Será que ele não é realmente um homem fácil?

Esse texto é inteiramente opinião da autora e não necessariamente reflete a opinião da equipe Todas Fridas.

*contém spoilers*

A direção é de Éléonore Pourriat e o roteiro é uma parceria entre ela e Ariane Fert . Não acho que os problemas técnicos que notei sejam totalmente culpa delas porque para um filme ser feito é necessário uma equipe. Fato que ele é ambientado na frança e o idioma original é o francês (assisti legendado e imagino que dublado fique pior nesse aspecto), não sei se é pela minha falta de domínio da língua, mas achei o ritmo estranho e perdido em vários momentos.

Além disso, a cultura francesa tem algumas particularidades que o roteiro não consegue equilibrar pra universalizar a história e ficam muito evidentes chegando ao ponto do “estilo de vida francês” sobrepor a mensagem.

O ator protagonista Vincent Elbaz, é o típico homem feio com privilégio de galã. A ideia é que ele seja machista e insuportável mesmo, mas também achei pouco carismático. Algumas pessoas com quem conversei disseram terem ficado com pena quando ele começa a ser assediado, porque é “normal” por mais que o homem seja mau caráter se ele for charmoso o espectador relevar as más atitudes.

Não fiquei com pena nem me apeguei ao ponto de torcer por ele, e acredito que uma boa parte dos espectadores também não. O romance é forçado. É óbvio que dentro do contexto do filme ele não tem a função de emocionar como a maioria das histórias de amor, e sim de mostrar como seria com os papéis invertidos, mas mesmo assim seria natural que as pessoas se derretessem minimamente quando ele se apaixona por ela, o que não aconteceu comigo, e novamente acredito que com boa parte de quem assistiu também não.

O roteiro não consegue desenvolver o romance até um desfecho lógico e o final apesar de bem pensado é muito abrupto e perde um pouco na reflexão. A atriz principal Marie Sophie Ferdane que interpreta Alexandra, tem uma beleza comum (para os padrões sociais de modo geral), aliás quase todas as mulheres do filme passam a ideia de serem “bem comuns”, dentro do possível.

Praticamente não existem negros nem pessoas de outras etnias, fora da figuração.

A protagonista se esforça para desempenhar o papel de “cafajeste”, mas não consegue segurar o filme sozinha.

Achei que ele beira o ridículo de modo negativo algumas vezes. Tudo bem que a ideia principal é trazer os homens para o lugar das mulheres e ver como funcionaria se o masculino “fosse o sexo frágil”, mas não achei por exemplo a ideia dos shortinhos no lugar de calças em ternos uma boa ideia.

De qualquer forma, acredito que ignorando as coisas ruins a mensagem principal seja bem clara e o filme cumpra seu papel: o de mostrar como machismo é algo tão surreal que se você parar para analisar um instante como seria insuportável e ridículo viver em uma sociedade femista, então como a gente suporta viver em uma sociedade machista?

Apesar da obviedade não é um filme para todos os públicos, tendo em vista que se já precisamos explicar coisas óbvias para os machistas no dia a dia, nem desenhado (ou filmado) alguns entenderiam.

De forma mais direta algumas coisas abordadas para quem ficou em dúvida foram:

• A depilação no peito dele é para representar a depilação íntima. Enquanto no nosso mundo é uma exigência que mulheres tenham pouco ou nenhum pêlo pubiano e aquele “estilo bigodinho do Hitler” seja a depilação mais usada, no mundo invertido o peitoral masculino faz o papel da vagina. Isso fica claro na cena em que a mulher diz que não vai transar com ele porque o peito dele é todo peludo, e ela acha sujo. Aliado a isso o filme discute a demonização do corpo feminino e o quanto é exigido das mulheres que elas tenham uma higiene pessoal perfeita e os homens não. No mundo invertido do filme, os homens é que precisam performar feminilidade (achei essa parte bem mal aplicada também, mas a ideia está lá) e as mulheres são livres para terem pêlos nas axilas e pernas. Isso nos mostra o quanto a questão de arrancar os pêlos é puramente construção social, porque não faz sentido algum aceitar homens com pêlos e mulheres não.

• O filme também aborda os protocolos sociais. No mundo invertido as mulheres comandam as relações e são apresentadas como “fulana e seu marido”. Os homens tem um papel muito mais “decorativo”, assim como as mulheres no nosso mundo. Lá as mulheres foram escolhidas pela seleção natural para darem à luz por serem o sexo forte, mas são os homens quem cuidam dos filhos e da casa, enquanto as mulheres em sua maioria trabalham em funções que no nosso mundo são masculinas. Nas separações os homens ficam com as crianças e as mulheres visitam e pagam pensão.

• Lá os homens são mais objetificados em propagandas e em trabalhos como stripers e garotos de programa.

• No mundo invertido os homens são assediados e cortejados pelas mulheres, e isso mostra o quanto é insuportável às vezes quando o protagonista percebe que praticamente não consegue ter um momento a sós em que não seja cantado. No início ele gosta porque como a maioria dos homens acha que no mundo perfeito se mulheres cantassem homens na mesma medida seria uma vantagem, mas logo nota o quanto não ter autonomia sobre o flerte pode ser um incômodo.

• No mundo invertido, as camisinhas masculinas não vingaram, e é considerado que a mulher tenha mais necessidades sexuais, momentos em que são aplicadas todas as desculpas e clichês habituais para justificar os erros dos homens, porém  invertendo os papéis. Talvez só assim algumas pessoas percebam o quanto é absurdo viver justificando mau caratismo com “é coisa de homem”.

• A cena em que ele é assediado e praticamente abusado no bar é quase inacreditável (forçada em alguns aspectos), mas dá a noção do quanto é horrível para nós mulheres passarmos por isso quase todos os dias.

• No mundo invertido o feminismo é o masculismo e é ridicularizado o tempo todo fazendo com que o protagonista tenha que se explicar frequentemente sobre “porque ele é diferente”, porque para ele é tão difícil ser comandado pelas mulheres, que alguém pegue a bebida dele, ou que alguém o trate como um bibelô. As pessoas lá consideram não natural um homem não aceitar ser subjugado e objetificado. Em um momento ele até tem um surto diante da pressão dos pais “sobre porque é tão difícil aceitar que um homem esteja solteiro”. Ele tem que explicar que não odeia mulheres, apenas que tem alguma coisa errada naquela sociedade, mas é constantemente silenciado. Alguma semelhança?

• Algo que achei interessante é que no filme “o masculismo” é uma ideia defendida e aplicada na prática, no dia a dia por homens que acreditam que precisam se manifestar contra o “matriarcado”, acontece uma passeata bem duvidosa inclusive em que eles usam seios de borracha, mas no geral enquanto no nosso mundo o feminismo é visto “como partido político” onde muita gente pensa que só pode participar quem está envolvida diretamente com “política”, lá o masculismo é vivido principalmente por homens comuns contestando coisas do cotidiano. Deveria ser assim com o feminismo.

Por fim, vale pela experiência e pela reflexão, mas fiquei extremamente incomodada quase o tempo todo em ver na tela como é nítido que o machismo é um câncer social e que algumas pessoas simplesmente continuem minimizando isso. É bem completo no sentido de abordar detalhes minúsculos do dia a dia como comportamentos tão naturalizados como masculinos ou femininos que no nosso mundo muitas vezes passam despercebidos, até “coisas grandes” sobre como os papéis sociais podem interferir profunda e negativamente até mesmo nos relacionamentos amorosos, exigindo que exista “um homem e uma mulher da relação”.

crédito na imagem

do Rio de Janeiro, 26 anos, poeta e feminista intersec.

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