Aonde seu feminismo chega?

Esse texto surgiu de um fato simples e cotidiano. Há uns dias atrás eu comprei uma mochila de rodinhas para ir ao trabalho, aquelas que a gente só puxa, sabe? Para não levar todo o peso do conteúdo da mochila nas costas, como seria em uma mochila comum. Então, eu me deparei com as calçadas esburacadas, calçadas sem rampas, e muitos lugares sem acesso, e a partir disso eu percebi: se para mim que não tenho nenhum tipo de necessidade especial locomotora é uma dificuldade sair puxando minha mochila, imagina para quem é cadeirante ou para quem tem qualquer tipo de problema para se locomover?

Comecei a me questionar sobre outras coisas dentro da minha militância, será que eu estou mesmo rompendo barreiras ou vivendo dentro de uma bolha? Até aonde o meu feminismo está chegando? Se eu nunca refleti sobre problemas que as pessoas enfrentam como uma calçada cheia de desnível, o que eu deixei passar no que eu chamo de luta?

Uma das questões que acho muito importante mencionar aqui sobre o feminismo em si, é que este sempre esteve dentro das academias sendo determinado e vivenciado por mulheres de um determinada cor e classe, surgia historicamente com determinadas lutas, direito a educação, ao voto, e etc, nunca atingindo de fato a todas, sendo um movimento elitista e branco, excluindo mulheres negras e pobres, muito chamado hoje de feminismo branco; Uma forma de perceber isso é quando procuramos autoras mulheres sobre feminismo, quantas negras você já encontrou, quantas dessas foram citadas em alguma roda de conversa, ou mesmo por uma amiga?

Mas qual o problema disso tudo? A ideia do movimento feminista é ser emancipatório para mulheres, ser político, logo quando a gente exclui determinadas mulheres, ele perde a essência, pois mulheres brancas e ricas sempre oprimiram mulheres pobres e negras, então do que adianta existir um movimento excludente, segregacionista que não atinge mulheres reais, que atinge só aquelas que sempre estiveram em uma posição mais privilegiada? Não adianta achar que não temos nada a ver com isso, é um fato histórico, comprovado pela frase:

“Enquanto as brancas conquistavam direitos as negras continuavam sendo escravizadas”

O ponto que eu quero chegar é que nós, eu, você, precisamos refletir sobre a nossa luta, sobre a nossa militância, pois será que nós não focamos só no que vivemos de opressão e esquecemos o que uma moça do lado esta passando? Será que não achamos que a opressão que passamos é mais importante do que uma outra por que não me atinge?

Será que seu feminismo chega na sua empregada que precisa deixar os filhos em casa sozinhos pra cuidar dos seus?

Será que o meu feminismo chega na minha mãe, na minha avó que não tiveram estudos?

Será que as teorias que eu li e fico citando em uma rodinha de meninas que nunca leram nada do tipo, atinge elas de alguma forma? Será que o feminismo da minha bisavó que enfrentava os homens na peixeira é menos legitimo que o meu?  Será que o meu post lacração na internet sobre feminismo faz alguma diferença mesmo, ou ajudar alguma mulher do meu lado faria maior diferença?  Será que o grupo da faculdade  composto por garotas brancas, classe média, esta mesmo fazendo alguma diferença?

Fica a reflexão para você, para mim, para nós.

Precisamos romper bolhas. O feminismo existe e busca a liberdade e emancipação feminina, para todas, uma opressão não diminui outra, mas existem pessoas diferentes de você que são oprimidas não apenas por serem mulheres, mas também por serem negras, indígenas, pobres, mães, LGBT, periféricas, analfabetas. Vamos reconhecer nossos privilégios e tentar chegar a essas mulheres.

 

(Não sabemos autoria das imagens)

Lê, 20, paulista. Criadora da página TODAS Fridas.

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