Porque as feministas são chamadas de bruxas

A Igreja Católica sempre se utilizou da mitificação de figuras diabólicas como forma de manutenção do seu poder sobre o povo menos instruído. É claro que outras denominações religiosas também se apropriaram disso para fazerem rios de dinheiro em cima do convencimento da população de que o “Diabo” é o grande responsável por todos os males do mundo: guerras, doenças, desastres naturais e etc. Infelizmente até hoje, em pleno século XXI, é bem comum ouvirmos discursos inflamados em igrejas sobre a atuação do “inimigo” na vida das pessoas como forma de encobrir a responsabilidade das próprias sobre os seus atos e instaurar o controle através do medo. Porém, quando se fala de patriarcado a Igreja Católica de fato foi uma das, senão a principal instituição responsável pela demonização da mulher na sociedade.

Desde a submissão bíblica ela tentou encontrar formas de fortalecer a crença na “periculosidade feminina”, onde teoricamente todas as mulheres são herdeiras da maldição de Eva que abriu caminho para o pecado na Terra ao comer a maçã proibida.

Durante toda a História grupos de mulheres em diferentes culturas dominaram técnicas medicinais utilizando ervas, além de cultuarem a deusa Mãe em rituais através de uma ligação forte com a natureza. Algumas dessas mulheres ficaram conhecidas como parteiras ou curandeiras de suas regiões. Principalmente aquelas onde a medicina tradicional não chegava, exemplo: tribos e povoados distantes.

Porém, pouquíssimas delas de fato seguiam cultos satanistas ou eram adeptas de rituais pagãos satânicos, mas a Igreja viu nisso uma excelente oportunidade de mais uma vez provocar a população para que perseguissem as mulheres. Dessa forma, ela se fortaleceria cada vez mais como principal canal da “fé” e ainda combateria um possível levante de mulheres adeptas da medicina natural que pudessem competir com os médicos tradicionais que também eram membros da Igreja e por vezes homens de prestígio social.

Assim, a histeria tomou conta da população onde toda e qualquer mulher “fora do padrão”, que se vestisse de maneira diferente, que fosse adepta do uso de ervas, ou de alguma maneira fugisse ao papel social de submissão feminina, foi chamada de bruxa e acusada de fazer parte de uma sociedade secreta onde essas mulheres “se uniriam para instaurar o caos na Terra invocando forças demoníacas e fazendo rituais”, quando muitas vezes as reuniões eram para trocar receitas sobre os remédios e produtos naturais, e uma roda de conversa sobre o que estivesse acontecendo na época.

Homens também foram acusados de bruxaria com a disseminação da Alquimia, uma ciência mística que se fortaleceu na Idade Média. Ela tinha como foco por exemplo, a transmutação de metais preciosos como ouro em chumbo, mas também dizia respeito aos processos de purificação física do organismo e busca por maior qualidade de vida através do fortalecimento da espiritualidade. Diz-se que a Alquimia é um dos pilares da prática de yoga. Os adeptos eram os magos, retratados por histórias fantasiosas como bruxos poderosos e os processos químicos com os metais como feitiçaria.

Porém, as mulheres foram as principais vítimas de execução durante a Inquisição, assim como crianças que eram consideradas herdeiras das suas ancestrais. A perseguição durou mais ou menos 300 anos e estima-se que oficialmente cerca de 50 mil pessoas tenham sido mortas acusadas de bruxaria, fora as humilhadas publicamente e torturadas. A maioria das pessoas pensa que ficou restrita à Idade Média, mas estendeu-se até o início da Idade Moderna.

O primeiro grande julgamento coletivo aconteceu por volta de 1428 e provavelmente a última execução legal tenha acontecido em 1793.

O símbolo da Caça às Bruxas tornou-se a fogueira, onde os julgados eram queimados vivos em praça pública num grande espetáculo popular onde as pessoas se reuniam para assistir.

O caso mais famoso ocorreu na cidade de Salem onde moradoras da cidade alegaram terem sido “enfeitaçadas” e 150 pessoas foram presas acusadas de bruxaria, 19 executadas atráves de um tribunal especial. Até hoje “as bruxas de Salem são os maiores mitos da história”, tendo sido personagens em vários filmes.

A execução com aval judicial se estabeleceu através da publicação do livro “O martelo das bruxas”  escrito por Heinrich Kramer e James Sprenger, que durante dois séculos foi utilizado como manual para reconhecer e executar bruxas. Por ser aceito por católicos e por protestantes, o livro passou a possuir valor não só religioso como legal.

Uma das mulheres mais famosas da História considerada bruxa foi Joana D’Arc que liderou a luta contra a ocupação inglesa em 1429 na Guerra dos Cem Anos. Ela foi julgada e condenada à morte na fogueira em 1431, pois ouvia vozes que segundo ela lhe diziam que ela havia sido designada por Deus para libertar a França, e inocentada e beatificada por volta de 1909, tornando-se uma das mais importantes santas da Igreja Católica.

As bruxas modernas

Hoje muitas feministas são adeptas do Sagrado Feminino uma filosofia ancestral que busca honrar a sabedoria passada de geração em geração sobre a conexão com os ciclos lunares e o respeito pela sexualidade feminina.

Porém, de forma geral o patriarcado continua fazendo a manutenção da demonização feminina. As bruxas ficaram marcadas no senso comum como feias, mal cuidadas e sem caráter. Sendo assim, o termo cunhou-se como ofensivo. Os grupos antifeministas se organizam em atacarem a aparência das feministas pintando-as para a sociedade como mulheres que pregam a falta de higiene pessoal e a “feiúra”. E “as bonitas” como sedutoras frívolas de homens.

Além disso, houve uma espécie de modernização do conceito, mas de certa forma as feministas são as bruxas do século XXI, onde as tentativas de debate sobre aborto e empoderamento feminino são vistas como formas de destruir a família e a sociedade.

O patriarcado continua se unindo em torno de massificar a ideia de que as mulheres que fogem às regras de conduta de um papel de gênero, são de certa forma bruxas, e a fogueira é o assédio, o femínicido, o estupro, e a marginalização afetiva através da solidão da mulher feminista promovida pela dificuldade em estabelecer relações em que ela não cumpra um papel de submissão. Porém, para o feminismo elas continuam sendo um símbolo de resistência e de certa forma nós somos suas herdeiras sim.

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Textos de apoio:

Quem eram as bruxas?

Eram as bruxas feministas?

O que as bruxas tem a nos dizer sobre as mulheres poderosas

do Rio de Janeiro, escritora, poeta e feminista interseccional.

Escrevo no meu blog pessoal: Eles pediram bees, no Underclub.blog, além de ser fundadora do coletivo virtual Divulga Mina.

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