Competição materna

Outro dia, conversando com uma conhecida,(mãe, como eu) estava explicando que tinha resolvido deixar meu filho na creche uma hora a mais, dois dias na semana, pra que eu pudesse, finalmente, voltar a fazer exercícios físicos. Como sou mãe solo, e sem familiares morando na minha cidade, foi a alternativa que vi possível.
A conhecida me interpelou com um “nossa, mas tadinho…. ele já não fica na creche o dia todo?”
“Sim, ele fica o dia todo, enquanto eu trabalho. E vai ficar um pouco mais, dois dias, para que eu possa cuidar um pouco de mim”.
E ela continuou: “ah, mas mesmo assim… tadinho, não te corta o coração deixá-lo tanto tempo na creche?”
Não, na verdade, não corta não.
Ela me olhou com desaprovação e continuou “ e agora nas férias, como vc faz?”
Bom, como não consigo tirar férias nessa época do ano, ele fica na colônia de férias da escola.
“Ai, mas tadinho… você não fica com pena dele?”
Pena? Claro que não. Ele adora a escola, as professoras, os amigos… e além do mais, essa é nossa realidade.
“Ah, eu nunca tive coragem de deixar meu filho na colônia de férias… coitadinho!”
Coitadinho? Coitada de mim! Disse isso e me afastei, porque vi que aquela sessão de julgamento não teria fim.
Percebi que o objetivo daquela conversa toda não era trocar ideias mas, sim, me fazer sentir culpada e eu, ao ficar ali respondendo, quase que na defensiva, alimentei aquela insanidade.
Essa conversa me fez refletir sobre o quanto a competição feminina, e, nesse caso, a subespécie “materna”, ainda nos aprisiona.
Em minha recente maternidade, percebo o quanto sempre fui mais julgada por outras mães do que por mulheres que não têm filhos.
Fomos socializadas para desconfiar e competir com outras meninas e mulheres, numa disputa tóxica e desagregadora, obviamente muito necessária para manutenção do sistema patriarcal.
O movimento feminista, especialmente nos últimos anos, tem nos alertado para a necessidade de, primeiro, tomar consciência dessa educação a que fomos submetidas; e, a partir daí, lutarmos para nos livrarmos dessas amarras.
Digo lutar porque realmente não é tarefa fácil. O feminismo nos propõe um processo de deseducação, uma realfabetizacão da vida e das nossas relações com os outros.
Me tornar mãe, dentro dessa deseducação feminista, particular e coletiva, me fez talvez, acelerar esse processo.
Comecei a perceber e tentar me livrar dessa necessidade de julgar as outras mulheres, outras mães, sob as minhas perspectivas individuais.
Aquela mãe com quem conversei queria incutir em mim as culpas que ela sentia, e me julgou por eu não compartilhar delas. O movimento natural seria eu também fazer o mesmo, como já fiz tantas e tantas vezes.
Mas, diante do desconforto daquele momento, parei para refletir. Quantas vezes eu também julguei outras mulheres, outras mães? Não quero mais tomar parte nessa dinâmica, que só nos afasta e enfraquece.
Eu tenho minhas culpas, minhas dificuldades, minhas necessidades – e cada uma de nós têm as suas. Aprender a respeitar as individualidades e criar um novo movimento de união entre nós mulheres é um exercício diário e, ao mesmo tempo, faz parte de uma profunda revolução.
O maior desafio do feminismo é trazê-lo para dentro de casa, para a prática das nossas relações. E perceber que mudanças só serão possíveis quando nos unirmos; quando percebermos que juntas, somos fortes e capazes de mudar toda uma cultura de opressão e violência, a começar por nós mesmas.

 

Feminista, mãe solo, servidora pública, 33 anos, moro em Niterói-RJ.

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