Autonomia financeira e emancipação feminina: discutindo a nossa independência

Vendo um tanto de mulheres em relacionamentos abusivos e que se mantém presas a relacionamentos agressivos, por conta da dependência da renda do companheiro(a), acreditamos ser necessária a pauta sobre a autonomia profissional da mulher.

Sei que este texto pode vir a ser criticado por fortalecer o capital,  quando comecei a escrever até pensei nisso. Mas algo dentro de mim insistia na ideia de que era preciso conversar sobre o fato de que muitos relacionamentos são mantidos ou almejados apenas por conta do conforto financeiro. Em tempos de um sistema capitalista não há mal nenhum nisso, né!? Entretanto, não há como não deixar de problematizar o quanto esse sistema tem dificultado a nossa luta pela emancipação feminina.

A ideia é simples. Basta revisitarmos a história e analisarmos os enunciados sobre casamento e sobre as mulheres que escolhiam não se casar. São tantas as narrativas que colocam a felicidade aliada à ideia de uma família composta com um homem e filhos… E na maioria das vezes fortalecendo a ostentação, com uma sala de jantar ou uma varanda bem linda para compor “aquela foto”, sendo o homem o chef de família e principal provedor da casa. Além disso, tem o grande agravante de que historicamente ganhamos MUITO MENOS do que os homens, vivendo em uma relação EXTREMAMENTE DESIGUAL profissionalmente, vide o exemplo claro da imagem que acompanha de Neymar – mesma profissão e cargos e condições díspares de salário – brilhantemente compartilhada pelo Canal Futura (vejam os comentários). E para quem insiste em negar e não acredita nisso, recomendo leitura do relatório da Oxfam “A distância que nos une”, que detalha tudinho, comprovando esta distinção estatisticamente.

Este foi um marco forte na educação domiciliar, provocando em mulheres e homens a noção de que só é possível ser feliz em casal homem e mulher. Ela cuidando da casa e ele cuidando do dinheiro. A separação também é um outro aspecto implicado, pois, por vezes, temos o receio de nos desvenciliarmos de uma união, em prol das conquistas realizadas em casal, ou por insegurança de assumir as responsabilidades da vida, em especial, arcar com os custos de uma casa, que realmente não são poucos para quem mora sozinh@ (não por acaso, vemos cada vez mais o avanço por morar e trabalhar em hostel ou dividir apartamento em repúblicas).

Assim, essa compreensão fruto da nossa história, assola também quem escolhe uma vida só, mulheres as únicas responsáveis pelo nosso sustento “Mas vai morar sozinha como? Sem homem na casa? É perigoso”. E isso se expande a ponto de nos sentirmos incapazes de ir na esquina tomar um sorvete ou comer um churrasquinho, porque achamos que não somos dignas de fazer isso sozinhas, que gastar com nós mesmas é bobagem ou porque nos sentimos ameaçadas, com receio de acontecer algo, de nos sentirmos desprotegidas ou simplesmente de alguém julgar por não estarmos acompanhadas.

Cuidar umas das outras, implica também na atenção ao mundo do trabalho. Afinal, em nossa história também é comum abandonarmos o estudo e a profissão, para sair em busca do “marido rico” como forma de sucesso na vida. Não é comum encontrarmos alguém que pergunta: “Está namorando? E ele, é o que?” “Mais fulana aguenta ele, é médico né?!”.  Como assim gente, ele é o fulano, meu companheiro. E a gente pensa né!? Até quando o sistema vai olhar para nós pelo que somos e representamos para alguém e não pelo que temos ou pela nossa profissão?!

E, independente de como encontra-se o estado civil, é necessário o debate, porque mesmo em uma relação, a mulher pode se sentir refém – financeiramente – do seu parceiro, fruto do contexto cada vez mais capitalista, nutrido por uma história de raiz patriarcal, em que o homem foi ensinado a ser o principal provedor da casa. O que atrapalha a busca pela nossa emancipação e, por vezes, nos leva desenvolver uma postura de submissão ao outro, apenas por conta da conta bancária.

É triste pensar que isso acontece a todo momento e com cada uma de nós. É por isso, que buscamos pautar o debate sobre o tema, não buscando fortalecer a ideia do capitalismo, mas de pautar um pouco sobre estes assuntos, refletir sobre nossas escolhas e observar a forma como temos conduzido nossas vidas – em prol da felicidade de quem? A partir de qual educação? Com que perspectiva de relação? Nesta pauta, sugerimos a leitura do livro de Virgínia Woolf de 1929, intitulado “Um teto todo seu”, tem uma resenha bacana dele no youtube, que instiga à leitura.

E essa educação começa de pequena. O que ofertamos às meninas como jogos, brincadeiras ? O que ofertamos às meninas para ler? O que lhe foi ofertado? Acreditar em um futuro justo, também é incentivarmos às meninas ao contato com diferentes brincadeiras, livros, jogos, conversas, que a possibilitem almejar espaços profissionais como pesquisadoras, cientistas, engenheiras, investidoras, entre tantas outras, com desafios que não a restrinjam a cuidar da casa, de maridos e de bebês. Vamos ensinar nossas meninas a entenderem o mundo financeiro, como funciona o mercado de trabalho e a economia! Para a partir disso, poderem escolher quem elas quiserem ser (inclusive “dona de casa”). O principal motivo que prende mulheres a relacionamentos abusivos ou que geram o adoecimento e a ansiedade em ter um companheiro é a da dependência financeira. Vamos falar sobre isso, vamos ajudar as próximas.

E  com isso, reunir relatos acerca de como temos encaminhado nossa #emancipaçãofinanceirafeminina (de como temos enxergado nossos anseios por casamento, por profissão, por futuro). De como estamos conseguindo reverter o quadro de dependência financeira do homem. Provavelmente tempos muitas experiências que deram certo, de mulheres que conseguem se erguer financeiramente e que conseguem se orgulhar de suas próprias escolhas, vamos compartilhar?!

Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal do Espírito Santo (2013). Mestra e doutoranda em Educação pelo Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal do Espírito Santo (2015). Realiza pesquisas na área de Educação, com ênfase em Trabalho Docente, Formação de Professores e Educação Infantil. Atualmente mora em Vitória-ES.

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