Ela é Marta.

Sentada na sala de espera. Mãos sobre os joelhos. Olhos perdidos. Ouvidos atentos ao sons saídos da sala ao lado.

Na sala ao lado, tem Bruno. Bruno. Menino de bochechas vermelhas, sorriso fácil e muito espirituoso. Bruno tem alguns “problemas”. É que ele não é uma “criança comum”. Pelo menos, é isso que ela, Marta, houve o tempo todo.

Bruno tem um cromossomo diferente do de Marta. Ela tem 46. Bruno tem 47 cromossomos. Isso faz de Bruno, um menino com Síndrome de Down. Mas pra Marta, ele é só o Bruno. Seu filho com 8 anos de idade. Que as vezes a deixa enlouquecida com tantos questionamentos. Que gosta de abraçar forte. Observa as nuvens. Bruno tem um certo fascínio por elas. Sabe que existem nuvens do tipo cirrus, cumulus e stratus. Bruno gosta muito de observar e explicar qual é a nuvem que apareceu bem acima de nossas cabeças.

Bruno ainda não entende bem porque ele senta no banco do parquinho e outras crianças se levantam.

Bruno também não entendeu quando a vizinha, do apartamento 53, disse que o Arthur (garoto com apenas 46 cromossomos, assim como Marta) não poderia brincar com ele. Bruno só queria falar das nuvens e sentar no parquinho. Jogar bola talvez.

Lá na sala, Bruno faz mais uma sessão de terapia. Frequente na vida de Bruno. Desde que Marta descobriu que Bruno teria 47 cromossomos e não 46, como ela.

Quando Marta descobriu a gravidez, Jorge ainda estava por perto. Jorge, também tem 46 cromossomos. Naquela época, Marta ouvia muito que tinha sorte. Afinal, namorava o Jorge. O cara legal, romântico, atencioso, que dizia que queria casar e construir uma família com ela, Marta. Mas Jorge não cogitou a hipótese de 01 cromossomo a mais.

Marta sabia por alto quais as chances de ter uma criança com 47 cromossomos. Hoje, ela vive isso. Sabe que uma grávida de 30 anos tem 1 em 1.000 chance de ter um bebê Down. Aos 35 anos, as chances são de 1 em 400. Aos 40, 1 em 100, e aos 45 as chances são de 1 em 30. No entanto, mulheres com menos de 35 anos também podem gestar uma criança com síndrome de Down.

Quando Bruno chegou, Jorge partiu.

Partiu de cidade. Mudou de telefone. Partiu a vida da Marta em duas.

Jorge, às vezes “ajuda” com os custos da criação do Bruno.

Só que Marta, hoje não tem mais a “sorte” que tinha antes.

Hoje, é apenas Marta e Bruno. Jorge partiu.

Jorge, não entende que existem dias muito difíceis na vida de Marta e de Bruno. Ele nem de longe imagina como é viver com 47 cromossomos quando quase todas as crianças do prédio, tem 46. Jorge nunca precisou explicar pra Bruno que ele não é malvado. Que aquele menino do apartamento 53, apenas não podia brincar (Marta ainda tem uma certa dificuldade em dizer isso de outra forma).

Antes, Marta gostava de dançar. Jogava vôlei aos finais de semana. Ela era realmente boa nisso. Havia formado a pouco e conseguido um emprego razoável. Marta gostava de pintar os cabelos. Ouvir música e lia muito. Sobre muita coisa.

Hoje, Marta agradece o emprego razoável. Afinal, ainda bem que existe esse plano de saúde. Para bancar as terapias frequentes de Bruno. Jorge não participa.

Marta ainda lê muito. Normalmente sobre a vida com 47 cromossomos. Ah! Às vezes sobre nuvens e estrelas. Bruno fica fascinado quando Marta e ele falam sobre isso. Jorge não participa.

Marta hoje sabe que perdeu o jogo de vôlei. Ou a vontade de jogar essa partida. Mas ela não desistiu. Marta tem muitos sonhos. E tem Bruno. É incrível como Marta consegue ser forte. Bruno precisa dela. Hoje, vivem Bruno e Marta. Jorge, não participa.

De repente, a porta da sala abriu. Bruno entrou saltitante. Deu um até logo pra moça que o atendia. Um abraço em Marta e eles partiram. Não de cidade. Apenas pra escola de Bruno, e Marta pro trabalho.

Eu estava na recepção. Conheço Marta desde quando ela descobriu os 47 cromossomos de Bruno.

Mas a Marta, podia ser a Ana, a Letícia ou a Antônia. Porque existem muitas Martas. E tem Bruno, Miguel, Lucas e Clara. São muitas crianças de 47 cromossomos que passam por aqui todos os dias.

Jorge? Ah! Jorge tem um monte. Mas eu quase não os vejo por aqui. É que eles dificilmente, participam.

Admiro muito a Marta. Como ela é incrível.

Espero que ela tenha sorte. Não de encontrar o Jorge. Acredito que nem seria “sorte”.

Mas de que o Bruno, seja feliz. Forte como a Marta. Que o menino do apartamento 53 possa brincar com ele. E que as pessoas entendam que os 47 cromossomos do Bruno, não são impeditivos para que ele cresça, aprenda. Se torne um adulto como tantos outros. Com sonhos. Com vida. Que o mundo seja inclusivo de verdade.

E que Jorge, um dia aprenda que quem perdeu foi ele. Afinal, ele não participa.

 

 

 

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