imagem reproduzida da internet

A Série

Esse mês assisti a primeira temporada, até o décimo capítulo, da série que vem sendo muito elogiada pela crítica: Dietland. Anunciada pelos meios que seria exibida pela amazon prime, porém assinei e não a encontrei lá. Tive que baixar pela internet, e posso garantir que é digna de maratona, assisti em 2 dias, só porque tinha que trabalhar senão era direto, achei genial.

Dietland é uma série de televisão dramática de humor sombrio norte-americana criada por Marti Noxon baseada no livro de Sarai Walker, esperado em português, foi considerado como um dos dez melhores livros de entretenimento da concepção de Entertainment Weekly de 2015.

Com o objetivo de derrubar o patriarcado, o enredo conta com uma protagonista de 130 quilos, uma guru antidietas e um grupo terrorista feminista chamado Jennifer.

A protagonista se chama Alicia Kettle, mas todos a chamam de Plum (ameixa em inglês), suculenta e arredondada, um apelido “carinhoso” para gorda, só que não.

Escritora, ela trabalha respondendo emails que as seguidoras de uma revista de moda e beleza enviam à editora, mulher considerada poderosa, rica e ícone de beleza. Para completar seus ganhos, Plum faz doces e vende numa cafeteria de um amigo.

O começo da série gira em torno a uma ideia comum entre mulheres gordas em nossa sociedade, representada pela protagonista com suas inúmeras tentativas de emagrecer e não conseguir ficar magra. Aparece um desespero por não lograr a conquista do corpo magro após inúmeras tentativas e a ideia que tudo vai mal porque ela está gorda surge em vários episódios.

Assim, a idealização em fazer uma cirurgia bariátrica é defendida com unhas e dentes pela protagonista gorda.

Como na vida real, o procedimento surge como que se todos seus problemas se solucionarão e uma nova vida de felicidades surgirá após a cirurgia realizada, ou seja, quando se tornar magra.

De sentido comum, encontrarmos nos dias atuais, mulheres gordas acreditando nessa ideia, na qual: Todos meus problemas se resolverão quando eu conseguir ser magra.

Comum esse pensamento, porque essa ideia é vendida, manipulada e imposta em nossa sociedade, tanto pela mídia, como pela ciência, medicina, família, escola, etc.

Contudo, muitas coisas começam a acontecer e Plum vai se deparando com outras possibilidades de ser feliz ao invés de emagrecer. Gradativamente, com a ajuda da guru antidietas e do grupo feminista Jennifer, a mulher gorda começa a se empoderar e perceber que emagrecer não resolverá todos seus problemas, e se aceitar e gostar de si mesma pode ser o principal objetivo para uma vida mais produtiva e feliz.

A Gordofobia apresentada pela série

Discutir Gordofobia numa série como essa é muito importe, já que cada grupo social cria expectativas em torno ao corpo, e como disse de forma negativa sobre o corpo gordo, já que se espera de qualquer maneira que o gordo deixe de ser gordo a qualquer custo.

O sociólogo e antropólogo Claude Fischler em Obeso benigno, obeso maligno, capítulo do livro da Denise Sant’Anna historiadora da PUC-SP, Políticas do corpo: elementos para uma história das práticas corporais de 1995, explica que: “(…) há um século nos países ocidentais desenvolvidos os gordos eram amados; hoje, nos mesmos países, amam-se os magros.”

No mundo contemporâneo estar fora do arquétipo atual de belo, leva qualquer indivíduo a sentir-se excluído, triste e inconformado com seu próprio corpo e essa insatisfação movimenta um mercado bastante diversificado que inclui academias, moda, cirurgias, alimentação, remédios, aparelhos, etc.

O que efetivamente se vende é a possibilidade de se permanecer vivo, belo e jovem, mas, para tanto, a magreza se sobressai como um valor em si mesmo.

Fischler em suas pesquisas explica que vivemos em uma época de “lipofobia” que está diretamente ligada a uma “obsessão pela magreza, sua rejeição quase maníaca pela obesidade.”

Já, segundo Sant’anna em seu livro, Entre o peso do corpo e o pesar da alma: notas para uma história das emoções tristes na época contemporânea de 2014, conta que nos Estados Unidos em 1926 um médico chamado Leonard Williams escreveu um livro intitulado “Obesidade”, no qual os indivíduos mais pesados eram associados a um caráter ávido e repulsivo, para o médico, ninguém poderia ser gordo, medidas deveriam ser tomadas rapidamente para o emagrecimento.

Esse tipo de discurso continua e é confirmado e atualizado, seguindo a tendência de excluir todo gordo dos espaços sociais conformados a um discurso majoritário de saúde, mas que tem causado muitos problemas da mesma ordem a mulheres com corpos maiores. Já que mulheres gordas adoecem pelo tratamento recebido socialmente de desprezo, nojo ou exclusão.

Na contramão desse preconceito, existe uma reação cada vez mais presente a essa imposição de só um tipo de corpo, pode-se observar, por exemplo, que nos últimos anos existe uma confrontação a esse pensamento através de movimentos e ativismos variados contra a gordofobia.

No cotidiano, a gordofobia causa dificuldades em enfrentar a estigmatização, pois frequentemente o discurso preconceituoso vem ocultado no discurso de valorização da saúde e de preocupação com a morte.

A ideia de preocupação com a saúde de quem é gordo já demonstra indícios de gordofobia, uma vez que se presume que aquele sujeito é doente só por estar acima do peso considerado ideal, enquanto pessoas magras não são abordadas e questionadas a respeito de seus níveis de pressão arterial, por exemplo. Se a magreza torna-se ideal de saúde, ser gordo, além de esteticamente desvalorizado, torna-se uma patologia.

Em contraposição a essa opressão, que afeta, sobretudo pessoas do gênero feminino, tem sido criados canais de ativismo cibernético tendo como protagonistas mulheres que se propõem a “representar” os corpos gordos de maneira positiva.

No livro Micropolítica: Cartografias do Desejo de Félix Guatarri e Suely Rolnik, os autores levantam essa discussão dos corpos se reverberarem como outro modo de ser e estar no mundo, admitindo um corpo diferente ao imposto como padrão, como resistência a imposição de só um corpo possível: o magro.

A noção de um corpo conformado ao que se considera belo e saudável exige do sujeito muito mais do que a exibição do corpo magro e malhado, pois é exigido inúmeros critérios de comportamentos a serem seguidos, incluindo práticas de consumo, padrões de gênero e um entendimento do próprio significado do que significa ter um corpo.

Por isso é importante existir trabalhos como Dietland colocando em discussão essa padronização de corpo e beleza no mundo contemporâneo, apresentando assim, outra versão menos cruel do que de costume.

Colocando em evidência o lugar social do corpo gordo feminino, todo estigma nele existente e a resistência dessas mulheres para serem aceitas e respeitadas com dignidade em nossa sociedade.

 

Sarai Walker : Escritora e Feminista Gorda

Sarai Walker publicou diversos artigos, alguns no New York Times, Walker. Ela é gorda e ativista #bodypositive, seus textos frequentemente refletem sobre a tentativa de recuperar a palavra gordura como uma mera descrição corporal, como alta ou baixa.

Defensora dos direitos e dignidade para o corpo gordo, em primeira pessoa escreve sobre como seu corpo é tratado e exposto a humilhações em nossa sociedade da magreza.

A escritora também defende a ideia de que os corpos podem ser saudáveis em qualquer tamanho e que os maus tratos que o corpo gordo sofre é uma questão política.

Ainda defende que a literatura contribui com a imagem negativa das pessoas gordas no cinema, por exemplo, ela aponta que todos os personagens gordos geralmente estão ligados a tipos ruins, mentirosos, avarentos ou então são cheios de ódio e tristeza, ou ainda engraçados.

Walker se reconhece como feminista e faz uma crítica a objetificação e violência das mulheres. Como ativista feminista ela não se preocupa com a simpatia e perfeição feminina, em suas personagens se concentra em mostrar mulheres humanas com muitos defeitos.

Seus personagens mulheres não se encaixam nas convenções da feminilidade simpática, ou magros gentis, ao contrário ela apresenta pessoas fora dos padrões e de comportamentos normalizados.

 

A Necessidade de pautas GORDAS no Feminismo!

O que mais me interessou na série, é algo que muitas vezes sinto falta na militância feminista, o Feminismo GordX. Falta pauta para discussão da gordofobia como tema prioritário.

A série é antes de qualquer coisa feminista, e demonstra isso quando mostra como os homens são cruéis com as mulheres, no sentido de apresentar como muitas mulheres morrem no intuito de satisfazerem desejos masculinos, morrem buscando a beleza numa cirurgia, dieta, etc.

Mas ser bela para quem? Minhas pesquisas, em quatro anos investigando gordofobia, mostram que essa resposta em sua maioria é: Estar bonita para os homens, para ter um namorado, casamento ou ainda companheiros. Ser admirada pelos homens e apresentada com orgulho a sociedade.

No meio a toda essa discussão, a autora coloca uma mulher gorda como protagonista, deixando claro que o problema da gordofobia é um dos pilares da discussão sobre padrões de beleza e feminismo.  Eu amei essa sacada porque como venho pesquisando e escrevendo: a Gordofobia é uma pauta importantíssima no feminismo.

A violência contra a mulher não é, nem de longe só a física, é claro que essa existe e é terrível. Mas a série apresenta além dessa violência, a crueldade da padronização da beleza no corpo feminino e a loucura que existe em busca, a qualquer preço, por ser LINDA.

E então a série levanta o questionamento subjetivo, mas coletivo da protagonista, gorda, mas escritora e inteligente de: Por quê tenho que ser linda? Posso ser inteligente, forte, honesta, amiga, mas o mais importante em nossa sociedade é SER LINDA. E isso inclusive, muitas vezes se repete no ativismo. Isso é outra discussão que quero levantar num outro momento.

Os homens podem ser tudo e lindos, ou não, para ser um bom companheiro, marido, namorado. A mulher não, temos que ser LINDAS e isso mata, corrói, destrói e inviabiliza a vida de muitas mulheres de serem outras coisas que não belas.

Esse foco de desespero em alcançar a aceitação de beleza, faz com mulheres só pensem nisso, que tudo gire em torno a isso, enquanto o mundo cheio de possibilidades está para o sexo oposto. E tirar essas oportunidades de alguém, é muita violência.

Identifiquei-me com essa proposta da série, já que para mim a questão antigordofóbica em nossa sociedade passa necessariamente pela discussão feminista, não há como não estar em pauta, mesmo que pessoalmente não se identifique esta ligação. Ou seja, a luta por consciência sobre seu próprio corpo e emancipação de um sistema que te faz infeliz é uma reivindicação feminista.

Lí um artigo na Revista Pagú da Unicamp de 2014, escrita pela Jussara Prá sobre direitos políticos, gênero e feminismo e ela explica em seus escritos que,

“A consciência feminista vai além da história do movimento em si ou de determinados grupos envolvidos na luta pela emancipação feminina.” Interessante que a pesquisadora aponta que existem diversas pessoas que atuam dentro do que se entende por feminismo sem nunca ter parado para se posicionar se é ou não feminista, e as vezes nem sabem o que seria uma feminista. Já que qualquer pessoa que seja contra a violência a mulher, baixa participação política, desigualdade salarial apóia a luta feminista.

O ativismo gordo faz parte da resistência e reinvidicações de mulheres de todas as idades que se rebela contra as violências cotidianas, já que a opressão estética feminina é violenta desde que nascemos.

Cada vez mais cedo, a pressão pelo corpo perfeito aparece como cobrança social, na família, em casa, na escola, porém cada vez mais cedo também, as meninas estão questionando o porquê da nossa sociedade se organizar dessa maneira, na qual a mulher sempre esta posicionada socialmente abaixo do homem, dentro dessa reflexão, aparece a vontade que essa condição mude.

Assistir Dietland foi a pitada do ingrediente que faltava na receita que venho construindo esses anos todos, sobre o corpo gordo feminino ser entendido politicamente, através de pautas feministas que levantem a discussão e visibilidade na sociedade sobre o corpo gordo existir e resistir a toda construção estigmatizadora que o corpo social defende e autoriza, através de um discurso normatizador  que os gordos maiores devem desaparecer custe o que custar.

 

Para Consultar

 

Jarid Arraes, 2015. Gordofobia como questão política e feminista. Revista Fórum. Disponível em: http://www.revistaforum.com.br/digital/163/gordofobia-como-questao-politica-e-feminista

 

Fischler, Claude. 1995. Obeso benigno, obeso maligno. In: SANT’ANNA, Dd. B. (Org.), Políticas do corpo: elementos para uma história das práticas corporais. São Paulo: Estação Liberdade

 

Michel Foucault,. 1997. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes.

 

Felix Guattari; Suely Rolnik, 1996. Micropolítica: Cartografias do Desejo, Petrópolis: Vozes

 

Jussara Prá Mulheres, direitos políticos, gênero e feminismo. UNICAMP: Cadernos Pagú (43), julho-dezembro, 2014.

 

Débora Sant’Anna (Org.). Política do Corpo. São Paulo: Estação Liberdade,1995.

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