Mamis et circenses

Mamis et circenses

Quinta-feira. Sete da manhã. O despertador tocou insistentemente desde as 6h, em vão.
Acordo num susto, ouvindo barulhos sutis vindo da sala.
Corro e me deparo com o moleque trepado no baú, encostado à janela, com as mãozinhas nas grades e olhando algo lá em baixo. Num pulo, estou ao lado dele olhando pra baixo, pra ver uma vizinha assustada olhando pra cima, com cara de poucos amigos: essas pilhas caíram aí do seu apartamento? Quase acertaram as meninas aqui…
Não chego a ouvir o fim da frase. Nem pedi desculpas… raciocínio lento ( e cara amassada) de quem acaba de acordar.
Olho pra cara do menino, que me devolve o olhar travesso tão característico.
Você jogou as pilhas?
A-hamm. “Zuguei, mamãe”
Olho pra trás e descubro, pelos rastros deixados, o que aconteceu: ele pegou o banquinho, encostou no rack, pegou o controle remoto, ligou a tv, abriu o controle, pegou as pilhas e as arremessou da janela.
Antes das sete da manhã.
Respiro, falo um “PutaqueopariuuuuuGabriel” e ele: o que isso que você falou pra mim mamãe!? ( frase que ele deu pra usar agora sempre que não entende o que eu falo).
Chamo atenção rapidamente, explico: não pode fazer isso… Não da tempo para maiores sermões, já estamos atrasados pra escola-trabalho.
Quando chego na rua, uma chuva torrencial cai, e eu me enrolo toda pra tirar menino do carro, mochila, bolsa, sombrinha.
Só pode estar de brincadeira esse dia…
Tchau, meu gatinho!
“Não sou seu gatinho mamãe.
Sou Gabriel. E palhaço”.
O menino cismou que é palhaço, desde uma festinha com o tema de circo há mais de mês.
Pouco mais tarde, passando por camelôs no centro do Rio, vejo uma banquinha vendendo cachecóis e lenços. Saí tão apressada de manhã que não estava vestida para o clima que se apresentou: muita chuva, e bastante frio ( frio para os padrões cariocas, se é que me entendem). Pensei em levar um, já que só volto pra casa a noite e estará bem mais frio. Mas, na banca seguinte, estão vendendo conjuntos de moletom infantis. Meu filho, que está naquela fase que a cada seis meses perde todo o guarda roupas, está precisando de conjuntos. Nem dúvida, óbvio, escolhi comprar o moletom.
Afinal, eu aguento o frio o resto do dia, já estou toda gelada e espirrando por causa da chuva da manhã, que diferença faria um cachecol agora?
Claro, ainda deu tempo de postar na rede social a roupinha de futebol que o pequeno vestiu hoje cedo, pra abertura da copa na escolinha. Ficou tão lindo… minutos antes, ele arremessara duas pilhas pela janela, quase causando um acidente, mas posou pra foro com aquele sorriso desconcertante.
E o dia nem acabou ainda. Mal começou, na verdade. São só uma da tarde.
E são tantos acontecimentos num dia que mais parecem ter passado três dias inteiros.
Essas pequenas aventuras vão se sucedendo ao longo dos dias, enquanto eu vou tentando me equilibrar nessa corda bamba da vida. Tem horas que mais parece um circo e lá estou eu, no centro do picadeiro, fazendo arte e entretendo o público.
Ao mesmo tempo vivendo e assistindo a vida acontecer sob a lona colorida.

Feminista, mãe solo, servidora pública, 33 anos, moro em Niterói-RJ.

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