Por que aceitamos um amor que não é amor? Por que as pessoas pensam que “aceitamos”? Por que ficamos em uma relação perigosa, quando estamos constantemente suportando pequenas violências? Por que demoramos a entender que não merecemos? O que acontece no caminho para a vida adulta que, de tanto suportar a vida, acabamos suportando a dor sem que percebamos essa dor? O que a gente sabe do amor? Melhor, o que vocês sabem de amor?

Nos últimos dias, casos de violência doméstica (que acontecem todos os dias) chamaram a atenção das pessoas porque foram visibilizados na mídia, chocaram a sociedade que “não entende” como existe tanto maldade, como que essas “meninas” ficam nesses relacionamentos. Um ponto é este, param de chamar de mulher e para se referirem à vítima utilizam o termo ‘menina’. Já pensaram por que não podem chamar de mulher e ainda ser uma vítima? Conversas cotidianas em filas de banco, entre vizinhos: “coitada da menina, mas por que ficou com um homem tão violento?” “será que essa menina não percebeu que ele é um monstro?”. Parece que mulher deixa de ser vítima, mulher pode ser morta, mulher pode ser estuprada. E não, ele não é um monstro, ele é um homem, comum, educado, trabalha, faz exercícios físicos, conversa com vocês, é amigo de vocês, é filho de vocês. Se querem tanto compreender por que as mulheres estão em relacionamentos com esses homens, que tal questionarem o motivo desses homens as matarem? Até a metade deste ano, 740 casos de feminicídios foram denunciados.

A educação patriarcal e misógina é de uma violência poderosa, uma potência que impregna comportamentos, a cultura machista é de um poderio tão aterrorizante que às vezes a gente perde a racionalidade de tanta coisa. Porque silencia, faz com que a gente se silencie até que sejamos caladas para sempre. Eu também questiono, quando as mortes e os estupros consomem nos dias difíceis, essas mesmas perguntas com a resposta bem na nossa frente. Tanta morte. Tanta história. Do nosso lado, das nossas amigas, das redes sociais, dos jornais. E eu paro pra pensar, realmente, por que aceitamos violência como forma de amor? Quando na verdade, a culpa é de uma sociedade inteira.

Relacionamentos abusivos e a submissão psicológica são as maiores armas da estrutura machista em que vivemos, porque é silenciosa: ela ensina. Ensina o que é amor, ensina o que é a relação com um homem, ensina que homens “são assim mesmo”, ensina que a gente mereceu, ensina a não dizer não, ensina a chorar baixo, ensina a esconder o roxo. A romantização da dor e do coração partido é nociva, estruturada pela misoginia, pois eu só vejo mulheres sofrendo o abuso que vocês chamam de paixão, apanhando do marido que vocês chamam de protetor. Outro dia ouvi que “cada uma tem o marido que merece”, outro desses escutei “mas é homem né”. A educação opressiva, violenta, a que somos submetidas é tão perigosa, reproduz e faz com que toda a engrenagem desse sistema que extermina mulheres funcione. É doloroso vê-la, é doloroso perceber-se nela.

Então, antes de se questionarem o porquê daquela mulher se relacionar com um assassino, entendam: vocês criam e educam o assassino. Parem de reproduzir essa cultura machista, do estupro, parem de chamar isso de amor, parem de nos matar.

 

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