir às mães solo), estamos romantizando a ausência.
Assumir a existência da Super Mãe implica em naturalizar a maternidade compulsória e como função única e exclusiva da mulher. Naturaliza a injusta divisão de tarefas e responsabilidades com os trabalhos domésticos, da participação na educação dos filhos, na manutenção do relacionamento ( famoso “a mulher que faz o homem”). Naturaliza a exaustão, a solidão, a exploração da mulher.
Cria em nós uma culpa que beira o insuportável – porque certamente vamos falhar e nos sentir miseravelmente (somente) humanas.
Homenagear a super mãe é aplaudir o falso padrão que nos adoece; é perpetuar esse sistema que nos oprime e aprisiona.
Vamos chamar as coisas pelos nomes que tem e parar de celebrar a Super mulher e a super mãe. Ela não existe.
Nossas avós, mães, irmãs, amigas – nós mesmas somos mulheres reais, de carne e osso. Fortes e frágeis, cheias de dúvidas, angústias e incoerências. Ora, e é
justamente olhar para nossas mães e avós (e para nós mesmas, em última instância) com generosidade e sem a capa de super mulher, ao nos depararmos com tudo que fizeram e que fazem por nós, em sua condição demasiadamente humana, que faz com que tenhamos ainda mais orgulho, gratidão e amor por elas.
Não se trata, portanto, de se rebelar contra a homenagem, mas sim, a fazê-la de forma mais justa. Que nos abracemos e que celebremos as mães e mulheres Reais e Possíveis que temos e que somos. Um brinde a nós.

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