O caminho entre a adultização infantil e a culpabilização feminina

Antes de tudo é preciso entender que a erotização infantil de modo geral é um problema gravíssimo e extremamente nociva tanto para as meninas quanto para os meninos, mas que é muito mais dura com as meninas e faz parte de uma dinâmica muito mais complexa que resulta em mulheres com a autoestima totalmente destruída, abuso e culpabilização das vítimas.

Para começar, desde cedo é estimulado que a menina desenvolva dois tipos de características principais em sua personalidade:

• aquelas que a tornem atraente mas ao mesmo tempo vulnerável

ex: ela provavelmente vai ouvir várias vezes que deve se comportar como “mocinha”, que deve ser feminina, delicada, ouvir mais do que falar

• aquelas que a tornem responsável por seu próprio corpo independente da idade e que se ela não “cuidar dele corretamente” e acontecer algo, a culpa é dela

ex: ela será convencida de que se vestir de forma “não convencional” estimula os meninos a tocarem nela, mas que se não for visualmente atraente será rejeitada por eles, que toda menina já nasce com instinto materno, que um menino ser agressivo e “implicar com ela” é o jeito dele de demonstrar que gosta dela

Uma menina que desde cedo é ensinada a aceitar atitudes grosseiras dos meninos “porque eles são meninos”, ser submissa as vontades deles “porque ser grosseira não é uma atitude de mocinha” e moldar a própria aparência e personalidade para agradá-los (aí começa a ideia de que o casamento e a maternidade muitas vezes são o que tornam uma mulher bem sucedida), provavelmente se tornará uma adulta com complexo de inferioridade e que irá se culpar caso sofra um abuso.

A sociedade sempre teve um verdadeiro fascínio por “mini adultos”. Crianças se vestindo ou agindo como adultas sempre foram consideradas positivamente precoces.

No caso dos meninos isso muitas vezes está ligado a comprovação da masculinidade. Meninos que desde pequenos demonstram trejeitos viris são parabenizados, e quando não, são incentivados a isso.

Frases como:
“segurem suas cabras que meu bode está solto” e “meu filho vai puxar o pai e ser um pegador” (esse tipo de pai muitas vezes é aquele que tem atitudes repreensíveis como infidelidade e violência doméstica, mas associa isso ao estereótipo de “machão” que acaba naturalizando essas atitudes para as pessoas ao redor e muitas vezes fazendo com que o filho deseje ser como ele), ilustram bem essa dinâmica.

No caso das meninas está associado a ideia de realização que a mãe tem na filha, em vê-la fazer coisas que ela gostaria de ter feito, vê-la se tornar uma versão melhorada dela própria. Mas também a ideia de que mulheres sensuais e bonitas são mais felizes e fazem mais sucesso. Atualmente é comum ver meninas cada vez mais jovens apresentando canais de moda no YouTube e se tornando mini blogueiras.

Sabe-se que o interesse de meninas pelos elementos que compõem o universo feminino como roupas, sapatos e maquiagem é comum, mas ele deve se apresentar de forma natural.

Crianças não devem substituir calçados para sua faixa etária por salto alto, andarem maquiadas ou serem impedidas de brincar e realizarem atividades de acordo com a sua idade para se tornarem mini adultas em troca de dinheiro gerado pela visibilidade nas redes sociais ou para resolver uma frustração da mãe.

Precisamos compreender porém, que esse incentivo vindo da mãe na maioria das vezes não é culpa só dela, e sim resultado do ciclo que estamos demonstrando aqui: meninas que são impulsionadas a buscarem um padrão inalcançável de felicidade prometida pelo visual perfeito e pelo casamento perfeito raramente alcançam isso e se tornam adultas frustradas que podem projetar esse desejo nas filhas, fazendo-as elevar o nível e tornando ainda mais impossível.

Já é comum no mundo da moda meninas ingressarem na carreira e serem descartadas cada vez mais novas. Além da luta para alcançar a perfeição das medidas corporais, essas meninas, crianças na maioria das vezes, se apresentam como cabides nas passarelas demonstrando roupas para adultas consumirem. Em ensaios fotográficos aparecem extremamente produzidas incentivando nas mulheres mais velhas também uma busca insana pela “fonte da juventude”.

Outro ponto extremamente polêmico da objetificação feminina é a permissividade como meninas menores de idade com corpos mais “desenvolvidos” são tratadas. Quantas vezes você já não ouviu: “ela tinha 15 mas já tinha um corpão”? A ideia de que o corpo feminino é “público” e de que os homens tem instintos frágeis e incontroláveis que podem ser facilmente engatilhados, é fortemente difundida por frases como: “eu sou homem e tenho minhas necessidades“, argumento usado para defender que homens tem mais ”apetite sexual” que as mulheres (o que não é verdade), que a mulher precisa servi-lo por obrigação matrimonial ou para não perdê-lo e que o “sexo recreativo” para os homens é necessário e para as mulheres vergonhoso.

Já em relação a ideia de que meninas amadurecem mais rápido ou de que meninas são mais responsáveis, ela é basicamente outro instrumento da pré definição de papéis de gênero. A brincadeira mais comum para as meninas é brincar de casinha, nisso é incutido que ela já “nasce” com esse tipo de responsabilidade que é preparada para assumir mais a frente. Hoje sabe-se que a maternidade é uma escolha e que para muitas mulheres ela não caracteriza sua realização pessoal e que o casamento não precisa ser uma prioridade, que ela é livre para construir uma carreira ou fazer o que quiser antes disso, e até mesmo não se casar. Mas enquanto a brincadeira de casinha é praticamente empurrada para as meninas, o lazer dos meninos tem muito mais “cara de lazer”, por assim dizer, são sempre os carrinhos, os heróis de quadrinhos ou de filmes de ação. É como se os meninos fossem livres para viverem aventuras pois sabem que as meninas estarão cuidando da casa. Isso é facilmente perceptível pois quando um menino demonstra interesse por “brincadeiras de menina”, ele é repreendido. Os meninos são ensinados que é uma afronta a sua masculinidade realizarem tarefas domésticas e mesmo quando o fazem são premiados como se fosse algo espetacular, se a divisão dos afazeres deveria ser algo natural.

Isso se reflete também no fato de que comumente a responsabilidade de cuidar dos filhos é direcionada a mulher. Em entrevistas de emprego as perguntas “você tem filhos?” “com quem ficam?” são feitas majoritariamente às mulheres. Isso ocorre desde a concepção como no caso de uma gravidez indesejada quando a mulher é culpabilizada por “não ter se cuidado”. Mais tarde quando se torna mãe solteira ainda é mal vista, e a sociedade ignora que na maioria das vezes ela foi abandonada pelo pai do bebê e obrigada a assumir a criança sozinha. Nas discussões de aborto a responsabilidade é sempre depositada na mulher “na hora de abrir as pernas foi bom“, “quem pariu Mateus que embale” e o homem é totalmente eximido da responsabilidade.

“Quem pariu Mateus que embale
que embale também quem g**** dentro”.
Djonga

A ideia de que a mulher deve ser sempre mais madura, é amplamente usada também para que os homens possam ser eternamente meninos. Se por um lado é exigido que eles sejam fortes e viris para lidarem com as mulheres, por outro, lhes é garantido também que diante de qualquer “problema” eles serão inocentados: “ele é muito novo para ser pai” (mesmo depois dos 30), “ele abusou porque ela provocou” “ele bateu mas todo mundo erra“. Enquanto meninas de 13 anos sexualizadas desde sempre e incentivadas a acreditarem que estão prontas para ter uma vida sexual ativa ”porque já tem corpo” são totalmente responsabilizadas em casos de pedofilia por exemplo: “por que ela não correu? já é grandinha? “também ficava desfilando de shortinho na frente dele, coitado a carne é fraca“.
E no caso de meninas menores ainda, a culpa é sempre da mãe “que deixou a criança sozinha“, lembrando que boa parte dos abusos infantis acontece por pessoas da família.

E finalmente, meninas são levadas a acreditarem que devem aguentar abusos caladas.
Primeiro são erotizadas, seja pelo corpo desenvolvido apesar da pouca idade, a sempre serem gentis diante das investidas masculinas mesmo que não tenham interesse, mas quando demonstram qualquer comportamento que vá contra isso, são taxadas de chatas e arrogantes. No Brasil temos o caso de Maísa, que durante algum tempo foi considerada por muitos chata e mimada por não aceitar a exposição absurda a qual sua emissora a submeteu e por rejeitar que as pessoas exigissem que ela tivesse uma imagem física mais adulta ao 15 anos. Perceba que a menina precisa se apresentar vestida como adulta, mas ter uma opinião contrária a respeito disso é inaceitável. E se ela tivesse assumido um visual mais sensual ela seria hostilizada como Larissa Manoela.

No exterior exemplificando como meninas pré adolescentes se apresentarem vestidas como mulheres tornou-se um pré requisito ainda muito mais preocupante para o showbizz, temos a atriz Millie Bobby Brown, uma das estrelas da série Stranger Things, que apareceu em 2017 com um visual adulto que nada tinha a ver com seus 13 anos, levantando a discussão sobre erotização infantil entre as feministas.

Voltando esse tópico para o abuso sexual propriamente dito, a sociedade condiciona que as grandes massas acreditem que homens são acima de qualquer suspeita enquanto a palavra de uma mulher não vale nada. Mulheres que denunciam violência física e sexual são sempre desacreditadas, porque o homem “não tem cara de quem faz isso“. E se elas se calam “deve ser mentira, por que não falou antes?”

Concluímos assim que de uma forma ou outra a figura feminina calcificada socialmente como o sexo frágil é manipulada para acabar presa à um papel de gênero. Deixando bem claro que falei aqui de uma cadeia social. Estamos lutando para que as mulheres sejam livres para fazer suas próprias escolhas mesmo que sigam esse papel pré definido, mas que possam fazer isso por vontade própria e não porque foram levadas. Os meninos também são vítimas muitas vezes desse sistema machista porque ficam atados a estereótipos, mas de forma geral são a figura induzida a ser opressora e por isso precisam assumir seus privilégios de gênero, questionar e desconstruir seus hábitos machistas.

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Ilustração sobre erotização infantil por Nicole Passos. Para conhecer mais trabalhos dela acesse sua página no facebook:

www.facebook.comnicolepassosillustrations

outras imagens, reprodução da internet.

do Rio de Janeiro, escritora, poeta e feminista interseccional.

Escrevo no meu blog pessoal: Eles pediram bees, no Underclub.blog, além de ser fundadora do coletivo virtual Divulga Mina.

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