“Sad, mad or bad” (triste, louca ou má), é uma expressão cunhada nos EUA para se referir de forma pejorativa à mulheres que por opção ou por falta de, vivem totalmente sozinhas.

Nunca foi bom para a sociedade machista elaborar uma imagem forte e independente da mulher
solteira – ao longo da história, aquelas que se atreveram a assumir esse posicionamento de forma permanente em suas vidas foram pintadas como amarguradas, desiludidas, algumas trancadas em sanatórios, outras se tornaram “a velha louca da vizinhança“, ou “a bruxa velha“, a “que provavelmente mexe com feitiçaria”.

Já falei anteriormente em um artigo aqui no blog sobre como feministas ainda hoje são chamadas de bruxas por toda essa carga quase demoníaca que a mulher rebelde (no sentido de rebelar-se contra o sistema) recebe. É claro que, especialmente no passado, muitas mulheres que passaram a vida solteiras foram levadas à isso por tragédias pessoais, mas nesse artigo vou demonstrar como essas dinâmicas estão interligadas e fazem parte de um ciclo que basicamente trata de controle sobre a vida da mulher.

Sad (triste):

Você provavelmente já escutou que fulana estava estressada porque provavelmente é “mal comida
ou “mal amada“. Nosso estado de espírito constantemente é associado à presença de um homem em nossa vida. Se estamos felizes é porque “provavelmente estamos apaixonadas”, se estamos tristes é porque provavelmente “brigamos com o namorado”, “porque não conseguimos arrumar um namorado”, “porque terminamos com o namorado”. Logo, uma mulher solteira é automaticamente
vista como triste. Já ficou provado que a química liberada pelo prazer sexual e pelo amor fazem bem
à saúde em vários aspectos, porém, quando se trata das mulheres, as cobranças são principalmente ligadas à forma de incutir nelas que elas precisam de um protetor e raramente elas são livres para viverem essas experiências de acordo com o curso natural das coisas.

Temos também o relógio biológico para a gravidez, porque conforme a mulher se torna mais velha a chance de uma gestação saudável e tranquila de fato diminui, mas é como se toda a nossa vida fosse cronometrada com hora
para tudo e se “passarmos do prazo” ou fizermos outro roteiro, nos tornamos “um fracasso”.

Mad (louca):

Por em dúvida a sanidade mental de uma mulher faz parte da dinâmica de silenciamento feminino:

manterrupting: quando uma mulher é constantemente interrompida propositalmente.

mansplaining: quando um homem insiste em explicar a uma mulher um assunto que ela já domina, ou domina mais do que ele para não ficar por baixo.

GASLIGHTING: que consiste em desestabilizar uma mulher tentando fazer ela parecer louca para os outros, ou de forma que ela própria duvide de sua sanidade.

Ex: fazê-la acreditar que algo que ele fez de errado é fruto da imaginação dela.

Ao longo de toda história conhecemos personagens reais e fictícias consideradas loucas por
comportamentos fora do comum, porém apenas uma pequena parte delas de fato era patologicamente insana, se você parar para analisar. É muito comum criar um folclore em torno de mulheres que rompem padrões para isolá-las.

Bad (má):

Espera-se que uma mulher seja sempre solícita e gentil, quando ela demonstra qualquer reação
contrária dizendo NÃO ao se sentir coagida, é punida socialmente com um estigma de grosseira que
“afasta os homens dela”. Fazer uma mulher achar que se posicionar vai deixá-la menos atraente é
uma forma de manipulação social que ainda atira mulheres em relações tóxicas para não ficarem
sozinhas. O termo “má” não é tão comum no Brasil, mas especialmente quando se trata de
feministas foi instaurado uma espécie de terror contra nós fazendo parecer que pertencermos a um movimento que luta por direitos nos coloca diretamente contra a possibilidade de nos relacionarmos com um homem e “tratá-lo bem” – quando tratar um homem bem não tem a ver com serví-lo em tudo e ser submissa a ele. O feminismo não impede qualquer mulher de ter uma relação de amor e carinho com um homem, apenas desperta nela que a responsabilidade de tratar bem não é só dela e que ela não precisa se anular para entrar ou se manter em uma relação. Então ser má, é associado à ideia de que se uma mulher está solteira é porque ela é rude com os homens ou não consegue tratá-los bem ao ponto de fazê-los querer ficar ao lado dela.

Sempre uma condição, nunca uma opção

É praticamente impossível para a maioria das pessoas que uma mulher permaneça solteira por
vontade própria, na verdade é praticamente impossível expressar qualquer plano fora da maternidade e casamento que não seja questionado com: “você vai mudar de ideia mais pra frente”.

Quando se trata de optar por não se relacionar, a resposta vem sempre acompanhada do: “mas você
pensa assim porque ainda não encontrou alguém”.

Seria ideal que toda mulher passasse pelo menos um período solteira, principalmente após sair de um longo relacionamento para se reencontrar e focar em seus projetos, mas se essa ideia muitas
vezes é esmagada pelo senso comum do “um amor cura o outro”, com a necessidade de ter alguém
por perto para preencher um vazio muito mais ligado à outras faltas que precisam de atenção, uma
mulher optar definitivamente por não se relacionar “sério” com alguém para priorizar outras coisas em sua vida, parece ainda mais inaceitável.

É claro que ninguém é imutável e que na maioria das vezes se apaixonar e se relacionar acontece de forma espontânea sem que possamos controlar, e que algumas mulheres são empurradas para a chamada solidão compulsória por N fatores, mas seria bom que a decisão de uma mulher que opta por ficar só, por mais que depois ela mudasse de ideia e seguisse outro caminho, fosse respeitada.

Tive contato com esse universo poucos anos atrás quando vi algumas mulheres trocando impressões à respeito disso em comentários de facebook e descobri que, por excesso de decepções, pela dificuldade em encontrar parceiros alinhados com seu posicionamento feminista ou simplesmente por causa da carreira ou de uma forma de vida mais alternativa, muitas mulheres estavam decidindo de fato viverem sós.

Descobri que há inclusive um movimento significativo de pessoas, não só mulheres fazendo essa opção. Algumas muito além de relacionamentos, mas para morarem sozinhas e às vezes até em locais mais isolados.

Nesse nicho de mulheres que escolhem permanecer solteiras, algumas optam pela satisfação sexual alternativa sem precisarem realmente conhecer pessoas e outras decidem ter apenas relações casuais que não interfiram em suas rotinas.

Na Idade Média existia o termo “spinster” (algo como “solteirona”) para se referir à mulheres solteiras porque não precisaram se casar para serem sustentadas por um marido. Era algo inclusive positivo e de certa forma “empoderador”. Mais tarde ele passou a ser usado para fazer chacota de mulheres solteiras com mais de 40 anos. Houve uma certa tentativa de desmistificar o termo, mas de modo geral a mulher solteira, principalmente por opção é inevitavelmente considerada e infelizmente continuará sendo vista como triste, louca ou má, por muito tempo. As amarras do patriarcado seguem apertadas em algumas mulheres, e uma parte delas sequer imagina uma realidade diferente daquela que esperam dela.

Enquanto escrevia esse artigo lembrei de uma matéria de TV de anos atrás quando pouquíssimo se falava sobre feminismo na mídia, que acompanhava a vida de uma mulher solteira que costumava sair para a balada sozinha, e o entrevistador questionava inclusive algumas pessoas na festa sobre qual era a opinião delas e a maioria dizia que era “estranho”. O senso comum de que ser solteira quer dizer ser solitária, cria um medo mórbido em algumas mulheres e a ilusão social de que uma mulher totalmente desacompanhada em um evento público está à procura de um homem, o que resulta em abordagens machistas e assédio.

A nós resta apenas celebrar as que têm coragem de assumir esse posicionamento em mais um passo importante na desconstrução do papel de gênero feminino e torcermos para que a próxima geração de mulheres tenha realmente a opção de se relacionar ou não, e seja respeitada independentemente do que decidir, sem qualquer represália. Além de finalmente chegarmos ao ponto em que mulheres não precisem mais se manter em relações tóxicas por pressão social.

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textos de apoio:

O fenômeno do isolamento social por Substantivo Plural

O que une as mulheres é a solidão

Porque as feministas são chamadas de bruxas

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