O feminismo já passava pela sua primeira “tímida onda” na época de Frida, porém ela nunca se intitulou de fato feminista, já que seu principal objetivo com a militância política era a revolução cultural de forma geral. Ela não foi ativa em uma luta pelos direitos das mulheres e há quem diga que sua personalidade forte era apenas fruto de sua excentricidade e tragédia pessoal sem qualquer relação com empoderamento feminino. Inclusive, o maior argumento de quem a renega como ícone feminista é o fato de ela não só ter protagonizado o relacionamento mais publicamente abusivo da história, mas ser declaradamente dependente emocional de seu “grande amor” Diego Rivera. Que há uma certa histeria e floreio ao redor de Frida sendo posta exclusivamente como uma heroína feminista acima do bem e do mal por pessoas que sequer conhecem sua história, é verdade. Que a própria detestaria o lucro das grandes empresas se apropriando de sua imagem, provavelmente. Mas chega a ser cruel como inclusive algumas feministas culpabilizam mulheres como Frida que foram e continuam sendo vítimas das construções sociais românticas e o quanto algumas ainda são pouco compreensivas com o fato de que mesmo “sofrida realmente a sua maneira Frida jamais se kahlou”.

Desintoxicação do romantismo e “resistir também é militar”

Mulheres são as maiores vítimas da super valorização de um relacionamento, da idealização do amor romântico como tábua de salvação e isso ainda é uma das maiores dificuldades nos processos de empoderamento. Ultimamente tem-se inclusive discutido se relacionamentos “enfraquecem” a nova imagem de mulheres fortes no cinema e nos livros. Ainda há uma certa dificuldade em equilibrar a ideia de um relacionamento com a percepção que se tem de uma mulher “dona de si”, como se as duas coisas não coubessem no mesmo universo, já que mulheres empoderadas, muitas vezes são vistas como “frias”. Algumas pessoas inclusive não conseguem conceber mulheres feministas casadas e mães.

Essa polarização: ou você é empoderada e firme o tempo todo ou romântica e submissa, e nunca um meio termo, elevaram os apontamentos em torno de ser inaceitável uma mulher feminista suportar um relacionamento abusivo em pleno 2018, e isso é compreensível até certo ponto. Já temos uma bagagem considerável de entendimento sobre o romantismo tóxico, mas pensar nisso nos idos de 1930 era “exigir” muito de uma mulher totalmente fragilizada física e emocionalmente, apesar de visionária.

Não é segredo para ninguém que as traições de Diego resultaram em um ciclo quase doentio de relações extraconjugais também por parte de Frida. Rumores inclusive de que sua bissexualidade tenha sido apenas reflexo de um comportamento promíscuo motivado pela profunda solidão (coisa que eu particularmente duvido).

Frida ao passo que viveu o poliamor e a poligamia, no fundo nutria o desejo de “ser feliz pra sempre com seu Dieguito”. Ele culturalmente apoiado nos moldes extremamente machistas ainda que num meio artístico aberto à novas idéias e com ares revolucionários por conta do posicionamento político, deixou a Frida a única solução possível: suportar e se conformar.

O problema é que ela não se conformou. Aliás, não se conformou com nada. Ainda que continuasse ao lado de Diego, explorou sua sexualidade, quebrou tabus morais, estéticos e artísticos. Mesmo que motivada pela doença, pelo desespero das inúmeras cirurgias, ou empurrada pelas circunstâncias a se posicionar como artista, e não por um “ideial feminista”, ela o fez. E é curioso notar o descrédito que dão a sua obra, como “superestimada”. Se fosse tão fraca não teria escolhido pintar a si própria e a seus demônios interiores. Que mulher queria encarar suas próprias fragilidades e expô-las para o mundo aquela altura?

As duas fridas (1939)
Coluna quebrada (1944)

Minha opinião é que cobram de Frida uma perfeição para dar a ela o reconhecimento merecido que nem uma mulher possui ou irá possuir.

Feministas não são intocáveis. Estamos sujeitas a errar e sermos sugadas pelas expectativas socialmente construídas sobre nosso papel de gênero e por mais que seja compreensível as correntes mais radicias do feminismo que levam em consideração que militância é caracterizada apenas por uma luta política direta, o que poderia ser mais representativo do que uma mulher não esteticamente padrão, de uma cultura pouco visada, se destacando artisticamente com um estilo não convencional dentro de um movimento em plena expansão como foi o surrealismo (apesar da própria renegá-lo, ela ficou conhecida por ele), mesmo com todas as suas limitações físicas?

Longe de mim romantizar a profunda dor, tristeza e infelicidade de Frida, mas se ela é lembrada até hoje é por ter sobrevivido e lutado contra todas as expectativas, mesmo que movida pelo amor que sentia por Diego, (apesar dele não ter sido seu único amor, foi o maior e mais tóxico) quem ela representa independe dele, e a simpatia que ela causa em quem de fato conhece sua jornada vem da sensação de que ela como muitas de nós, possuía uma fragilidade imensa e algo de forte no meio disso.

Recentemente escrevi um pequeno texto no facebook falando rapidamente sobre como Frida estava longe dos padrões estéticos aceitáveis, como isso é usado até hoje principalmente por homens para desmerecer sua obra e o quanto ela me inspira e me faz desejar ter pelo menos um pouco da sua representatividade artística, e fiquei surpresa como centenas de mulheres não artistas se identificaram com meu texto. Frida transcendeu o nicho onde se fez relevante e passou a inspirar mulheres em outros níveis.

É realmente triste porém, ter de usá-la como exemplo de “onde não chegar em nome do amor”, “do que não suportar de um homem por amor”, mas descreditar sua batalha pessoal profundamente inspiradora e que mesmo indiretamente abriu precedentes para outras artistas, chega a ser desonesto.

Grandes mulheres ao longo da história não explicitamente ligadas ao feminismo deixaram legados feministas se sobressaindo em suas áreas de atuação, porque apesar da importância da militância política direta no movimento, ele é mais do que a palavra propriamente, ele está presente em toda mulher que contraria expectativas por menores que sejam e deixam uma marca no mundo. Isso vai muito além de medir o grau de feminismo de uma mulher porque ela esteve ou está em uma relação abusiva.

É preciso também empoderá-las lhes mostrando as diferentes formas de reconhecer e sair de um relacionamento abusivo, até porque a cultura do “amor que tudo suporta”, não acabará tão cedo, e “confiscar carteirinhas de feminismo” porque em determinados momentos algumas delas se vêem oprimidas por homens em seus relacionamentos renegando todas as outras coisas incríveis que elas fazem e pode fazer, não é o caminho.

Por fim, o feminismo tem uma espécie de “licença poética” em ressignificar coisas que não foram criadas pelo movimento e transformá-las em símbolos, como o “We can do it” que de propaganda pró guerra tornou-se o maior slogan feminista. Acho que esse é o verdadeiro significado de empoderar: pegar algo criado para ser oprimido e libertá-lo.

***

leia também:

Frida Kahlo Para Além da Fridomanía: Entre a Artista e o Mito

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here