Mulheres Gordas numa sociedade lipofóbica, merecem a sororidade de todas, todos e todes.

O que é ser gorda numa sociedade lipofóbica? Já se perguntou isso? Já parou para pensar, o que é viver num corpo social que prega a magreza como felicidade, para uma mulher que não se encaixa nesse corpo endeusado no mundo contemporâneo? Se não, deveria, essa ação é a tal palavrinha mágica que está na moda nas redes sociais, a tal SORORIDADE.

Comecemos nossa reflexão entendendo o que significa uma sociedade lipofóbica. O sociólogo francês Claude Fischler, pesquisador interdisciplinar sobre alimentação e nutrição, criou esse termo para descrever nossa preocupação absurda com a magreza. Pensando na padronização do corpo feminino, pode-se observar nos dias atuais, que compramos um corpo magro e malhado, no qual deve estar de acordo com todos os acessórios que combinam com este estereótipo, bíceps, tríceps, glúteos malhados, seios firmes, pele esticada, observe ao seu redor, já é naturalizada essa busca.

Parece existir apenas um tipo de corpo viável na sociedade contemporânea: o corpo magro. Vivemos em uma época de lipofobia como denominou Fischler em seu artigo: Obeso benigno, obeso maligno, em 1985, que está diretamente ligada a uma “obsessão pela magreza, sua rejeição quase maníaca pela obesidade.”

Na valorização da magreza acaba-se levando a gordura a um símbolo de falência moral, e, portanto a gorda, mais do que apresentar um peso socialmente inadequado, passa a ser percebida por meio de uma imagem negativa: preguiçosa, suja, folgada, mentirosa, feia, etc.

Sororidade é um substantivo que veio na contramão da ideia de que mulheres são sempre rivais e competem entre si, disputam a qualquer custo a atenção dos homens, o melhor posto de trabalho, o título de mais linda na escola.

Esse conceito apareceu nas pautas feministas para levantar o debate sobre esses comportamentos, muitas vezes repetidos sem a menor ideia do que estamos fazendo ou propagando: a desunião entre nós mesmas.

Ao contrário dessa ideia de desmobilização e desunião entre o sexo feminino e, totalmente contrário ao que vemos no sexo oposto de cumplicidade ferrenha, aparece o termo sororidade como mudança de atitude.

Já era hora de uma reflexão profunda sobre a falta de união implantada pelo patriarcado entre mulheres, esse conceito representa um novo paradigma entre as manas: a união entre nós em várias dimensões da vida e esse posicionamento pode fazer entender que não somos rivais, nem concorrentes, pelo contrário SOMOS MANAS, AMIGAS E CUMPLICES.

Essa união é uma questão de sobrevivência estratégica, já que unidas jamais seremos vencidas, se comover e ajudar a outra que precisa de ajuda significa feminismo e, portanto sororidade.

Inclusive, poderia dizer aqui que sororidade é sinônimo de feminismo, já que a ideia é uma convivência de carinho e amor entre as pessoas, o apoio feminista é fundamental entre o sexo feminino nesse momento histórico em que os movimentos feministas saem às ruas no mundo todo pedindo igualdade.

Interessante observar que essa palavra ainda não está no dicionário da nossa língua, o que nos faz entender o quão grande é o poder patriarcal na ideologia lingüística em nosso país, talvez argumentem que não existe identificação real desse comportamento, a sororidade entre as mulheres.

Acredito que exista sim, cada dia avançamos mais nesse quesito, parece que as novas gerações entenderam que a união faz a força, vejo isso em meu cotidiano, mas também vejo muita mulher sequer tentando entender o que passa com uma mana gorda numa sociedade obcecada pela magreza, sinto na pele, nas entranhas e isso é triste demais.

É como se a magra ou a que conseguiu aquele corpo que possui com muito esforço, ou não, tenha o direito a repudiar aquela que está tentando aceitar seu corpo como ele é: GORDO. Claro que não são todas, mas são muitas.

Muitas que não conseguem ainda praticar a sororidade. Veja, não critico a busca por um corpo magro, padrão, tento praticar a sororidade com elas, cada uma está num processo e escolhe o que quiser para sua vida, mas enalteço ainda a mana que como eu, não quer se adaptar e sofre todos os dias por essa escolha.

Por isso esse texto, Mulheres! Coloquem-se no lugar daquelas que resistem, pratiquem a sororidade com quem sofre preconceitos, estigmas e falta de acesso ao que é comum a todos. É uma questão de igualdade!!!

Existe, portanto uma necessidade urgente que os movimentos feministas coloquem a questão da gordofobia em pauta, em voga. Precisamos apoiar as mulheres, mas precisamos mais ainda, apoiar aquelas que além de mulheres são negras, gordas, gays, pobres, etc. Também é uma questão de igualdade, sororidade, de fraternidade e, consequentemente FEMINISTA.

 


Maria Luisa Jimenez Jimenez
Filósofa, feminista, gorda, palhaça, professora e pesquisadora doutoranda em Estudos de Cultura Contemporânea – UFMT: O lugar social do corpo gordo feminino no mundo contemporâneo.

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