Mulheres e saberes subalternos: por uma episteme feminina.

Há dias que venho escutando que o aborto isso, e que amamentar em publico é aquilo, que devem se dar o respeito, e que é muito mimimi! Enfim, e para encurtar os exemplos, a mulher sempre em discussão por terceiros e alheios as realidades nossas, decidindo e dando opiniões sobre o que devemos fazer ou deixar de fazer, sobre nosso corpo, escolhas e realidades.

Essa discussão não é novidade, na década de 70 a indiana feminista Gayatri Chakravorty Spivak faz uma pergunta trazida no título do livro Pode o Subalterno Falar?  Nele, a autora propõe rediscutir, reanalisar a representação do sujeito do denominado terceiro mundo, dentro da contextualização do discurso ocidental, branco e masculino.

A autora apresenta uma nova maneira de entender o mundo, se autodenominando de estudos pós-coloniais com a responsabilidade de combater a subalternidade. A ideia é levantar a discussão para criação de mecanismos que o subalterno seja ouvido e resista a essa episteme branca criada, articulada e determinista.

Valoriza o feminismo através da reflexão sobre a consciência da mulher subalterna e o homem como dominante em um contexto colonial que exclui e deixa o feminino a margem da sociedade.

As mulheres, enquanto subalternas, não têm história e não podem falar, são deixadas de lado como se não existissem na construção histórica social.

Assim sendo, o subalterno é todo e qualquer sujeito marginalizado e esquecido que pertence “as camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão dos mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante.”

Deste modo, como a senzala, na escravidão, estamos falando de mulheres e suas realidades como condições subalternas, de marginalizadas e esquecidas durante a construção da história da humanidade.

A autora apresenta como exemplo, a história de uma viúva, duplamente impedida de se auto-representar, primeiro por ser mulher e depois por sua condição de viuvez, essa situação é uma situação de marginalidade do subalterno, e que essa situação é muito mais árdua e imposta à mulher.

Visto que, a mulher como subalterna não pode falar e quando tenta fazê-lo não encontra meios legais, nem pessoas dispostas a se fazer ouvir.

Interessante entender a proposta de análise da escritora, quando ela se refere à violência epistêmica, na qual existe uma tática de neutralização do Outro, tanto o subalterno como o colonizado, a ideia é a invisibilidade, expropriando o sujeito de qualquer possibilidade e/ou espaço de representação.

É através do silêncio, e da não representatividade que acontece a não participação da Mulher nas discussões, leis e tudo que está relacionada ao nosso corpo, as nossas realidades, ao universo feminino. Portanto, é uma construção epistêmica branca, masculina e européia do título de válido e bom, que seguimos dentro de nossas universidades, escolas e instituições judiciais.

Essa construção de silenciamento feminino é muito mais profundo do que se possa perceber em um primeiro momento, está enraizado nessa violência epistêmica que Spivak cita.

É na construção do pensamento que a inferioridade se constrói, na formação de sujeitos que acreditam que já existe e o que foi pensando está bem, porque houve justiça e igualdade, na qual todos opinaram e refletiram sobre direitos, teorias e construções de conhecimento impostas a nós.

Infelizmente, não é assim que aconteceu a construção do conhecimento e, portanto da organização social: alguns decidem e a maioria obedece, e pior, acreditam que o grupo que decide tem “conhecimento” suficiente para tal.

É dessa construção episteme que devemos discutir: educadores, pesquisadores, mulheres e todos que já não estão satisfeitos com uma organização europeizada das coisas, mas principalmente das falas, nossas falas, nossos corpos nossos mundos.

É importante entender essa construção, para começar a deconstrução e, portanto uma nova maneira de estar e ser no mundo. Resistir a imposição, mas também propor a escuta, saberes e modos subalternos de viver o mundo.

Sendo assim e para concluir, não nos ouvem e ainda nos criticam quando tentamos dizer algo porque somos subalternas, somos esquecidas na construção da humanidade. E essa situação se agrava quando o próprio conhecimento não insere quem nunca foi inserido.

De que vale então, uma episteme regionalizada, que não abre para TODOS que habitam esse mundo?

 

Para quem se interessar:

FIGUEIREDO, C. V. Estudos Subalternos: uma  introdução. Raído, Dourados, v.4, n.7, p.83-92, jan./jun. 2010. Disponível em: http://www.periodicos.ufgd.edu.br/index.php/Raido/article/viewFile/619/522. Acesso em: 17 mar. 2014.

FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1999.

MIGNOLO, W. D. Histórias locais/projetos globais: Colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Tradução de Solange Ribeiro de Oliveira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

MOREIRAS, A. A exaustão da diferença: a política dos estudos culturais latino-americanos. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001.

SPIVACK, G. C. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: UGMG, 2010.

 

Maria Luisa Jimenez Jimenez
Filósofa, feminista, ativista gorda, palhaça, professora, doutoranda e
pesquisadora FAPEMAT
Estudos Interdisciplinares de Cultura Contemporânea 
Faculdade de Comunicação e Artes – UFMT.
Whatszaap 65 99301.8851

 

Deixe uma resposta