O curta francês “Je Suis Ordinaire”, de Chloé Fontaine, que assina roteiro e protagoniza o filme, (assista no link https://www.youtube.com/watch?v=9sgSl_foYkM ) mostra, em dois minutos, uma cena cotidiana, de um casal (heterossexual).
Eles estão deitados na cama conversando e escolhendo um filme para assistir. O rapaz então começa a beijar a mulher, que diz não estar a fim de sexo. Ele insiste e ela volta a dizer que não quer. Eles se olham e ele a questiona: “que foi, você não me ama?”. Ela volta a dizer que não quer, que está cansada. Ele avança novamente, deitando-se por cima dela e ela, enfim, “cede”.


O nome do filme (que em português, seria algo como “Eu sou comum”) muito acertadamente define essa violência tão comum, e tão pouco falada: o estupro conjugal.
Estupro é uma palavra que carrega um peso social muito grande, um tabu e, no imaginário coletivo, é um crime praticado por monstros ou pedófilos, desconhecidos que atacam suas vítimas em ruas e becos escuros e pouco movimentados.
A realidade, porém, não poderia ser mais diferente disso. A maioria dos estupros e abusos sexuais ocorrem no âmbito doméstico, majoritariamente praticados por conhecidos da vítima: pais, tios, avós, irmãos, padrastos, amigos, namorados, maridos, companheiros e ex-companheiros. O maior perigo está dentro de casa e mora no homem comum.
Há pouco tempo, o estupro conjugal nem era visto como violência. Historicamente, fomos socializados em uma cultura onde homens são estimulados a se expressar verbal e fisicamente de forma violenta, a serem viris, a viverem sua sexualidade desde muito cedo de forma intensa. Aprendemos que homens são insaciáveis sexualmente, e que não são capazes de se controlar.


Já as mulheres aprendem que sua sexualidade é uma espécie de prêmio, recompensa a um homem dito especial. Na verdade, somos objetificadas desde muito cedo, criadas acreditando que nossa sexualidade só tem valor quando serve ao homem. De fato, até pouco tempo atrás, a mulher era considerada propriedade do homem – primeiro de seu pai, ou irmãos e depois de seu marido. Essa ideia de posse ainda é muito presente e se confirma nos números absurdos de feminicídio e violências de todos os tipos contra mulheres.
Em um relacionamento (heterossexual) temos de um lado, um homem que busca sua satisfação sexual independentemente da vontade ou desejo de sua parceira e que, como é incapaz de se controlar, como popularmente é dito, “se não consegue o que quer em casa, vai procurar fora dela”; de outro lado, uma mulher que acredita que deve sexo ao companheiro, que é sua obrigação conjugal e que aprendeu desde muito cedo que num relacionamento, ela troca sexo por segurança emocional e financeira.
Fato é que esse tipo de violência vem sendo normalizado há muito tempo e só recentemente, movimentos feministas contemporâneos têm promovido campanhas mundo afora para lutar contra assédio sexual, violência doméstica e de gênero, lançando luz sobre uma discussão essencial sobre consentimento.
A importância do consentimento para as interações humanas vêm sendo amplamente discutidos em todo o mundo. Na Suécia, recentemente, alterou-se a lei sobre crimes sexuais, estabelecendo que qualquer ato em que não haja consentimento explícito de todas partes envolvidas será considerado estupro. A nova redação da lei vem sofrendo críticas, por não se saber como será posta em prática, mas sua aprovação tem um caráter fundamentalmente educativo e é um passo importante, visto que a Suécia é um dos países onde há maior igualdade entre os gêneros mas, ainda assim, apresenta números muito elevados de violência sexual e doméstica contra mulheres – o chamado paradoxo nórdico.
Por outro lado, na maioria dos países, que ainda apresentam grande desigualdade entre homens e mulheres, parte dos juristas não julgam ser possível a existência do crime de estupro dentro do casamento (ou, analogamente, dentro de qualquer relacionamento amoroso) pois acreditam que o sexo é obrigação conjugal e que seria necessário um “justo motivo” para a mulher se recusar a satisfazer o parceiro.
Um crime silenciado, desacreditado e invisível. Mais ou menos sutil, com maior ou menor uso de força física, a violência está ali, presente e, ainda que passe despercebida, suas consequências serão sentidas. Os homens não identificam a agressão que praticam, não se reconhecem como estupradores.
As mulheres também não percebem, ainda que se sintam desrespeitadas ou humilhadas. Se entender vítima de uma violência tão brutal e ter que lidar com essa dor, provocada pelo próprio companheiro, é deixar de naturalizar parte dessa cultura de estupro na qual fomos socializados há séculos.
Sim, passamos uma vida inteira sem perceber as violências a que fomos expostas ou submetidas e, de repente, encará-las, nomeá-las e lidar com suas consequências é tarefa das mais difíceis. E como fazê-lo? Como olhar para o nosso passado e para o nosso presente encarando toda essa violência?
O primeiro passo, acredito, está sendo dado. É falar. É não se calar, não admitir mais o nosso próprio silenciamento. É dar voz a quem não pode (ainda) falar abertamente. Fortalecer e oferecer condições para que mulheres consigam sair de relacionamentos tóxicos e romper o ciclo da violência.
Faz-se necessária e urgente uma nova discussão sobre sexualidade, onde consentimento é peça central; uma espécie de reeducação para que homens e mulheres estabeleçam relacionamentos mais igualitários e satisfatórios para ambos. Não há outra forma de lutar contra essa cultura misógina que não seja através da educação. Para que, desde cedo, crianças aprendam a se relacionar sob a égide do respeito, da igualdade e da tolerância. Que as próximas gerações não mais vivenciem a violência, em especial contra a mulher, como um evento tão comum.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here