O feminismo e a educação dos meninos

Um dos grandes desafios do feminismo é seu aspecto mais íntimo ou, digamos, micropolítico: como rever nossos relacionamentos amorosos e familiares e como educar nossos filhos de forma menos machista e mais igualitária.

“ (…) é moralmente urgente termos conversas honestas sobre outras maneiras de criar nossos filhos, na tentativa de preparar um mundo mais justo para mulheres e homens.” (Chimamanda Ngozi Adichie – Para educar crianças feministas: Um manifesto).

A educação sob a perspectiva feminista pressupõe, necessariamente, a nossa própria re-educação – precisamos, enquanto pais e educadores, desconstruir preconceitos e encara-los diariamente para conseguir olhar para os pequenos seres humanos em desenvolvimento além dos esteriótipos de gênero.
Quando falamos em criação feminista, logo pensamos em empoderar meninas, mas tão importante quanto é educar meninos de forma a não perpetuar machismo e misoginia. Este último ponto, particularmente, se impõe como um desafio ainda mais árduo. Porque não se trata de passar novos valores, simplesmente, mas de ensinar meninos a questionar e rejeitar o papel de privilegio que a eles é dado, em nossa cultura, há milênios.
Lembro-me de sentir o peso dessa provocação quando me descobri, depois de uma ultrassonografia por volta da 16ª semana de gestação, grávida de um menino. Sai da consulta sentindo uma responsabilidade gigante: como vou criar um menino num mundo tão machista, injusto e violento para mulheres? Como educar meu menino para que ele não cresça mais um machista predador, agressivo, abusador?
Muitos livros, vídeos, blogs, coletivos feministas, grupos de mães (e, mais raros, pais) depois, descubro que tudo isso serve para trocarmos ideias, experiências e medos, e que é nas interações do dia a dia que as oportunidades de aprendizado vão surgindo e, com elas, as tentativas de construir uma nova masculinidade.
Meninos devem poder brincar com todo tipo de brinquedo – carrinhos, bonecas, panelas e fogões, vassouras, blocos de montar. Brincar de bola, ou de casinha, usar qualquer roupa da cor que preferir, sem que isso tenha maiores significações. O brincar é como as crianças experimentam o mundo e não devemos limitar ou empobrecer essa experiência de meninos e meninas.
Certa vez, meu filho brincava com três amiguinhas e uma delas veio falar comigo (seguida por ele, que vinha atrás chorando) “denunciando-o” por querer brincar de se maquiar com elas. Eu disse que tudo bem, que elas podiam deixá-lo brincar também. “Mas ele é menino, tia”. Eu sei, mas não tem problemas. Todos podem brincar juntos! Ela entendeu e meu filho voltou contente e saltitante, com o rosto todo rabiscado de vermelho.


Mas para que não pensem que sou a heroína mãe feminista desconstruidona, confesso que o dia em que meu filho pediu para pintar as unhas dele com esmalte rosa, eu o fiz torcendo pra ele pedir pra tirar antes de descermos para o parquinho – se ele desce assim, imagina o que os outros vão falar?! Pega em flagrante. Os resquícios do machismo então em todas e todos nós, só esperando para dar o ar da graça.
Meninos também devem poder chorar. Crianças choram, foi a primeira forma de comunicação que aprenderam e adultos também não choram quando estão tristes, estressados, com medo ou sentindo dor?
Devemos ensinar meninos a identificar seus sentimentos – e incentiva-los a falar sobre eles e expressá-los de forma saudável.
Da mesma forma, é preciso abolir a ideia de que ser comparado a uma menina seja uma espécie de ofensa, e toda associação do que é considerado “feminino” tenha uma conotação negativa e indesejável. Características e habilidades individuais devem ser respeitadas e trabalhadas, independentemente de sexo ou gênero.
Precisamos ensinar consentimento a nossos meninos ( e meninas também, claro). Respeitar o espaço do outro, jantando tocar o corpo de alguém sem sua permissão, ainda que seja um abraço, beijo ou carinho, e também explicar que nunca devem usar a força para impor sua vontade sobre alguém.
Enfim, educar meninos nessa nova perspectiva envolve inúmeros outros aspectos, e a medida em que a criança cresce surgem novas questões e de maiores complexidades.
Todavia, precisamos ter consciência de que esta é uma luta diária e inglória. Não somos as únicas responsáveis pela educação e formação de nossos filhos, o mundo ainda é um lugar extremamente machista. É uma batalha que pode ser perdida.
Mas, por ora, fico com a esperança de que podemos sim plantar a semente de mudança. Há muitas mulheres e alguns homens que já compraram essa briga.

Para saber mais:
Blogs:
www.militanciamaterna.com.br
Www.eueascriancas.com.br
Páginas Facebook:
Militância materna ativa https://www.facebook.com/militanciamaterna/
Já falou pro seu menino hoje?
https://www.facebook.com/jafalouparaseumenino/
Pipo e Fifi
https://m.facebook.com/pipoefifi/
Filmes:
Billie Elliot
The Mask you live in (Netflix)
Livros:
Sejamos todos feministas
Para educar crianças feministas – ambos de Chimamanda Ngozi Adichie
Curso:
Princesas de capa, heróis de avental (Instituto Cores – informações na pg Já falou pro seu menino hoje?)

Feminista, mãe solo, servidora pública, 33 anos, moro em Niterói-RJ.

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