O experimento de Milgram

Sempre tive um natural interesse por tudo que me fizesse pensar além e não fosse óbvio. Na linha de filmes fora do comum que me cativaram, adicionei esses tempos “O experimento de Milgram”. Trata-se de um filme em que seu personagem principal conversa diretamente com o espectador. Olhando nos olhos. Buscando um diálogo mental para encontrar respostas para um paradoxo interessante e cruel.

Porque seres humanos considerados normais e saudáveis são capazes de cometer atrocidades? Milgram tinha um grande interesse por essa questão, muito devido a ser um judeu vindo de família que fugiu do nazismo.

“Pergunto-me como foi possível pessoas normais, como nós na rotina diária, agirem insensivelmente, desumanamente, sem nenhuma limitação da consciência. Há alguns estudos na psicologia social que parecem dar uma dica a esta pergunta. O problema que quis estudar era um pouco diferente, foi um pouco além, sobre a autoridade. Em que condições alguém obedece a autoridade de quem comanda atos contra a consciência?” – Indaga Stanley Milgram em um filme que documenta a pesquisa realizada por ele.

A pesquisa sobre a punição como método de aprendizagem de Milgram ocorreu em 1962 na Universidade de Yale, nos EUA. Nela, 40 homens entre 20 e 50 anos participaram voluntariamente. O teste consistia em formar duplas que se relacionavam como “aluno” e “professor”. O aluno era sempre um cientista da pesquisa, enquanto que o professor era algum dos voluntários. O professor fazia perguntas variadas, se o aluno errasse, o professor aplicava choques que começavam em 15 volts e iam progressivamente a 450 volts.

Conforme os choques eram aplicados, o aluno gritava, pedia para sair do experimento ou ficava em silêncio.  Porém, os professores eram ordenados a seguir com a pesquisa independente dos protestos do aluno. Vale ressaltar que entre o aluno e o professor, havia uma barreira física, ou seja, eles não se viam. Só no final do experimento era revelado que o aluno não estava levando os choques. Ao longo de todo o experimento, os pesquisadores diziam que se responsabilizavam pelo o que acontecesse com o aluno e isso foi crucial para o resultado da pesquisa.

Incrivelmente, em 65% dos casos, os professores aplicaram os choques até o máximo sendo que nenhum desses foi verificar se o aluno estava bem enquanto gritava. Ou seja, eles seguiam as ordens, muitos sem questionar, eram bizarramente obedientes à autoridade numa situação absurda.  O experimento foi repetido em outros países, também com mulheres, e a média desconsertante de 65% se manteve.

Será que o seres humanos, em sua maioria, são maus? A pesquisa mostra que mais da metade de uma amostra tem atitudes cruéis se a responsabilidade ficar com outra pessoa. Ou seja, o que importa para essas pessoas é não ser responsabilizado ou elas sentem medo da autoridade? Difícil responder essa questão, mas, de qualquer forma, falta humanidade em quem aplica choques até o máximo ao meio de gritos da vitima. Houveram protestos à pesquisa, em que se levantava a hipótese de que ela era abusiva com relação ao professor, colocando-o sobre estresse intenso. No entanto, esses protestos não tem argumentos suficientes que expliquem as atitudes cruéis dos que seguiam adiante nos choques.

O resultado é chocante, faltou bom senso e humanidade suficiente para sair do teste no primeiro grito de dor para essas pessoas. Será que isso explica de alguma forma a barbárie em que vivemos no Brasil, no mundo todo? Tamanha violência? Todas as pessoas que participaram de guerras não eram todas psicopatas em último grau, eram pessoas normais. E a pesquisa é condizente com os julgamentos em que participantes do massacre aos judeus diziam que só estavam cumprindo ordens.

Será que os homens machistas seguem apenas ordens da sociedade machista também? A violência, a ignorância são culpa da sociedade como um todo então, como existe muita violência, posso ser violento também? Os questionamentos são muitos, mas o que aprendemos com eles é que muita coisa tem que ser mudada e a mudança vem de dentro.

Referências:

https://www.huffpostbrasil.com/2017/09/25/o-desconcertante-experimento-de-milgram-sobre-o-comportamento-humano_a_23219601/

https://www.netflix.com/br/title/80047396 (Filme “O experimento de Milgram”)

https://www.cartacapital.com.br/revista/895/a-licao-de-stanley-milgram  (trecho de um documentário sobre o experimento)

 

Dedico minha vida a estudar o máximo possível e compartilhar o que aprendo com quem estiver disposto a refletir comigo. A vida é muito bonita e, para quem está disposto a mudar o mundo, é mais linda ainda!

 

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