Feminismo na internet: universalização de problemas individuais

É importante ressaltar que o movimento feminista é inerentemente político, desde seu princípio, com seus recortes de classe e raça, sempre foi um movimento pelo direito à ter direitos, pela cidadania, pelo espaço público. Em cada onda novos focos surgiram e novas questões foram pautadas (outras superadas) e conquistadas. Se fala no “pós-feminismo” para se referir à contemporaneidade de hoje, das mulheres e suas necessidades atuais, mas vamos falar aqui como terceira onda, que vem desde a abertura política de 80.

O feminismo traz questionamentos construídos pelas mulheres que conquistaram espaços, direitos, incontestáveis para estarmos aqui hoje, ainda lutando, ainda resistindo. Junto com isso, com a internet e a democratização parcial do acesso à informação, às redes sociais, nasce um novo tipo de deliberação, pessoal, íntima, que o movimento de rua feminista ainda não conhecia. Grupos das redes sociais de mulheres crescem e lá é um espaço totalmente propício para que discussões de diversos ângulos floresçam, com a característica de que: o ponto de vista é pessoal.

Há ressalvas sobre determinadas discussões sociais nascerem ou tomarem um foco individual, já que, indiscutivelmente, movimentos sociais são coletivos, as demandas são coletivas e a emancipação deve ser coletiva e total. O que eu noto é como o envolvimento com discussões de cunho pessoal tornam-se universais, como algumas teorias ou expressões do feminismo são totalmente aplicáveis ao dia a dia, e essas mulheres conseguem visualizar de forma palpável algumas discussões levantadas durante séculos. Meninas adolescentes que estão entrando no movimento agora reclamam de suas percepções, do dia a dia, de dentro de casa, compartilham suas revoltas e percebem que a maioria delas passa pela mesma coisa, mas só conseguiram notar essa opressão a partir do seu próprio olhar. O processo de emancipação é em irmandade coletiva e não seria possível sem uma ajudar a outra a subir, mas nossas libertações são diárias, somente nós podemos reconhecer as dores e, quando conseguimos entender nosso próprio íntimo, conseguimos ajudar a curar uma a outra.

A universalização dos problemas individuais de gênero faz com que a identificação e pertencimento ao movimento sejam construídas, em cada menina, de forma pessoal, em um processo íntimo. Já que, na sua superfície, os problemas afetem todas as mulheres, mas a percepção e desenvolvimento desse olhar, é pessoal. Ao seu fim, soma ao coletivo, com recortes, contrastes, diferenças e especificidades – sempre ressaltando que essas problemáticas se tornem coletivas para enriquecer a mobilização.

Historicamente construído por mulheres brancas e burguesas, o movimento feminista se torna teórico, com estudiosas explorando a estrutura de gênero, dessa forma, ter um paralelo que traga essas teorias para a prática concreta pode ser enriquecedor. Como é experimental, só podemos ver esses resultados com o tempo, que já estão aí, como os coletivos online, organizativos, que vão para as ruas e convocam protestos numa rede que ultrapassa barreiras geográficas. Hoje eu percebo problemas e reconheço vivências distantes da minha, mas eu consigo sentir minhas próprias desconstruções, a partir de mim mesma, dividir com outras mulheres e compreender o contexto delas.

Partir do micro para o macro é um movimento circular, podemos ir e voltar, olhar para dentro de nós mesmas para entender nosso caminho, nosso processo, nossas questões, que não serão diferentes de outras mulheres, e partir do coletivo, para suas especificidades e potencialidades. Esse movimento cresce e só tende a construir um feminismo ainda mais sólido, identitário, que se faz constituir na sua própria luta.

22 anos. Jornalista, feminista, virginiana.

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