Nos Estados Unidos, um maluco ocupando o cargo democrático mais importante do país de maior influência global. Como consequência, uma crise humanitária semelhante aos horrores do nazifascismo da Segunda Guerra: mais de 2 mil crianças -negras e latinas- afastadas forçosamente de seus responsáveis, encarceradas, e, principalmente, sujeitos a um trauma provavelmente irreparável a suas mentes na idade adulta, o da incerteza constante, o do abandono em um país de língua desconhecida.

No Brasil, uma menina de doze anos encontrada morta dias depois de sair para patinar em uma tarde ensolarada. Em seguida, o assassinato indignante, cruel e belicoso de um garoto de 14 anos, o qual tentava chegar à escola, vestia uniforme, mas ainda assim não foi poupado pela violência bestial das forças policiais que realizavam operação na Maré – comunidade que parece colecionar tragicamente filhos perdidos, vide a figura de Marielle. A partir da tragédia, uma mãe revoltada, mantendo viva a história de sua filho e evidenciando a necessidade de justiça, seja na condenação dos policiais envolvidos, seja na reestruturação de toda uma sociedade, para que deixe de criminalizar a pobreza. Por fim, antes do término da mesma semana, o fortalecimento da campanha #BrasilContraOAborto nas mídias sociais: pois não bastam as agressões cotidianas, as centenas de feminicídios a cada dia, a mulher violada a cada 11 minutos em um estupro, a dupla jornada e a desigualdade salarial…. Nosso país e seus “cidadãos de bem” fazem questão de reforçar que mulheres permanecem restritas a um papel secundário. Autonomia sobre o próprio corpo? Por enquanto, apenas em uma realidade paralela em que prevaleça a máxima de igualdade entre indivíduos, já que aqui o que se faz valer é somente o anacronismo de crenças religiosas e do conservadorismo direitista.

Na Rússia, uma população feminina cotidianamente marcada pelo flagelo da violência doméstica, já que maridos têm permissão legal para agredirem as esposas uma vez ao ano. Agora também, uma vitrine televisionada das práticas machistas de todos os cantos da Rússia. A febre futebolística uniu em um mesmo território os famosos “cidadãos de bem” brasileiros; racistas e assediadores no episódio com a repórter russa, e, na sequência, estrategicamente infantilizados para não sofrerem punições por suas atitudes; argentinos também desrespeitosos e, obviamente, o patriarcado local, que neste domingo explanou seus valores  com a figura objetificadora de um rapaz que invadiu gravação de jornalista da Globo, beijando-a sem consentimento.

No entanto, concomitante a esses episódios, começou a se formar no horizonte das conquistas sociais uma nova constelação, composta, até agora, por Irlanda e Argentina: a de nações católicas que finalmente deram chance ao debate sobre legalização do aborto. Na primeira, a proposta venceu plebiscito, devendo ser transformada em medida pública. Na segunda, foi vitoriosa na Câmara de Deputados- conquista símbolo da força feminista nacional que criou a campanha #AbortoSeraLey e organizou manifestações massivas -.No momento, espera aprovação no Senado.

O que dizer depois dessa análise prolongada dos fatos sociais das últimas semanas? A partir dela, de imediato apenas concluo que não escrevia há muito tempo não somente por ausência de ideias, mas também pela complexidade de descrever o atual momento, de escolher uma temática em meio às dicotomia “avanços x manutenção do machismo” que define as causas feministas contemporâneas. Já por meio de olhar mais aguçado, sou levada a perceber que não, não há ainda neste planeta um país em que possamos nos espelhar para a construção de uma sociedade igualitária no quesito de gênero e de senso de humanidade. Os gigantes econômicos e sua insensibilidade para essas temáticas exemplificam isso. No entanto, para além disso, sou levada em uma segunda direção, a que prova que o panorama sociológico brasileiro segue único. Sofremos regressão política há anos e hoje ainda parece impossível conquistar aquilo que vizinhos de raízes culturais semelhantes já conseguiram. O coletivo se orgulha de permanecer no atraso. As vítimas da clandestinidade de abortos são celebradas como prova da preferência nacional pela condenação de um suposto infanticídio.

 

Quando a imersão nessa linha de acontecimentos é terminada, recordo-me de uma entrevista de Leandro Karnal, na qual o historiador refletirá sobre a corrupção e a realidade brasileira. “Sou um otimista nostálgico”, disse ele. Aplicada à realidade do feminismo brasileiro atual, a frase adquire caráter definidor, um adjetivo que caracteriza sem exageros, com a cautela que o contexto exige.

Neste momento em que 62% dos jovens deseja deixar o país e que este parece congelado no tempo, enquanto outros emergentes se libertam gradativamente das heranças retardadoras, a nós “bruxas, mal-amadas, assassinas, abortistas” cabe sentir saudade dos nós em que a República era liderada por uma mulher e no qual a primavera feminista latino americana parecia estar florescendo. E, como contrapeso, cabe conjuntamente seguir almejando uma nação feminista, que respeite a mulher que anda na rua desacompanhada, à noite e com a roupa que bem deseja, aquela que não quer ser mãe, a que é mãe e quer seu filho seguro no trajeto à escola e aquela que escolhe maternar sem abrir mão do trabalho. Há uma colmeia de operárias despertas ao redor do globo. Manas brasileiras, a luta continua. Nosso favo de mel será ver o senado aprovando a legalização do aborto. Vai acontecer, mas temos que tomar as ruas para isso. E, quando ocorrer, o Brasil terá finalmente se tornado o terceiro pontinho na constelação, vizinho da Argentina em mais um aspecto que não o geográfico.

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