O que une as mulheres é a solidão

A primeira vez em que ouvi falar sobre solidão da mulher negra não entendi muito bem como solidão, um conceito tão particular poderia ser um processo social. Aquilo me intrigou. Depois li um texto chamado “Eu sou a gorda do Tinder”, e percebi que o fato de eu não ser considerada atraente como mulher gorda por uma padronização social pré estabelecida, independente do quanto eu seja inteligente, divertida ou tenha uma personalidade interessante, era mais ou menos o que acontecia com mulheres negras por causa de racismo, e as coisas começaram a fazer sentido. Por fim, conversando com algumas mulheres sobre maternidade compulsória percebi que não só a sociedade empurra a maternidade, mas isola mulheres quando elas se tornam mães.

De modo geral a solidão feminina tem uma série de fatores, como abordei em outro texto, mulheres na maioria das vezes só tem valor na sociedade quando estão em um relacionamento, e é incutido nelas que não estar em uma relação amorosa com o sexo oposto é um fracasso, como se isso as tornasse “incapazes”.

No texto anterior falei sobre isso de forma geral, da perspectiva de mulheres mais próximas do padrão que tem poder de escolha sobre maternidade, casamento ou “que podem decidir” ficarem solteiras até concretizarem seus objetivos pessoais. Porém, existem alguns grupos de mulheres onde a solidão se apresenta de forma mais profunda, tirando delas o poder de escolha.

Mais do que ter uma vagina, um útero, usar maquiagem, salto alto, o que faz de nós mulheres é tentar nos reconhecer fortes pertencendo a um gênero que parece massinha na mão da sociedade e sobre o qual ela se sente à vontade para moldelar como quiser, mas o que nós queremos dificilmente é levado em consideração. E para esses grupos de mulheres ter que lidar com opressão dupla além do machismo e às vezes até tripla, torna a afetividade um processo muito mais difícil e doloroso.

Mulheres negras são vistas como objetos sexuais exóticos. A cara de um país que vende uma cultura mulata de bunda grande e sem rosto. Mulheres negras são samba, são “molejo”, são “fogosas”, são “barraqueiras”, mas dificilmente levadas a sério como “dignas de serem amadas” como disse a Stephanie Ribeiro. E os próprios homens negros não as valorizam. Basta ver como é raro um homem negro famoso assumir um relacionamento com uma mulher negra, porque enriquecer ao ponto de ostentar uma mulher branca é status. Existe uma vulnerabilidade que exige muito mais força da mulher negra em lidar com isso e que faz ela carregar muito mais peso em relação à raça, não só por enfrentar o racismo institucionalizado acompanhado do machismo apresentado no senso comum como a ideia de que mulheres negras são duas vezes menos capazes do que mulheres brancas por um pensamento retrógrado da herança escravocrata sobre negros serem menos inteligentes, mas por enfrentarem a rejeição já que muitas vezes não são apreciadas nem pelos homens da sua cor.

Mulheres gordas são consideradas nojentas. Elas podem ser “limpas” o quanto forem em relação à sua higiene pessoal, podem ser todas depiladas, suas peles podem ser lisinhas, terem cheiro de rosas, suas vaginas podem ser rosadas (que é um padrão importantíssimo para alguns homens), podem não ser flácidas, ou não terem estrias e celulites aparentes, mas sempre serão consideradas “sujas”, porque pessoas associam gordura corporal a sujeira e relaxo, e se forem flácidas, tiverem uma barriga aparente, por mais que tentem se encaixar em outros aspectos, muito provavelmente ainda assim serão consideradas nojentas. Existe uma piada interna e muito triste que diz que o maior medo do homem no Tinder é que ao conhecer pessoalmente a mulher seja gorda. Mesmo quando uma mulher gorda está em um relacionamento ela se sente constantemente inadequada, temendo perder o parceiro para “uma magra”, algumas sentem que esses homens estão fazendo um favor em se relacionarem com elas, principalmente se eles forem magros, além disso ainda é dificílimo que um homem assuma um relacionamento com uma mulher gorda, porque a socialização masculina foi construída em cima de uma espécie de fetichização. Pelo histórico de rejeição espera-se que ela se esforce o dobro para agradar o homem com quem se relaciona, por isso é esperado que a mulher gorda vá oferecer uma experiência sexual muito mais permissiva, para ser considerada sexy ”apesar de tudo”.

Algumas mulheres tem uma experiência de amor incondicional ao se tornarem mães, mas existem aquelas que não conseguem se encontrar nessa posição, seja por terem sido pressionadas ao engravidarem, por terem engravidado de um estupro, por terem engravidado sem estarem prontas ou mesmo por não se sentirem apoiadas. Cerca de 80% da responsabilidade em ter e criar um filho é lançada sobre a mulher. Quando ela vive com o pai, sempre é mais cobrado da mãe que cuide do bebê, nas entrevistas de emprego quase sempre é perguntado para mãe com quem as crianças ficam, para as mães solo é ainda pior ter que lidar com desgastantes processos judiciais para receberem um direito do bebê que é a pensão alimentícia já que a sociedade de modo geral enxerga isso como um favor ou como “um golpe da mãe”. Além disso, junto com mulheres gordas e negras, às vezes até mais, elas estão no topo da lista de rejeição de homens que buscam um relacionamento, pois são demonizadas como “vagabundas” que não se cuidaram, quando em sua maioria foram abandonadas pelos parceiros e inclusive em alguns casos suas gestações foram resultado de violência.

Por isso, é bastante triste ver como a afetividade feminina e a responsabilidade de ter um relacionamento seja reduzida a competição feminina, onde além da pressão social as mulheres se degladiem entre si sobre quem é mais bonita e atraente para os homens. Que as mulheres se matem para atender padrões de um gênero que na maioria das vezes não enxerga um relacionamento como uma parceria, mas sim como algo onde o outro ser (a mulher) precisa se desdobrar para agradá-lo e mantê-lo por perto. A mulher precisa entrar em contato consigo e entender quais são suas reais vontades e necessidades independente do que seja empurrado para ela como noção de ser bem sucedida ou realizada e a partir disso traçar planos que coloquem o seu bem-estar em primeiro lugar. É papel do feminismo acolher e abraçar as que não tem poder de escolha e acabam contra a vontade enquadradas nos papéis sociais. É preciso entender que por mais que todas nós necessecitemos que o patriarcado seja destruído e estejamos juntas nesse propósito, algumas tem demandas diferentes, por isso o que serve para uma talvez não sirva para a outra e é nesse momento que de fato você se reconhece como feminista, compreendendo e respeitando a jornada da outra.

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leia meu primeiro texto no facebook:

Sobre estar solteira a caminho dos 30 numa sociedade que diz que “ficar pra titia” é o maior fracasso da nossa vida

leia os textos que usei como apoio:

“A mulher negra não é vista como um sujeito para ser amado” entrevista de Stephanie Ribeiro para a revista Claudia

“Eu sou a gorda do Tinder” por Jéssica Balbino

“Solidão da maternidade” por Clara Averbuck

do Rio de Janeiro, escritora, poeta e feminista interseccional.

Escrevo no meu blog pessoal: Eles pediram bees, no Underclub.blog, além de ser fundadora do coletivo virtual Divulga Mina.

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