Você deve conhecer a música composta por Rita Lee que se tornou famosa na voz da própria ao lado de Zélia Duncan e também com a versão de Maria Rita. Mas você sabe quem foi Pagu? Um dos maiores nomes do Movimento Modernista no Brasil, ela causou uma revolução na sociedade de sua época e entrou para a história como um ícone de uma geração de mulheres à frente do tempo.

Por que Pagu?

Nascida Patrícia Rehder Galvão, segundo seu biógrafo Augusto de Campos, certa vez ela mostrou alguns poemas seus para o também poeta Raul Bopp que sugeriu que ela criasse um pseudônimo usando as primeiras sílabas de seu nome e sobrenome, já que ele se confundiu achando que ela se chamava Patrícia Goulart. Mais tarde, ele escreveu um poema para ela intitulado “O coco de Pagu” e o apelido pegou.

A burguesa desgarrada

Filha de uma família tradicional paulista, ela foi uma jovem rebelde. Começou a escrever cedo e aos 15 anos já colaborava com o Brás Jornal sob o pseudônimo de Patsy. Aos 18, formou-se como professora e aproximou-se do círculo de intelectuais burgueses paulistanos adeptos do movimento antropofágico. Sua proximidade maior foi com o casal de artistas Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral.

Pagu tinha um comportamento não convencional para a época: fumava, falava palavrões, usava roupas extravagantes e dois anos após conhecer Oswald chocou a todos ao se casar com ele aos 20 anos já grávida de seu primeiro filho Rudá.
Três meses após dar à luz ela viajou para Buenos Aires onde participou de um festival de poesia. Lá conheceu o político Luis Carlos Prestes, uma das figuras mais emblemáticas da história e se alinhou com os ideais comunistas. Ao retornar filiou-se ao PCB (Partido Comunista Brasileiro) onde de fato iniciou sua militância política.

Carreira

Em 1931, Pagu e Oswald fundaram o jornal “O Homem do Povo” para apoiar a esquerda revolucionária. Enquanto ela criticava as feministas de elite e os valores das mulheres da alta sociedade, ele publicou ataques diretos à Faculdade de Direito do Largo de São Francisco referentes à censura na época, e foi rechaçado pelos estudantes. Fato que levou o Secretário de Segurança do Estado a fechar o jornal.

Pagu publicou seu primeiro romance em 1933, intitulado “Parque Industrial”, sob o pseudônimo de Mara Lobo, uma exigência do Partido Comunista. A obra é um marco da literatura pois lança um novo olhar sobre a vida das operárias da cidade de São Paulo, um grupo invisibilizado socialmente, e é considerado o primeiro romance proletário.

Também foi correspondente de vários jornais, visitou os Estados Unidos, o Japão e a China. Teve a oportunidade de entrevistar o pai da psicanálise Sigmund Freud e assistir a coroação de Pu-Yi, o último imperador chinês e através dele conseguiu sementes de soja que foram enviadas ao Brasil e introduzidas na econômia agrícola.

Trabalhou nos jornais “A plateia”, “A manhã”, “A noite”, ” O diário de São Paulo” e o ” O jornal”, sendo no “A tribuna”, crítica literária, teatral e de televisão. Liderou a campanha para a construção do Teatro Municipal, e fundou a Associação dos Jornalistas Profissionais e a União do Teatro Amador de Santos.

Também se aventurou pelo suspense, escrevendo contos policiais sob o pseudônimo de  King Shelter para a revista “Detetive”, dirigida pelo dramaturgo Nelson Rodrigues.

Como desenhista e ilustradora participou da “Revista de Antropofagia” publicando seus croquis.

Além da canção com seu nome, Pagu foi assunto de vários trabalhos acadêmicos, teve sua história contada através do filme Eternamente Pagu de 1987, foi tema de dois documentários: Patrícia Galvão – livre na imaginação no espaço e no tempo de 1988 e Eh, Pagu!, Eh!, além de aparecer como personagem no filme O Homem do Pau Brasil e na minissérie Um só coração de 2004.

Seu último texto foi publicado pouco antes de seu falecimento em “A Tribuna”, o poema intitulado Nothing.

Primeira presa política do Brasil

Em 1931 ela participou da Greve dos Estivadores em Santos e foi presa pela primeira vez como militante comunista. Ao ser libertada o partido a fez assinar um documento em que assumia a culpa pelo ato como “agitadora individual sensacionalista e inexperiente”.

Em solo francês filiada ao PC, onde permaneceu durante um período fazendo cursos na Sorbonne em Paris foi presa novamente como militante comunista em 1935 e quase foi deportada para a Alemanha nazista, não fosse a intervenção do embaixador brasileiro Souza Dantas.

De volta ao Brasil foi presa pela terceira vez durante a Revolta Comunista de 1935, sendo acrescido 5 anos e seis meses à sua pena por se recusar a prestar homenagem à Adhemar de Barros, um dos maiores nomes da intervenção federal, quando ele visitou o presídio onde ela estava. Durante todo esse período ela foi vítima de tortura, até ser liberada em 1940, rompendo com o PC por ter sido alvo de perseguição.

Vida pessoal

Além de Oswald de Andrade, foi casada com Geraldo Galvão com quem teve seu segundo filho Geraldo Galvão Ferraz.

Tentou suicídio pelo menos duas vezes: a primeira ao ser libertada da prisão, pois estava em um estado profundo de depressão, pesando cerca de 44 quilos, e após quando voltou à Paris em 1962 para ser operada de um câncer, e ficou desiludida pois a cirurgia não obteve êxito.

Sobreviveu até dezembro daquele ano quando finalmente faleceu por complicações da doença.

Musa trágica da revolução

Carlos Drummond de Andrade descreveu perfeitamente a mulher que pode ser considerada o símbolo de um período intenso político e culturalmente. Pagu abriu caminho para grandes escritoras e poetas encontrando forças para continar uma artista prolífica mesmo após sua primeira tentativa de suicídio. Era uma visionária que deu a sociedade brasileira em plena época de repressão uma amostra da força feminina enquanto mãe, mulher e revolucionária.

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imagem: Grafite criado por artistas da cidade de São João da Boa Vista, cidade onde Pagu nasceu

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visite o site oficial:

www.pagu.com.br

outras fontes:

infoescola

ebiografia

uma análise da música:

Recanto das Letras

relembre a música:

Pagu por Rita Lee e Zélia Duncan

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