O grupo no facebook “Mulheres unidas contra o inominável”, virou um sucesso e ganhou uma enorme adesão há quase duas semanas, num primeiro momento reunindo um milhão de membros e atualmente com 2 milhões e 500 mil mulheres. O grupo ganhou as manchetes dos principais sites do Brasil e do mundo como uma das maiores, senão a maior expressão de rejeição à um candidato já vista na internet.

Contando inclusive com a participação de brasileiras que moram no exterior, as postagens se dividiam entre desabafos de mulheres que se sentiam oprimidas em seus próprios círculos familiares e sociais por discordarem das ideias preconceituosas expressas pelo candidato, interação entre estados, discussões políticas (amigáveis) e troca de informações.

Recebendo cis e trans, feministas e não feministas, de esquerda e de direita, ateias e cristãs, o grupo tornou-se um espaço democrático e acolhedor para mulheres expressarem seu desejo em impedir que um candidato com atitudes aversivas chegue à presidência.

O crescimento exponencial do grupo exigiu que se desenvolvesse uma logística para atender todas as demandas não só das seguidoras – já que no meio da semana o grupo atingiu um pico de 1 milhão e 300 mil solicitações pendentes e cerca de 10 mil novas solicitações por minuto – mas também a procura incessante da mídia pelas administradoras, fazendo-se necessário a criação de equipes especializadas em vários setores também fora do grupo.

Tudo acabou tornando-se um grande movimento onde mulheres de todas as classes sociais e áreas profissionais doaram um pouco do seu tempo em nome de um ideal maior. Apesar de apartidário e não exclusivamente feminista a participação das nossas companheiras torna-se um marco para o feminismo moderno que vinha sendo acusado de “não fazer nada efetivo e se apoiar apenas nas primeiras conquistas históricas”.

A movimentação despertou mais do que nunca o desejo das mulheres em se tornarem mais ativas na política e fazer suas vozes serem ouvidas, além de terem se atentado para o poder que existe quando todas nós nos unimos ao redor de uma causa e por mais que algumas não queiram se nomear feministas, não há nada mais feminista do que isso.

Por que #elenão?

O inominável atraiu a ira das mulheres quando em 2003 atacou a deputada Maria do Rosário durante sessão em Câmara dizendo que não a estupraria porque ela não merecia. O parlamentar que sempre foi conhecido por declarações polêmicas, ganhou com isso um processo por apologia ao estrupo e a partir daí virou alvo de protestos feministas.

Enquanto muitas pessoas disseram não entender porque ela havia se sentido ofendida e outras aplaudiram já que a deputada é publicamente a favor dos direitos humanos, as feministas abriram um debate acerca da fala do candidato incentivar que de alguma forma uma mulher mereça ser estuprada, quando sabemos que em qualquer circunstância o abuso sexual é uma das violências mais abomináveis existentes.

De lá para cá, ele vinha colecionando ofensas além de crimes raciais e de injúria contra negros, indígenas e homossexuais, em suas entrevistas, redes sociais e nos debates aos quais compareceu.

Com a iminência de um governo repressivo contra minorias e principalmente contra as mulheres, o inominável deixou de ser apenas um candidato polêmico para se tornar uma ameaça real.

Saber que amigos e pessoas queridas o apoiam, para quem faz parte dessas minorias deixou de ser uma questão puramente política para se tornar algo pessoal.

Tornou-se impossível não se questionar até que ponto as pessoas concordam apenas com suas poucas promessas governamentais que não tem a ver com discursos violentos, ou integralmente com seu posicionamento que nesse momento realmente é fascista. Seu índice de rejeição em algumas pesquisas chega a 49% e entre as mulheres é muito maior, por isso de certa forma ele pode ser considerado um inimigo público.

Crime Virtual

Art. 154-A. Invadir dispositivo informático alheio, conectado ou não à rede de computadores, mediante violação indevida de mecanismo de segurança e com o fim de obter, adulterar ou destruir dados ou informações sem autorização expressa ou tácita do titular do dispositivo ou instalar vulnerabilidades para obter vantagem ilícita:

Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa.

É preciso compreender que o ataque sofrido pelo grupo mais do que um crime virtual foi um crime contra a democracia.

A incapacidade de lidar com uma movimentação legítima e contrária, só mostra o quanto os eleitores do candidato são instáveis e o quanto por mais que o próprio não tenha se envolvido diretamente com o crime (ainda que seu filho tenha espalhado fakenews de que o grupo era falso), pode ser o pivô de uma das cenas políticas mais caóticas dos últimos tempos caso chegue à presidência.

Se uma ação criminosa dessa magnitude se deu no período eleitoral, podemos imaginar o que é possível que seus “fãs” façam em seu nome caso ele vença. Vivemos uma época extremista onde tudo é pautado pelo ódio e essa onda em apoio ao candidato só demonstra ainda mais a desigualdade na balança.

É completamente absurdo comparar que mulheres reunidas num grupo exercendo o seu direito democrático de se manifestarem contra um candidato em época eleitoral seja algo que mereça um revide criminoso. No máximo os apoiadores do inominável, deveriam se aglomerar em grupos favoráveis e discutirem suas próprias estratégias para elegerem seu candidato.

Ao contrário disso, mais uma vez incentivados por machismo e misoginia, seus seguidores legitimaram a violência como estratégia política. Estarrecedor que ainda não tenha ficado claro para algumas pessoas o quanto isso é perigoso e que não se trata apenas de divergências de ideologias, mas sim de uma questão de segurança.

créditos na imagem

É claro que mais do que nunca demonstra também a força, o poder e a inteligência das mulheres em se organizarem e finalmente superarem a construção social da rivalidade feminina em prol do coletivo. O grupo tornou-se mais do que uma ferramenta contra uma figura pública, um meio de redescoberta de uma parte da sociedade que sempre foi subestimada principalmente em relação ao conhecimento sobre política.

Às que estão nos apoiando nesse movimento: sigamos firmes e focadas sem que as quedas do grupo influenciem negativamente em nossa resposta nas ruas e nas urnas, mas também sem deixar de cobrar que o crime seja punido e que a violência deixe de ser instrumentalizada.

*Além do grupo, a fundadora Ludimilla Teixeira e outras administradoras foram hackeadas. O facebook trabalhou juntamente com a Polícia Federal e o grupo foi restabelecido. As administradoras seguem reorganizando. O candidato encontra-se hospitalizado após atentado e fora da campanha de rua até o fim do primeiro turno*

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O ato independente em apoio ao movimento que ficou conhecido como #MUCB, e irá ocorrer no Rio de Janeiro, já conta com mais 100 mil interessados. O #MUCB agradece e devolve o apoio à todos, mas nem um foi criado diretamente pela administração do grupo principal. Porém, ir para a rua é muito importante nesse momento, pesquise o ato no seu estado e confirme presença.

imagem reproduzida da internet

**confirme informações com a organização dos eventos, o TODAS fridas não se responsabiliza.

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Imagem de destaque por Ribs

Texto de apoio:

Declarações polêmicas do presidenciável

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