Perseguição as Mulheres na Política: #MeuVotoSeráFeminista

“Esse não é seu lugar, você não sabe, não entende, não está preparada, vai cuidar dos seus filhos, política não é coisa de mulher”. Essas frases são repetidamente ditas pela maioria das sociedades no planeta, da antiguidade aos dias atuais. Essa ideia que mulher não deve estar na política é bem antiga.

Temos presenciado durante toda a história humana uma caça as bruxas –mulheres- sem trégua, ainda hoje percebemos alguns discursos enganosos afirmando com alegria, que a mulher nunca participou tanto da vida social como nos dias atuais.

Como se fosse um favor, esse discurso geralmente aparece na sua maioria de homens, que anunciam que as mulheres estão participando e sendo aceitas e valorizadas em espaços antes impensáveis, só que não.

Uma coisa é ocupar espaços antes predominantemente masculinos, outra coisa é ser aceita, apoiada e aplaudida. Reconhecendo toda uma história de exclusão e violência contra as mães de seus filhos.

Sabemos que apesar das mulheres serem mais da metade da população do Brasil e do mundo, ainda são minoria em vários critérios de representação política. E, pior, quando tentam participar são perseguidas, diminuídas e humilhadas.

Segundo pesquisas realizadas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), publicado em março desse ano: “Na vida pública do país, apesar da existência de cota mínima (30%) de candidaturas de cada sexo em eleições proporcionais estabelecida pela Lei 12.034, em 2017, as mulheres eram apenas 10,5% dos deputados federais em exercício. Esta proporção (10,5%) é a mais baixa da América do Sul, enquanto a média mundial de deputadas é 23,6%”.

As pesquisas ainda mostraram que apenas um em cada dez deputados federais eram mulheres em 2017. Em dezembro de 2017, o percentual de mulheres parlamentares no Congresso Nacional era de 11,3%. No Senado, 16,0% eram mulheres e, na Câmara dos Deputados, 10,5%.

Três estados brasileiros não tinham nenhuma deputada federal: Paraíba, Sergipe e Mato Grosso (onde moro, diga-se de passagem).

Em 2017, o Brasil ocupava a 152ª posição entre os 190 países que informaram à Inter Parliamentary Union o percentual de assentos em suas câmaras baixas (câmara de deputados) ou parlamento unicameral ocupados por mulheres parlamentares em exercício. Na América do Sul, o Brasil mostrou o pior resultado. No mundo, as mulheres ocupavam, em média, 23,6% dos assentos nas câmaras baixas ou parlamentos unicamerais.

Outra pesquisa do Pulso Público, feita a pedido do Movimento Transparência Partidária, mostra que cerca de 40% dos filiados a partidos políticos são mulheres, em média.

Apesar de representarem pouco mais da metade da população (51,03%, segundo último censo do IBGE), mulheres detêm só 9,9% das cadeiras da Câmara dos Deputados, por exemplo, de acordo com dados de 2014.

Observem que a baixa representação política no Brasil foi o principal motivo para derrubar o país no ranking de igualdade de gênero divulgado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) em novembro do ano passado. O país caiu da 79ª posição em 2016 para a 90ª de um ano para o outro.

Em 2016, quando Dilma Rousseff ainda era presidente da República e não tinha sofrido o golpe, as mulheres ocupavam 15% dos cargos ministeriais, segundo os dados compilados pelo WEF. No governo Temer, esse número caiu para 4%. Essas mudanças levaram o país a despencar de 82º para 134º em participação feminina no alto escalão governamental.

Você leu ou viu alguma mídia convencional noticiando esses dados? Não? Eu também não, tive que pesquisar e muito para saber esses números e isso é um dado importante, já que estamos falando de igualdade. Só que não!

Em relação ao Legislativo, o Brasil está na 152ª posição em uma lista de 190 países, compilada pelo IBGE com base em dados da União Interparlamentar.

Nesse cenário, a participação ampla e efetiva da mulher na política é insignificante e essa situação com certeza é a conseqüência dos altos índices de violência contra a mulher.  Outra questão pouco explorada nos noticiários corriqueiros e discussões parlamentares.

O Movimento Transparência Partidária argumenta que uma participação ampla e efetiva das mulheres na política é essencial para melhorar todos os outros índices de desigualdade.

Para a entidade, os altos índices de violência contra a mulher, por exemplo, estão diretamente ligados ao baixo número de representantes femininas formulando políticas públicas para o enfrentamento deste problema.

Segundo o Fórum Econômico Mundial, se continuarmos no ritmo atual, a paridade entre os gêneros só será atingida daqui a 100 anos no mundo. Vocês já imaginaram isso? Nem nossos netos desfrutarão de um mundo mais igual e menos violento.

De um total de 190 países, o Brasil ocupa a 152ª posição no ranking de representatividade feminina na Câmara dos Deputados. São apenas 54 mulheres para um total de 513 parlamentares (10,5%). O dado faz parte da pesquisa “Estatísticas de gênero – Indicadores sociais das mulheres no Brasil”, divulgada pelo IBGE.

Para chegar à comparação, o IBGE considerou compilação feita pelo organismo internacional União Interparlamentar. À frente do Brasil, estão países de diferentes perfis econômicos e sociais, como Ruanda (61,3%) – o primeiro da lista , Cuba (48,9%), Nicarágua (45,7%), Suécia (43,6%), Argentina (38,1%) e EUA (19,4%).

O País tem cotas para mulheres nas candidaturas. De acordo com a atual legislação, “cada partido ou coligação preencherá o mínimo de 30% e o máximo de 70% para candidaturas de cada sexo”. Mas não há tanto apoio financeiro às candidatas femininas, então poucas se elegem, avalia o IBGE.

Apoio financeiro é verdade falta, mas o pior a meu ver são as perseguições que elas sofrem em plenária, nas ruas, em exercício, a violência é institucionalizada a ponto de poucas entrarem e sobreviverem nesse exercício de poder.

Mulheres perseguidas na política

Não é difícil perceber o que tem acontecido na política com as mulheres no país, a perseguição é escancarada e isso ocorre principalmente se a pauta feminista for assumida, ou seja, mulheres que fazem política para mulheres. Essas são alvos prediletos, na maioria das vezes de homens e partidos conservadores que sempre estiveram nesse lugar de poder.

Citarei alguns exemplos dessa perseguição, para mostrar que essas ações estão acontecendo repetidamente de diversas formas, contudo a violência é sempre a mesma. Podemos começar com um episódio midiático que aconteceu a candidata a presidência, Manuela D’Avila do partido PCdoB.

De conhecimento geral foi a sabatina no canal Cultura, em rede nacional, no Programa Roda Viva sobre como a candidata foi tratada. Independente das discussões sem fundamento levantadas e dos entrevistadores identificados claramente como conservadores, que apóiam esse poder masculino na política. A forma de tratamento com a MULHER Manuela mostrou claramente, que não somos aceitas, nem bem vindas.

Não deixaram ela falar, foi cortada inúmeras vezes no meio de suas exposições, enfim independente de sua escolha partidária, nós mulheres já passamos por essa experiência de humilhação, sabemos bem quando não nos deixam expor o que pensamos e o tratamento hostil dispensado nessas situações é bem constrangedor, existe uma violência relembrando-nos de que estamos ocupando erroneamente um espaço social que não pode ser ocupado por mulheres.

Talvez o pior de tudo nessa experiência, a meu ver, foi depois do programa, quando questionada como se sentiu naquela situação opressora, sua resposta foi que, o que aconteceu na sabatina não era uma novidade, muito pelo contrário, ela passava por isso inúmeras vezes, desde que escolheu entrar na política. Essa entrevista me fez querer escrever esse texto e pesquisar sobre o assunto.

Outro exemplo, entre muitos, foi o que aconteceu com Isa Pena em 2017, vereadora eleita pelo PSOL em São Paulo, foi xingada de “vagabunda” e “terrorista” pelo também parlamentar Camilo Cristófaro (PSB) no elevador da Câmara dos Vereadores. O vereador ameaçara Isa anunciando em gritos: “Não fique surpresa “se tomar uns tapas na rua”.

Sâmia Bonfim também vereadora eleita pelo PSOL-SP vem sendo perseguida desde o começo de seu mandato em 2016, pelo vereador Fernando Holiday companheiro de casa pelo DEM-SP, já inclusive pediu a cassação do mandato da parlamentar.

Seriam inúmeros, os exemplos da perseguição e violência cotidiana nesses espaços de representação política contra mulheres em nosso país, não haveria término.

Contudo, e seguindo o objetivo de mostrar exemplos que essa repressão acontece na vida diária de mulheres na política, gostaria de terminar essas amostras, citando duas parlamentares que representam o quanto perigoso e violento tem sido essa tirania em nosso país.

Nada mais exemplar do que aconteceu com Dilma Roussef, presidente elegida pelo PT e expulsa de seu cargo ilegitimamente sem provas de qualquer espécie de desvio no exercício da presidência.

E, para fazer pensar mais ainda sobre essa intolerância, a morte/retaliação da socióloga Marielle Franco, vereadora em exercício pelo PSOL-RJ militante dos direitos humanos, negra, representante da periferia carioca e Presidente da Comissão da Mulher na Câmara esse ano.

Todos esses fatos que citei, em nenhum houve retratação, esclarecimento ou mesmo no caso da morte/retaliação de Marielle, houve investigação do assassinato político com seriedade e respeito, como deveria ser, já que TODAS são representantes por votação democrática, ou seja, foram escolhidas pela população para representação na esfera política.

A violência simbólica como perseguição a mulheres na política

A meu ver o que acontece em todos esses casos apresentados acima e em muito outros, é a violência simbólica, muitas vezes entendida como normal e invisível pela sociedade, por isso muito mais difícil de falar sobre.

Pierre Bourdieu, filósofo francês (1930-2002), focado nas áreas de sociologia e antropologia, tinha uma grande preocupação com temas sobre dominação, cultura, mídia e política.

Esse conceito foi criado com o objetivo de explicar as relações de dominação que não pressupões a coerção física ocorridas geralmente nos outros tipos de violência. A raiz dessa agressão estaria presente nos símbolos culturais, especialmente no reconhecimento tácito da autoridade exercida por certas pessoas e grupos de pessoas em nossa sociedade.

Dessa maneira, a violência simbólica nem é percebida como violência, mas como uma interdição desenvolvida com base em um respeito naturalizado entre sujeitos. O que Bourdieu explicou, foi que existem dispositivos para naturalizar essa violência através de estratégias punitivas legitimadas por todo o corpo social.

O que acontece com essas mulheres na política é um ótimo exemplo da violência simbólica, elas precisam ser silenciadas, mortas, expulsas, já que os que sempre dominaram esse espaço, a Política, legitimam estratégias punitivas em relação as mulheres que não fazem parte, nem apóiam esse discurso masculino político vigente.

Quando uma mulher é silenciada na política, TODAS somos silenciadas. Quando uma mulher é cassada e humilhada em seu exercício Parlamentar, TODAS somos cassadas e humilhadas, e assim por diante. Até quando seremos perseguidas?

Meu Voto será feminista

Esse ano – 2018 – haverá eleições, e você que entendeu esse texto, se identificou, apóia ou se autodenomina feminista vai votar em quem?

Existe uma urgência em reverter esse quadro de domínio masculino na política brasileira, ou então a luta por igualdade de gênero se torna superficial. O que precisamos nesse país é de mudanças estruturais. Precisamos de mulheres que representem nossas pautas no Congresso, quanto mais, melhor.

A luta feminista por igualdade é extremamente política e de urgência, a pauta de uma intervenção política ocupando esse espaço negado pela violência contra nós se faz prioridade.

Ocupar e Resistir, esse grito nos chama a atenção sobre o caráter político de nossa opressão, vivenciada todos os dias e na maioria das vezes de forma privada, isolada e individualizada como meramente pessoais.

Os feminismos vêm mostrando a sociedade, mas principalmente as mulheres, como as circunstâncias pessoais estão estruturadas por fatores públicos e políticos, leis sobre feminicidio, aborto, casamento, filhos, liberdade de ir e vir, educação, sexualidade, a divisão sexual do trabalho no lar e fora dele, etc.

Já sabemos que essas violências e opressões durante a história da humanidade só poderão ser resolvidos através dos meios e ações políticas. A Ocupação do Legislativo, Judiciário e Executivo com a presença feminina constante no cenário político do país é necessária apesar de sofrida.

Momento de união entre TODAS e de apoio as mulheres que estão resistindo nesse momento, as que se candidataram, as que estão em plenária ou estarão.

O seu voto é muito importante, o da sua vizinha, mãe irmã e manas, a sororidade também é política, essa é uma estratégia importante na luta por igualdade e respeito.

Todos os feminismos: acadêmico, negro, lgbt, trans, radicais, anarquistas, socialistas, queer, interseccional, TODASFRIDAS, juntas pensando que o voto tem que ser Feminino porque é lá que temos que estar para mudar a estrutura patriarcal e hipócrita de nosso país. #meuvotoserafeminista

 

Para Consultar:

BOURDIEU, P. O poder simbólico.  Rios de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.

BIROLI, Flávia. Feminismo Político. São Paulo: Boitempo, 2014.

DAVIS, Angela. A Liberdade é uma luta Constante. São Paulo: Boitempo, 2018.

Campanha #meuvotoserafemnista. https://www.meuvotoserafeminista.com.br/

Consultoria política. https://www.pulsopublico.com.br/

Fórum Econômico Mundial. https://www.oxfam.org.br

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. https://www.ibge.gov.br/

Movimento Transparência Partidária. http://www.transparenciapartidaria.org/

Women in National Parliaments. http://archive.ipu.org/wmn-e/classif.htm

 

Maria Luisa Jimenez Jimenez
Filósofa, feminista, ativista gorda, palhaça, professora, doutoranda e
pesquisadora FAPEMAT
Estudos Interdisciplinares de Cultura Contemporânea 
Faculdade de Comunicação e Artes – UFMT.
Whatszaap 65 99301.8851

 

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