Em quase toda rodinha de conversa tem alguém para falar a famosa pérola: “isso é coisa dessa geração chata de mimimi, não podemos falar mais nada que é preconceito”.

Mas, será mesmo que é apenas mimimi?

Quando eu era criança, tinha na sala de aula o “gordo ‘zuado’ por ser gordo”, o “narigudo”, a “preta”, o “negão”, a “safada” e por aí vai…

Embora tivéssemos vários momentos de clima bastante ameno, tinham momentos que hoje conseguimos classificar como bem violentos. Criticar o colega porque ele gosta de se vestir de uma forma “diferente” dos demais, fazer o colega chorar de vergonha porque ele é diferente de algum padrão que nós estabelecemos. Éramos muito cruéis, um comportamento criminoso, eu diria.

Quando crescemos começamos a enxergar outras coisas, temos acesso a mais informações, conhecemos outras pessoas com pensamentos diferentes dos nossos. E no meu caso (isso não é regra), nos tornamos responsáveis pela formação de outra pessoa. Aí não tem erro mesmo, você começa a  ver que dói, que machuca muito e que qualquer tipo de exclusão não é legal.

Quando vemos pessoas que amamos na condição de excluídos DÓI! Mas a gente aprende que dói, porque na verdade, doeu em alguém que amamos.

Precisamos aprender a entender que a dor do outro, poderia ser nossa dor. Mesmo que esse outro seja um desconhecido. Se conseguirmos nos colocar no lugar do outro antes de julgarmos, diminuirmos, temos grandes chance de agirmos de forma diferente. De sermos coerentes. Corretos.

Acredito que esse processo de aprendizado é contínuo.

Temos o dever de ajudar as crianças de hoje a não repetirem os nossos comportamentos errados do passado. Mas como?

Fazendo a orientação dessas crianças, munindo de informações, de reflexões, ajudando a entender que todas as atitudes devem ser pensadas e repensadas. Que defender quem está numa posição de injustiça é nossa obrigação sim! Falando insistentemente mesmo que aquela atitude não está correta. Levando-os a pensar e a agir.

Em vários momentos nós ainda nos pegamos falando coisas preconceituosas, machistas, homofóbicos, mesmo que não concordamos com isso. Viver essa desconstrução de um comportamento que está enraizado na nossa alma, é um aprendizado diário.

Quantas mulheres foram agredidas e mortas e ouvimos ‘’piadas’’ a respeito por viverem relacionamentos abusivos? Quantas de nós caímos da escada, tropeçamos no banheiro, batemos a cabeça na porta e, de repente, não podemos mais contar a “nova desculpa”. Quantas pessoas foram mortas nas ruas por homofobia com a ‘’desculpa’’ de que o que aconteceu foi certo porque são “viados”?

Existem diversas pesquisas que nos mostram, há anos, a vergonhosa prevalência da violência contra as mulheres no Brasil. O tratamento destinado aos agressores não muda, classificados comumente como loucos. Quando na verdade são o contrário: homens “normais” perfeitamente inseridos em uma sociedade que não dá o menor valor às vidas das mulheres. É surreal pensarmos que somente em 2015, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, realizou 749.024 atendimentos, ou 1 atendimento a cada 42 segundos. E quantas de nós, nem mesmo tivemos a chance de pedir ajuda?

E se pensarmos nas vítimas de homofobia. O carinha que você chama de “viado”. A mulher que você chama de “sapatão” Nada disso é engraçado, muito menos ‘’mimimi’’. A homofobia mata. E mata muito. Mata 1 a cada 25 horas.

É sério que muitas pessoas ainda pensam que isso pode ser classificado como brincadeira?

É sério que muitas pessoas não ficam em alerta com o adolescente que é preconceituoso com a desculpa que é só ‘’brincadeira’’?

Você sabia que pelo menos 1 a cada 10 estudantes é vítima de bullying FREQUENTE nas escolas? E que a maioria dos casos, quem sofre o bullying não relata por medo de represália por falta de suporte das escolas, por ser um ciclo vicioso, onde alunos escutam todos os dias que não servem para determinado grupo  por serem ‘’diferentes’’ do padrão que a sociedade espera.

Brincadeira só é brincadeira quando todo mundo se diverte. Se sua brincadeira for constrangedora para alguém (por menor que você julgue ser esse constrangimento), não é brincadeira. E você deve rever seus conceitos, pensar mais antes de falar e agir.

E não. Não é mimimi. Não é só conversa.

Na verdade, é a consequência de uma geração onde ofender, humilhar, denegrir, atingir e agredir o outro é considerado tão normal que viramos adultos homofóbicos, racistas, machistas e preconceituosos.

 

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here