Sobre relacionamentos, sapatinho de cristal e anel de brilhantes antes dos 30

Quase 30 de idade, muita coisa mudou. Algumas, nem tanto! A pressão social pelo casamento, pela felicidade e a pressão de formar a foto e a pose de família feliz. Tudo começa com o tal do relacionamento. E nem precisa ser 12 de junho para nos sentirmos cobradas com relação ao casamento que “não sai”. É um tal de “já tá namorando?”, e quando está namorando “quando sai o casório?”. A inquisição também não acaba depois do casamento. Casou? “E o filhote vem quando”. Teve filho “E aí, não vai dar um irmãozinho para ele?”. Às vezes não precisamos nem casar, a cobrança da gravidez vem junto com a nossa idade “Olha, você está ficando para titia…” ou “mulher tem tempo de validade”.

Essas e outras perguntas, acompanhadas de sentidos culturais, marcados pela concepção de que para ser feliz a mulher precisa casar, ter casa, esposo e um casal de filhos, ainda que também muito belas, reproduzem a história dos contos de fadas e aniquilam outras possibilidades de sonhos e sentidos de felicidade, fortalecidas pela mídia (vide foto que acompanha este post).
Nesses e em outros momento, dá uma vontade de sentar e problematizar: Já parou para pensar sobre a incerteza do nosso futuro enquanto mulher, olhar para o lado e ver que não há no mundo esperança, que apague as lembranças de criança de um mundo que se perpetua desigual?!

Marca na lembrança o comportamento de nossos pais, nas ações de desleixo com a casa, que tanto preocuparam e preocupam nossas mães. Vivenciando tudo isso, também percebemos que os homens quase que possuem um talento inato, fortalecido pela cultura patriarcal, de que a mulher tem que cozinhar, servir, estar linda e não ficar chateada se olha com ranço para uma roupa no chão em sua própria casa, abaixando-se mais uma vez para guardar. É só uma vez. Hoje. Desta roupa. Neste lugar.

Muito se fala que as coisas mudaram, que mulher hoje pode ser feliz sozinha – basta ter um corpo e uma vida legal. Ai você fica na curvatura da vara, lembrando das histórias lindas e no encanto do sapatinho de cristal.

Como princesas dos contos de fadas, nos esquecer dos problemas sociais, mergulhar naquela elaboração do casamento de arromba, que tanto engordam o terreno dos senhores feudais. Cada qual com seu rico emblema, para nós basta uma boa coluna, dizendo que é coisa normal, estar em dúvida se mantém a cultura machista, se fortalece o sistema ou se prova que é feliz, postando uma foto de viagem sozinha no Taj Mahal.

Mas a notícia da capa de jornal, ainda vende a felicidade tradicional. A angústia e a tristeza vivem em luta na arena interna, tensionando com a escolha por morar só ou em casal.

A vida de morar sozinha tem implicações na vida de quem escolhe namorar com alguém. Parece que são dois mundos completamente diferentes que habitamos. Quando sozinhas somos nós por nós mesmas. O doce é todo para nós, o arroz que fizemos dá para a semana inteira, a carne a gente raciona e a salada nem precisa ser temperada e vai do tamanho que tiver, morando sozinha até a poeira do chão aparece menos. O supermercado é mais barato, a feira às vezes nem precisamos fazer, nos contentamos com um biscoito velho no armário, com uma boa taça de vinho. O fubá ou a pipoca, tem dias que nem ligamos se já está com bichinho.

Já dividindo casa, parece que o quentinho da orelha do companheiro não consegue ser melhor do que a preocupação com a resistência que pifa ou a conta de luz que vai vir mais alta porque tem alguém que demora muito no chuveiro quente ou que faz questão do ar condicionado, do ventilador, do computador dormindo ligado ou na tomada para baixar uma série ou filme – que nem sempre é assistido.

Outra coisa que percebemos quando moramos sozinhos é que as louças sujam mais e as nossas mãos são sempre poucas para conciliar com tantas atividades de trabalho em curso. Mas é claro, temos mais duas mãos para lavar. Porém é preciso pedir e, com carinho para não chatear o companheiro que só tem esse tipo de atividade em sua casa. E se não acha legal pedir (assim como eu também), logo você se rende, direcionando a outrem.

E é necessário apelar para aquele tom ditador, chamando de meu amor: “Lava o banheiro para mim? Podes lavar a panela? Não esqueça do prato, também o garfo, a caneca em que bebeu. Se der, também encher a garrafa de água que acabou, também o filtro, que com mais gente na casa, secou”.

Passar uma vassoura, um pano, um mob ou aspirar está longe de qualquer solicitação, parece uma audácia para quem trabalhou fora o dia todo e veio apenas em consideração. Opa, e aí você pensa, consideração a quem? Talvez seja só minha implicância, morando sozinha e resistente a visita. E você pensa, cá com seus botões, mas que visita esquisita! Dobra, lava, passa, e ainda guarda a escova de dente, a sua não, a da visita, que quase mais parece parente!

E se a resistência do chuveiro não aguenta, quem dirá a nossa. Mulheres recém chegadas no mercado de trabalho, que apostam na vida de literata e vende a preços bem razoáveis a sua força de trabalho, com força e tamanho de uma barata! Também não se pode esquecer das unhas, nem da depilação, no mundo que a gente vive, ser linda e feliz é missão. Se consegues conciliar tudo, você é a moça que reina, só não pode esquecer, só tem coroa quem treina!

A quem diga, que literatura das princesas não tem efeito moral. Se ainda pensa assim, abre a página de algum livro, revista ou jornal, verá o patriarcado solto, autor de qualquer ideal. A questão não é determinar um comportamento, mas de indagar e problematizar,  a falta de discernimento!

Deve ser por isso que o dia dos namorados incomoda tanto, vê-se mais uma vez a lógica comercial. Tem que ter foto em restaurante bonito, com vela na mesa e pose real. Para você se sentir no reinado, também tem que ter declaração no mundo virtual. Que triste pensar, que o amor foi coagido ao capital. E que mesmo nossas amigas, utilizam disso para efeito moral.

Se não sai da cabeça, as lembranças do passado, é porque quando pequena via tudo isso acontecer, dentro do seu reinado. Protagonizando a relação e divisão (?) de tarefas com sua mãe está o seu pai. Também lembra-se do presente, nas visitas esporádicas à casa dos pais, as reclamações da sua mãe são as mesmas de vinte anos atrás, só que com o agravante de que agora já é cultural , se recém casados ou mais novos isso já era um problema, depois de velho, já se tornou normal.

Quando não chamada de chata e louca, a mulher desiste de pontuar os problemas, guarda para si a angústia da sobrecarga de trabalho e descaso do companheiro, pendura as tristezas dentro do peito como roupa no varal. Se com seus irmãos e primos, é do mesmo jeito (ou pior!) pensa na perspectiva de seu futuro, na carreira profissional. Sem ponto de apoio, lembra-se você vive na cultura patriarcal! Talvez ninguém reconheça e até digam que é vitimismo, para você isso tem nome: é abismo social!

Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal do Espírito Santo (2013). Mestra e doutoranda em Educação pelo Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal do Espírito Santo (2015). Realiza pesquisas na área de Educação, com ênfase em Trabalho Docente, Formação de Professores e Educação Infantil. Atualmente mora em Vitória-ES.

Deixe uma resposta