Gordofobia Médica: A reprodução do Estigma Social

 Estigma Social

          O termo estigma é um conceito bem antigo, os gregos criaram a palavra para se referirem a pessoas que possuíam sinais corporais, com os quais procuravam evidenciar algo diferente, extraordinário ou mau sobre o status moral daquele que sofria a avaliação de diferente. Os sinais eram feitos com cortes ou fogo no corpo, considerado um aviso/marca que aquela pessoa pertencia a uma casta inferior, ou era escravo, traidor, criminoso. Aqueles sinais mostravam ao resto da humanidade que aquela pessoa deveria ser evitada, por estar suja, impura, poluída e, portanto má.

Na Idade Media essas pessoas “marcadas” começam a ter uma alusão médica e religiosa, mas é no mundo atual que o termo tem sido amplamente usado, com um significado bem parecido: marcar o sujeito como impuro, sujo e mau.

Alguns historiadores apontam que no nazismo, a perseguição aos judeus era tanta, que marcavam a estrela de seis pontas num fundo amarelo costurado nas roupas, em lugar bem visível, ou até mesmo com cortes nas mãos de alguns judeus. Essas marcas mostravam que aquelas pessoas eram más e deviam ser evitadas e exterminadas.

O estigma, portanto é uma forma de controle social, no qual existe uma seleção de acordo com princípios morais, religiosos, institucionais, políticos, culturais e comerciais padronizando o que é adequado ou não em nossa sociedade. Aqueles sujeitos que não se encaixarem no pré estabelecido, acaba por ser estigmatizado e então excluído socialmente, podendo quase sempre ser eliminado literalmente da sociedade onde vive.

Parece que sempre existiu essa seleção, com inúmeras justificativas argumentativas de Instituições que o corpo social apóia e até viabiliza, acreditando inclusive que essa seleção está baseada em conhecimentos verdadeiros e superiores com poder o suficiente para delimitar essa diferenciação.

Erving Goffman (1922-1982) foi um cientista social canadense que estudou profundamente esse tema, como resultado dessas pesquisas, escreveu um livro fantástico “Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada”. Nessa obra o autor afirma que o conceito de estigma permeia a ideia da presença física entre estigmatizados e normais, essa dualidade está presente em nossos cotidianos: de um lado os normais e de outro os anormais. Ou seja, todo sujeito que não se encaixar numa certa padronização será visto como fora do normal e então estigmatizado.

Assim, as pessoas consideradas normais elaboram categorias e atributos a um estranho, e essas pré-concepções elaboradas são transformadas em “expectativas normativas, em exigências apresentadas de modo rigoroso.” (GOFFMAN, 1975, p.12).

Pensemos nas escolas, hospitais, trabalho, família. A ideia é estar normatizado ao esperado pelos demais, e se isso não acontecer automaticamente existirá mecanismos de encaixe daquele indivíduo ao normal. Se isso não ocorrer vem o estigma e a exclusão do sistema.

Ao invés de incluir o sujeito e entender que não existem apenas duas categorias de encaixe: normal e anormal acabamos por considerar a pessoa como estragada, inferior e que tem algo de muito errado com ela. Essa ação, segundo Goffman é o estigma, principalmente quando o seu efeito de descrédito é muito grande.

Dessa maneira, o autor explica que, “a sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos considerados como comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias”. (IBIDEM, 1975, p. 12).

Seguindo esse raciocínio, através das pesquisas desse sociólogo, pode-se observar que estigmatizar alguém sempre terá consequências não benéficas para a vida do indivíduo que o recebe. Independente da circunstância que cria a constituição de ser estigmatizado socialmente, o ser estigmatizado sofre inúmeras exclusões por não estar incluído naquilo que a sociedade institui como normal e natural. Consequentemente acontecem um enorme descrédito deste indivíduo, reduzindo-o a algo estranho, estragado, ruim que não merece ser tratado como ser humano e, portanto qualquer tipo de tratamento é justificável.

Discurso Médico

Michel Foucault filósofo francês (1926-1984) pesquisa a relação entre saber e poder, aparecendo nessa análise o discurso médico.  Em Microfísica do Poder (1979), traz algumas formas de poder e sua historicidade. Quando analisa o sistema médico, nos alerta historicamente que no primeiro momento a preocupação era o entendimento da doença em relação ao corpo humano. Logo após, o sistema mudou sua direção, passando a exercer o controle e o exílio das pessoas que possuíam determinada doença.

Foucault apresenta como exemplo, o que aconteceu nos meados da década de 20 com a lepra, quando naquela época os leprosos eram exilados e internados em locais distantes e em muitos casos sem visitas de familiares. Além de que as casas onde o doente vivia eram queimadas como forma de erradicar tudo que estivesse ligado a este mal.

O que esse filósofo demonstra é que o conhecimento e saberes legitimam um discurso que muitas vezes, não é verdadeiro e muito menos inquestionável, o discurso médico, por exemplo, está sempre pautado na verdade absoluta. O conhecimento é proveniente de relações de poder, e por meio de contextos de poder é que o saber é buscado, e assim construído.

Podemos pensar na relação entre medicina e capitalismo, algumas doenças e suas curas são pesquisadas e outras não. Qual seria o crivo da escolha entre pesquisar a cura de umas e não de outras? O lucro que a doença pode alcançar? Impérios farmacêuticos e laboratoriais, cirurgias, etc. se constroem a partir dessas escolhas.

Assim, é importante perceber que o discurso médico, como muitos outros, estão inseridos num contexto de obtenção de lucro. A ideia de conhecimento, pelo contrário a esse raciocínio, deve transpassar a deconstrução de uma verdade unívoca, partindo para a inferência da fragilidade do conhecimento pautado em interesses de poder.

Gordofobia Médica

Seguindo o aqui discutido, podemos entender melhor como o estigma da gordofobia se reproduz na medicina, nos consultórios, hospitais e tudo que estiver relacionado à saúde no mundo contemporâneo, observe, é avessa ao corpo gordo.

Assim sendo, todo corpo grande é considerado dissidente, ou seja, esta a margem do que é considerado normal. Esse corpo vivencia uma estigmatização, excluído das relações sociais, porque o corpo maior não corresponde aos atributos e estereótipos considerados naturais, comuns e saudáveis pelo discurso que normatiza o que é bom e mau.

A pessoa gorda vivencia todos os dias e lugares que frequenta o preconceito nas relações sócio afetivas. Esses contatos estão carregados de estigma que acaba repetindo a concepção de que todo gordo é preguiçoso, doente, fracassado, desleixado, fraco e muitas outras características que este estigma acaba por definir com o corpo maior.

O sujeito gordo é estigmatizado por sua dimensão corporal considerado doente e anormal, se um cálculo, o IMC – Índice de Massa Corpórea, inventado em 1832 pelo cientista, matemático e astrônomo belga Adolphe Quetelet for maior ao estabelecido como saudável.

Por conseqüência, toda vez que esse discurso de poder, como nos disse Foucault, fizer os cálculos e o paciente não estiver dentro desse limite, terá que emagrecer, já que a relação com a saúde acaba sendo imediata, mesmo quando o indivíduo está bem em seus exames.

Os profissionais de saúde prescrevem normas e juízos de valor na maioria das vezes antes mesmo dos exames, ou de pelo menos uma conversa com seu paciente, é como se a pessoa gorda não pudesse falar sobre si mesma.

Esses corpos grandes se tornaram públicos, todos podem tocar, opinar e julgar, principalmente se for um médico. Tenho acompanhado a morte de muitas mulheres gordas que chegam ao consultório com um problema de saúde e o foco passa de suas queixas a gordura, suas dores e sintomas negligenciados, que levaram a paciente ao consultório.

A estigmatização é reproduzida pelos discursos de poder e a ciência e medicina inseridas no sistema capitalista criam mercadorias que fazem papéis paliativos, para que as pessoas gordas emagreçam, cirurgias, dietas, shakes, etc. Ao invés de descobrirem, ouvirem e estudarem o que essas pessoas têm a dizer sobre seus corpos. Como se sentem?

No livro “Sociologia da Obesidade”, Jean Pierre Poulain explica que o problema da “obesidade” tem muita mais haver com o moralismo, do que com saúde e essa relação acaba passando pela reprodução do estigma do corpo gordo na sociedade atual.

Apesar de encontrarmos inúmeros estudos mostrando a diversidade da “obesidade”, como fatores genéticos, hormonais e metabólicos, bactérias entre outros, ainda o que é evidenciado é a hipervalorização das causas pessoais do excesso do acumulo de peso.

Pessoas gordas ainda são consideradas como grandes comedores, que não se controlam, comem o que não é saudável, não fazem exercícios, demonstrando uma interpretação moralista carregada de preconceito. Essa concepção, infelizmente não é diferente entre a comunidade medica.

Dessa maneira, existe uma importância urgente que se entenda os mecanismos dos estigmas construídos sobre o corpo gordo como parte da formação de profissionais da saúde. Já que entender a gordofobia, passa por salvar vidas e valorizar o acesso de todo cidadão á saúde de forma igualitária, sem diferenciações e pré julgamentos.

Para Consultar

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Editora Loyola, 2010.

GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: LTC, 1975.

GURGEL A. O que é gordofobia? Como deixar de ser gordofóbico, 2017.

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NUyfj82OoRg

JIMENEZ-JIMENEZ, Maria Luisa; ABONIZIO, Juliana. Gordofobia e Ativismo gordo: o corpo feminino que rompe padrões e transforma-se em acontecimento. Disponível em: http://alas2017.easyplanners.info/opc/tl/1243_maria_luisa_jimenez_jimenez.pdf

MATTOS R. Sobrevivendo ao estigma da gordura. São Paulo: Vetor; 2012.

MELO, Z. M. (2000). Estigma: espaço para exclusão social. Revista Symposium, 4 (especial), 18-22. Disponível em: www.unicamp.br/Arte/ler.php?art_cod=1486

POULAIN, Jean Pierre. Sociologia da obesidade. São Paulo: Editora Senac; 2013.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maria Luisa Jimenez Jimenez
Filósofa, feminista, ativista gorda, palhaça, professora, doutoranda e
pesquisadora FAPEMAT
Estudos Interdisciplinares de Cultura Contemporânea 
Faculdade de Comunicação e Artes – UFMT.
Whatszaap 65 99301.8851

 

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